Anonimato bendito
- fergs

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Respeitamos todas as criaturas nos degraus em que estagiam, no seu processo evolutivo. [...] Entretanto valorizamos os trabalhadores anônimos da mediunidade os que formam os círculos espirituais de assistência aos desencarnados e de intercâmbio conosco pelo sacrifício, abnegação e fidelidade com que se dedicam ao fanal de consolação e da caridade que flui e reflui nas sessões mediúnicas de todas as expressões sérias, de cura ou fluidoterapia, de desobsessão ou de desenvolvimento [...][1]
Recordo-me quando, por orientação de Sepé, comecei a registrar em psicografia as atividades daquele Espírito tão discreto e silencioso, que eu já identificava, pela via mediúnica, nos trabalhos de assistência espiritual há vários meses. Admirava a sua prontidão, a diligência sutil e a habilidade para compreender as dores alheias, sempre pronta ao socorro a quem quer fosse em nossas incursões nas zonas de sofrimento da espiritualidade. Poucas vezes ouvi-a dizer alguma coisa, e quando o fazia era sempre de forma lacônica, sendo captada pelos benfeitores Carlos ou Sepé. Eu imaginava que a sua comunicação com eles fosse majoritariamente mental, e eu não conseguia e até agora, após quase uma década de convívio com ela, não consigo captar.
Assim é “Sia Tonha”[2]
Quando comecei os relatos ela demonstrou a sua estranheza e até mesmo inconformidade, ao sentir que estava sendo observada e suas ações, sendo descritas nos textos recebidos por mim e comentadas pelos leitores em alguns grupos de trabalho. O desconforto da veneranda entidade somente cessou após uma longa conversa com Sepé, persuadindo-a da necessidade de dar a conhecer ao mundo a importância das almas anônimas, discretas, invisíveis no grande conserto universal. Depois desse diálogo, não mais aparentava contrariedade, porém isso não a tornou mais falante, nem menos arredia e prossegue, assim, a sua tarefa abnegada, auxiliando, servindo e amando incondicionalmente, sem se deter para explicações, elogios, enfim.
Certo dia, durante um desdobramento em atividades socorristas junto a Espíritos resgatados de uma das muitas enchentes que assolam a Terra, e após assistir, fazer adormecer e tratar das dezenas de vítimas, trazidas pelas equipes de resgate até o posto espiritual onde estávamos, ela quedava-se em processo de refazimento, recostada em um pequeno assento fluídico que se assemelhava a uma cadeira de balanço. Tinha as mãos entrelaçadas sobre o colo, fisionomia tranquila, enquanto olhava o horizonte onde estava posta a barreira magnética da qual somente os tarefeiros em serviço podiam cruzar com os resgatados. Imaginei que aquele fosse um instante de inatividade como acontece conosco na Terra e me aproximei para tentar uma entrevista com ela, pois tudo o que dela sei e escrevo são relatos vindos de outros Espíritos e da minha deficiente observação. E recebi uma grande lição.
Antes mesmo que eu fizesse a primeira pergunta ela se ergueu e apontou o cercamento vibratório que divisávamos além. Sem palavras indicou para a região do meu plexo coronário, tocou-me a fronte com o indicador e ativou a minha percepção. De imediato, senti estar flutuando e vendo a barreira magnética de forma mais nítida, enquanto visualizava também o fluxo energético saindo dos centros de forças de Sia Tonha e ir preenchendo uma grande extensão daquela construção fluídica; ao mesmo tempo, via o fluxo que saia dos meus centros de forças, sendo recolhido a poucos palmos de distância por auxiliares prestimosos e, ato contínuo, sendo encaminhados, possivelmente para instrumentos que transformariam minha parca contribuição em alguma parcela útil naquele atendimento.
Compreendi, naqueles momentos, o alcance da disciplina, da ausência de interesse pessoal e da solidariedade que uma alma desenvolve, quando serve anonimamente, sem necessidade de retorno e sem a angústia do reconhecimento.
Na faina terrena, tenho ao longo de mais de quatro décadas de trabalho mediúnico, convivido com essas almas serenas e bondosas nos dois planos da vida, que são as primeiras a chegarem e as últimas a saírem nos dias de tarefa, e que se postam em nossos núcleos, quando ninguém está lá e as quais devemos desde a limpeza física do ambiente e dos utensílios, até a assepsia espiritual, com os elementos que os benfeitores retiram dos corações simples, lapidados na dor, na resignação e na força da oração.
Sia Tonha tem grupos formados por esses Espíritos que retornam ao mundo espiritual depois de reencarnações de lutas hercúleas, emolduradas pelo anonimato, possuidoras de tamanha nobreza espiritual, que as permite transitar com a mesma desenvoltura nos desvãos das pontes, nas calçadas, nas mansões, nos acampamentos de refugiados, nos lares afortunados e nos barracos miseráveis para minorarem a dor de quem sofre.
Pronunciam-se os Mestres da espiritualidade em O livro dos Espíritos dizendo que o sinal mais característico da imperfeição é o interesse pessoal.[3] Afirmam, mesmo, ser muito rara a condição de servir sem essa mescla em nossas ações e é fácil identificá-lo, basta lembremos de quantas vezes desistimos de trabalhos por não obtermos o resultado que entendíamos justo ou quantas vezes abandonamos caminhos planejados com tanto entusiasmo somente porque alguém se opôs às nossas ideias, criticou-nos a forma de proceder. Meditemos, profundamente nessa lição dos imortais:
Um homem pode possuir qualidades reais que levem o mundo a considerá-lo homem de bem, mas essas qualidades, embora assinalem um progresso, nem sempre suportam certas provas, bastando algumas vezes que se fira a corda do interesse pessoal para que o fundo fique a descoberto. O verdadeiro desinteresse é coisa tão rara na Terra que é admirado como fenômeno quando se manifesta.[4]
Servirmos, seguindo os passos de almas anônimas como Sia Tonha e tantas outras no abençoado labor mediúnico reposiciona nossa maneira de entender a vida e faz-nos pensar sobre o objetivo da encarnação e os mecanismos que nos guindam a novos patamares da evolução.
Referências:
[1] FRANCO, Divaldo Pereira. Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Nas Fronteiras da Loucura. Salvador: BA – Leal ed.7°.Pag 121
[2] Espírito da equipe espiritual de “Sepé o Guerreiro da Paz”. Suas atividades são descritas na obra Os Espíritos Contaram e as seguintes, psicografadas pela autora e publicadas pela Fergs Editora.
[3] KARDEC, Allan. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. O livro dos espíritos FEB Publisher. Edição do Kindle. Perg.895.
[4] KARDEC, Allan. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. O livro dos espíritos FEB Publisher. Edição do Kindle.Capítulo 12. Perg. 895.









































