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Utilidade da Escala Espírita para o exercício da mediunidade

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    fergs
  • 19 de jun.
  • 4 min de leitura

Vinícius Lima Lousada[1]

 

Um ponto capital na Doutrina Espírita é o das diferenças que existem entre os Espíritos, sob o duplo ponto de vista intelectual e moral; seu ensino, a esse respeito, jamais variou; não menos importante, porém, é saber que eles não pertencem eternamente à mesma ordem e que, em consequência, essas ordens não constituem espécies distintas: são diferentes graus de desenvolvimento. (...) - Allan Kardec[2]

  

A filosofia racional e consoladora do Espiritismo não nasceu a partir de especulações pessoais, jamais. Kardec procurou dar atendimento científico ao fenômeno que teve à sua vista com a perspectiva metodológica do paradigma de Ciência em vigor, em conformidade com a época. Dessa forma, na lida com os Espíritos, o mestre evitou deduções embebidas no imaginário religioso a respeito da vida após a morte ou sobre a condição dos que já haviam partido para a vida espiritual.

Livre dos dogmas, que um dia chegaram a considerar o diálogo com o além-túmulo uma profanação, Kardec pôs-se a indagar os Espíritos sobre a sua natureza e realidade existencial por ocorrência do desligamento deles do corpo físico e, compreendendo a sociedade do mundo invisível, o mestre nos deixou um legado indelével para que a relação com os Espíritos seja dotada de conhecimento de causa, método e circunspecção, não devendo nunca ser empreendida com ignorância, crença cega, medo ou espontaneísmo. A partir do conhecimento das leis que regem as comunicações entre encarnados e desencarnados podemos, nas reuniões sérias do centro espírita como um local de estudo superior e serviço edificante, desenvolver diálogos educativos entre os dois planos da vida.

Ocupado em partilhar com o movimento espírita nascente os resultados de suas observações, Kardec publicou na Revista Espírita e, depois, na segunda edição de O Livro dos Espíritos, a Escala Espírita, dando-nos a entender, com esse saber consolidado pelo ensino coletivo dos Espíritos, que o mundo dos Espíritos é ocupado de seres de diferentes categorias evolutivas, em razão do saber, experiências e progresso adquirido por mérito próprio. Aliás, não é demais lembrar que, em O que é o Espiritismo (1859), no diálogo com o cético quando é tematizada a Origem das ideias espíritas modernas, também é abordada essa questão, conforme se pronuncia Kardec: “(...) se reconheceu entre eles todos os graus de bondade e malvadez, de saber e ignorância. Uma vez bem informados acerca dos defeitos e das boas qualidades que entre eles se encontram, cabe à nossa prudência distinguir o que é bom do que é mau, o verdadeiro do falso em suas relações conosco, absolutamente como procedemos a respeito dos homens. (...)[3] Vejamos que esse é um saber que se desvela como fundamental desde a apreensão e sistematização da Escala Espírita: os Espíritos sabem ou não, em conformidade com o progresso intelecto-moral alcançado. Eles não são detentores de todo o conhecimento, tem seus sistemas de ideias e idiossincrasias e o seu saber é relativo à condição evolutiva alcançada.

Podemos dizer que a pertinência da Escala Espírita, enquanto saber do Espiritismo, se fundamenta em seu caráter preventivo e metodológico para o exercício da mediunidade, pois, apropriado dele, o médium tem condições de se forrar do escolho de lidar com Espíritos enganadores ou pseudosábios e vir a ser mistificado por eles ou adentrar a processos intrincados de obsessão por fascinação conduzido por maus Espíritos, onde o médium é iludido pelo agente desencarnado quanto à qualidade de sua tarefa ou quanto ao valor do conteúdo que verte pela sua medianimidade, sendo o mesmo sitiado pela influência nefasta do agente da obsessão.

Compreendendo as características daqueles com quem lidamos, somos levados, pelo bom senso, a não esperar deles nada além do que efetivamente podem oferecer, assim como devemos fazer com pessoas encarnadas evitando frustração desnecessária. Essa compreensão é fundamental, especialmente em tempos nos quais muitos indivíduos descobrem suas faculdades mediúnicas e, sem a devida orientação, correm o risco de, por desconhecimento, desejar projeção ou relevância na dinâmica, muitas vezes apelativa, da sociedade espetacularizada das redes sociais. Tal lógica tem invadido diversos espaços da vida contemporânea, inclusive o serviço mediúnico, no qual, por vezes, se resvala para manifestações de vaidade e exibicionismo, em detrimento da simplicidade, da discrição e do espírito de serviço que devem caracterizar a prática mediúnica à luz do Consolador Prometido.

Portanto, diante do conhecimento da Escala Espírita, por meio da qual Kardec classifica os Espíritos em três ordens principais — Espíritos Imperfeitos, Bons Espíritos e Espíritos Puros —, conforme seu grau de adiantamento moral e intelectual, somos convocados à prudência e ao bom senso no trato com entidades em diferentes condições evolutivas. Precisamos recordar que os Espíritos Imperfeitos caracterizam-se pela predominância da influência da matéria sobre o Espírito, pela propensão ao mal, pela ignorância e pela presença do egoísmo. Por isso, não devemos atribuir-lhes características que não possuem, transformando-os, equivocadamente, em anjos ou demônios. É igualmente fundamental compreender que podemos contar com a assistência dos Bons Espíritos, seres nos quais predomina a natureza espiritual sobre a influência da matéria e que são movidos, principalmente, pelo desejo de fazer o bem. Entre eles, há diferentes graus de adiantamento, tendo como traços distintivos a sabedoria e a bondade. E, por fim, acima das condições evolutivas dos dois primeiros grupos, nessa classificação elaborada por Kardec, encontramos os Espíritos Puros: aqueles que percorreram todos os graus da Escala Espírita, alcançaram a perfeição relativa de que a criatura é suscetível e já não sofrem a influência da matéria, nem necessitam reencarnar.

Observamos, portanto, que a Escala Espírita constitui um conteúdo fundamental da Doutrina Espírita para todos aqueles que lidam com os Espíritos, especialmente os médiuns. Seu estudo favorece uma postura reflexiva diante das comunicações mediúnicas, permitindo compreender que, para avaliar o grau de confiabilidade de uma mensagem, a linguagem empregada pelo comunicante é de capital importância. Ao buscarmos compreender as características próprias das diferentes ordens de Espíritos, torna-se possível analisar com maior discernimento o teor das comunicações recebidas, distinguindo, assim, o joio do trigo.


Referências:

[1] Vice-Presidente Doutrinário da Fergs.

[2] KARDEC, Allan. Diferentes Ordens de Espíritos. In: ______. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: ano primeiro – 1858. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Brasília: FEB, 2004. p. 71-73.  

[3] KARDEC, Allan. O que é o espiritismo. Tradução da Redação de Reformador em 1884. 56. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2013, p. 72.

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