Lutas íntimas e deslizes cotidianos
- fergs

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Seria ideal que os cooperadores encarnados, após o encerramento dos trabalhos mediúnicos se mantivessem, quanto possível, no clima psíquico que fruíram durante a reunião, meditando no que ouviram, digerindo mentalmente melhor as comunicações, incorporando aos hábitos as lições recebidas, orando... Tal atitude, que lhes será sempre de alto alcance positivo, ajudar-nos-á a contribuir para que se melhorem moralmente por prosseguirem em ação edificante e aprendizagem, no desdobramento que os compromissos espirituais a todos nos facultam.[1]
No capítulo “Considerações e Preparativos”, integrante do livro Nas Fronteiras da Loucura, Bezerra de Menezes faz importantes apontamentos sobre a psicofonia do médium Jonas, anotando questões atinentes à preparação do trabalhador antes da reencarnação, seus compromissos e lutas para se manter fiel ao planejamento estabelecido como via de elevação espiritual. O panorama descrito trata de um atendimento aos envolvidos em drama obsessivo com o doloroso quadro de um aborto provocado, acentuando o ódio entre os contendores - a mãe e o Espírito abortado.
Após o atendimento na reunião mediúnica onde o choque anímico funciona à guisa de anestésico, o Espírito adormece e durante esse entorpecimento revive acontecimentos passados, numa espécie de catarse inconsciente. Em complementação ao trabalho realizado, a atividade socorrista tem continuidade no momento do sono físico do médium.
Esses momentos de prorrogação da atividade mediúnica defluem da capacidade dos medianeiros manterem-se no ambiente fluídico construído na reunião, mesmo após o encerramento das atividades no plano físico. No caso de Jonas, o benfeitor Bezerra de Menezes refere que ele não possui compromisso conjugal e nem filhos, sendo, portanto, alguém que se apresenta mais livre e despreocupado.
Tal afirmativa pode levar à conclusão equivocada de que os médiuns em compromissos conjugais e com filhos estejam em situação desfavorável para o exercício do labor mediúnico, o que efetivamente não acontece. Cada seareiro ao renascer tem as lutas e os obstáculos necessários para sua edificação íntima. Alguns trazem graves compromissos de superação no campo da afetividade e para tanto requerem a vida em soledade para a reorganização das suas forças sexuais, outros, após estudos e preparação antes do mergulho no vaso fisiológico, programam-se para sublimar a sexualidade no convívio do lar, sustentando múltiplas solicitações a fim de manter o equilíbrio no casamento e nas lides educativas da paternidade e da maternidade. Por isso, em quaisquer dessas experiências cabe a quem as vive compenetrar-se de que são oportunidades de disciplina da vontade e retificação da conduta.
As recomendações trazidas por Philomeno de Miranda, recebidas de Bezerra de Menezes, compõem um guia seguro ao médium que deseja validar a sua faculdade perante as equipes espirituais, credenciando-se à inserção nas atividades transcorridas durante e após a reunião mediúnica.
O estudo do capítulo XXIX de O livro dos Médiuns leva-nos a conhecer as reuniões espíritas instrutivas, aquelas onde se “pode colher o verdadeiro ensino”,[2] e dentre as suas características está a seriedade, a utilidade dos seus fins, a presença de Espíritos bons e a condição dos assistentes para que os bons Espíritos consintam em comparecer. Diante desses preceitos reputamos a importância da fala de Manoel Philomeno de Miranda[3] ao recomendar a manutenção de algumas posturas após a reunião, pois que se coadunam plenamente com os seus objetivos. São elas:
Meditar no que se ouve: as histórias, dores e sofrimento dos Espíritos trazidos para o socorro e tratamentos espirituais nas reuniões sérias são elementos de estudo e reflexão para os participantes. A lei de causa e efeito no processo de resgate das faltas - arrependimento, expiação e reparação – são demonstradas nesses momentos em toda a sua crueza e desses quadros podemos retirar proveito para alinharmos os rumos que estamos traçando em nossas vidas.
Digerir, mentalmente as comunicações: Todas as comunicações recebidas em uma reunião instrutiva trazem conteúdos a serem avaliados, quer sejam advindas de Espíritos enfermos, quer sejam dos Bons Espíritos, instrutores e mentores dos grupos. As comunicações psicofônicas, cujos teores revelam o sofrimento como consequência das imperfeições morais, são materiais propícios para o ensejo de revisitarmos nossas ações, os pensamentos nutridos e vícios a serem vencidos para o desenvolvimento de virtudes, visando um processo menos doloroso com menor tempo e intensidade da perturbação após morte e diminuir o patamar das dores durante a encarnação. De outra banda, as mensagens de orientação trazidas mediante a psicofonia ou psicografia devem ser avaliadas, lidas, cotejadas e meditadas com os princípios espíritas para subsidiarem o raciocínio lógico e formarem a convicção como pressupostos de mudança atitudinal
Incorporar aos hábitos as lições recebidas: essa é a meta da encarnação. A educação integral do ser se inicia pelo correto direcionamento mental na disciplina da forma de pensar e pelo embasamento das ações em princípios nobres, que repetindo-se edificam os hábitos saudáveis, estabelecendo para a criatura um roteiro de aprimoramento moral. As lições vertidas pelos amigos espirituais nas reuniões mediúnicas são cuidadosamente planejadas levando em conta as necessidades também dos encarnados a elas presentes e, portanto, devem ser observadas na vida de relação.
Orar: a oração, com seus múltiplos efeitos, é sempre uma prática de ajuste da sintonia aos propósitos benfazejos, fortalecendo o ânimo de permanência nos estágios propiciadores à ampliação do alcance das atividades desenvolvidas no trabalho mediúnico. O estado de oração é um status que vai além do instante em que a prece está sendo proferida ou mentalizada, mas se dá quando permanecemos imbuídos do sentimento de gratidão, de reconhecimento e persistimos nas tarefas que nos fazem dignos das rogativas veiculadas.
Convém lembrar que os Espíritos na erraticidade são as almas dos homens que habitaram a Terra, carregando as dores, mazelas, virtudes e vícios semelhantes aos vivenciados por nós e pelos que conosco compartilham a encarnação, e são estes os companheiros com os quais devemos exercitar as qualidades do homem de bem, compreendendo que a vida transcorre em ambas as dimensões submetida a mesma e imutável Lei que nos recomenda amar o próximo como a nós mesmos.
As lutas íntimas e os deslizes cotidianos são convites para intensificarmos o aproveitamento das reuniões espíritas, onde além do ensino moral temos a oportunidade de estudar os fatos e suas consequências, alinhando-os com as nossas vivências, recolhendo com compaixão os inúmeros testemunhos desses náufragos da espiritualidade, apontando-nos os perigos dos atalhos que nos distanciam da lei divina.
Fixado esse roteiro para o exercício da faculdade sorveremos muitas alegrias a cada vez que defrontarmos os nossos adversários interiores e nos sentirmos vitoriosos, superando os limites que as imperfeições nos impõem. A cada pequeno avanço, distanciando-nos do homem velho, descobrimos a nossa capacidade de luzir e isso forma a conexão com o Criador e por consequência amplia a condição de vivenciarmos a Sua Lei.
Referências:
[1] PEREIRA FRANCO, Divaldo; Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Nas Fronteiras da Loucura. Leal Publisher. Edição do Kindle.Capítulo 26
[2] KARDEC, Allan. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. O livro dos médiuns FEB Publisher. Edição do Kindle. Capítulo XXIX, item 327.
[3] Idem 15









































