Revisitando a terceira Bem-aventurança de O Código do Monte: a mansuetude
- fergs

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“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a Terra” (Mt 5:5).
Os mansos na era da reatividade
Desde o tempo de Jesus, há mais de dois mil anos, até os nossos dias, a bem-aventurança dos mansos talvez seja uma das mais incompreendidas do Sermão da Montanha. Em uma cultura que valoriza a força, a imposição da opinião e a vitória sobre o outro, ser manso pode parecer fraqueza. No entanto, Jesus afirma exatamente o contrário: os mansos herdarão a Terra.
Como temos visto, vivemos em uma época que admira os fortes, os vencedores, os que não levam desaforo para casa. A mansidão, nesse cenário, parece quase uma anomalia e, muitos a confundem com fraqueza ou submissão.
Mas Jesus não disse que os violentos herdariam a Terra. Não disse que os arrogantes e os ruidosos conduziriam o futuro da humanidade. Disse que os mansos possuiriam a Terra. Isso é, no mínimo, surpreendente.
O que os mansos possuem que os arrogantes não têm?
Talvez os mansos consigam possuir alguma coisa de fato. O agressivo não possui a si mesmo; é possuído pela própria cólera. O ansioso não possui o presente; é possuído pelo futuro imaginário, assim como o orgulhoso não possui a verdade; é possuído pela necessidade de ter razão.
No capítulo de O Código do Monte, a mansuetude aparece como consequência natural da humildade. Quem não tem o que provar tranquiliza-se. Quem não precisa vencer todas as discussões começa a possuir a si mesmo. A mansidão, portanto, não é apagamento da personalidade, mas uma condição de domínio interior, de governo de si.
Hoje, essa virtude se torna ainda mais urgente. Vivemos numa sociedade reativa, na qual reage-se a tudo: à política, às mensagens, às diferenças, às frustrações mínimas. As redes sociais, que já são a grande vitrine do ego, tornaram-se também uma arena da agressividade. Muitas pessoas não dialogam; por vezes, mais parece um duelo, um verdadeiro palco de respostas prontas, sem reflexão ou escuta. É um cenário de reações no qual não há pensamento.
A mansuetude nos devolve o intervalo. Um tempo necessário entre a provocação e a resposta em que existe um espaço vital, e é nesse espaço que mora a consciência. É ali que o Espírito pode escolher se repetirá seus automatismos antigos ou se inaugurará uma nova atitude. É nesse pequeno intervalo que a evolução acontece. No entanto, ele é raro e muito difícil de ser alcançado porque necessita de um grande trabalho interno.
A mansuetude surge, então, como uma virtude profundamente terapêutica e desafiadora.
A mansuetude como posse de si mesmo
Como já vimos, quando Jesus diz que os mansos possuirão a Terra, podemos entender também que eles possuirão o próprio território interior. O indivíduo irritado, tomado pela raiva ou pela ansiedade, não possui a si mesmo. Ele é possuído pelo acontecimento externo e pelo domínio das próprias emoções.
Há pessoas que confundem temperamento explosivo com personalidade forte. Dizem: “eu sou assim mesmo”. Mas essa frase, tantas vezes repetida, pode ser apenas a confissão de uma imaturidade ainda dominante. Ter personalidade não é descarregar nos outros tudo o que se sente, e sim responder pela própria vida emocional.
Alguém fala algo desagradável, e a pessoa perde a paz. Alguém a contraria, e ela se desorganiza. Nesse instante, sua consciência deixa de ser soberana, pois está governada pela provocação.
A mansuetude é também uma forma de saúde mental. O indivíduo que se irrita com tudo, vive em estado permanente de guerra. Seu corpo adoece, sua mente se acelera e suas relações se desgastam. A paz não nasce quando o mundo deixa de contrariá-lo, mas quando ele deixa de transformar cada contrariedade em zona de conflito. Não é o acontecimento externo que gera a paz, mas o que acontece no mundo íntimo.
Jesus propõe outro caminho: desarmar-se por dentro.
Por outro lado, o manso não é aquele que nada sente. Ele sente, mas não se entrega imediatamente ao impulso. Identifica a ofensa, mas não necessita fazer dela uma guerra. Há um tempo de espera em que suportar se torna uma aptidão valiosa para metabolizar a circunstância.
Essa talvez seja uma das formas mais maduras de liberdade: não precisar reagir a tudo.
Nosso tempo sofre de irritabilidade crônica. Há uma excitação contínua da mente, em que notícias, mensagens e exposição permanente criam um estado de alerta quase constante. A alma raramente repousa; a mente não tem intervalos e, por isso, não descansa.
Muitas pessoas não estão simplesmente cansadas; estão inflamadas por dentro. Pequenos fatos produzem grandes reações, e o que antes seria apenas um aborrecimento passageiro transforma-se em discussão e em palco para manifestações da agressividade.
Nesse contexto, a mansuetude não é uma virtude decorativa, e sim uma necessidade psíquica e espiritual. Sem ela, o indivíduo perde a capacidade de habitar a própria vida com serenidade.
A mansuetude nos ensina a desacelerar, a instituir um processo mental mais saudável, em que seja possível distinguir o que realmente merece nossa energia daquilo que é apenas ruído passageiro.
É preciso desfazer um equívoco: ser manso não significa ser submisso a abusos, injustiças e violências. Tampouco é covardia ou permissão para que o outro invada nossos limites.
A verdadeira mansidão exige força interior. É muito mais fácil explodir do que conter-se. É mais simples devolver a ofensa do que transformar a qualidade da resposta. Revidar pode ser instintivo; não revidar exige consciência e trabalho interno ativo.
Na mansuetude, temos a agressividade sublimada. O impulso existe, mas encontra uma direção superior.
Por isso, quando escrevemos este capítulo em O Código do Monte, abordamos também a agressividade. A agressividade não é sinônimo de violência. Em sua raiz, pode ser força de movimento, impulso de vida, uma espécie de força de propulsão. O problema está na sua deformação destrutiva, pois, quando descontrolada, converte-se em brutalidade; mas, quando educada, transforma-se em capacidade moral.
A mansuetude diante da sexualidade e dos impulsos
O capítulo também aproxima essa bem-aventurança dos temas da sexualidade e dos impulsos. Essa ligação é importante. Mansuetude se refere ao governo das forças vitais. Assim, não se trata de repressão moralista, mas de integração das capacidades internas. Refere-se à condição emocional amadurecida e à capacidade de pensar.
O ser humano possui impulsos, desejos e forças instintivas. Quando essas condições não são aprimoradas, podem conduzir ao excesso e à perda de liberdade. Não são manifestações intrinsecamente negativas, mas, quando reprimidas de modo artificial, podem gerar conflitos, repressões e sofrimento psíquico. O caminho mais saudável não é nem a repressão nem a permissividade absoluta, mas a educação das forças interiores por meio do autoconhecimento.
A mansuetude, nesse ponto, é a expressão do equilíbrio. Ela não nega o corpo, mas também não permite que o corpo governe sozinho a alma. Não se trata de demonizar o desejo, mas de chamá-lo à responsabilidade.
Há uma diferença importante entre possuir um desejo e ser possuído por ele. O desejo faz parte da condição humanna; aproxima, cria vínculos, desperta energia de vida, no entanto, quando não encontra elaboração interior, pode transformar-se em urgência ou compulsão, uma verdadeira busca repetitiva de satisfação imediata. Nesse caso, a pessoa já não escolhe com liberdade; apenas obedece ao impulso.
Quando não pensamos sobre o que desejamos, o desejo pensa por nós. E, quando isso acontece, a liberdade diminui. A criatura passa a acreditar que está escolhendo, quando, na verdade, está apenas repetindo automatismos emocionais. Por isso, a mansuetude diante da sexualidade não é negação da vida, mas amadurecimento dentro da vida. A sexualidade não deve ser tratada como sujeira, pecado ou ameaça em si mesma. Ela é uma força da natureza humana, vinculada ao corpo, e à intimidade, mas, justamente por ser força poderosa, necessita de direção e sentido.
A repressão moralista está ligada à repressão psíquica e tudo aquilo que é negado de modo rígido, retorna por vias indiretas: culpa, sintomas, pensamentos repetitivos e vergonha.
A permissividade absoluta, por outro lado, também não liberta. Ela pode dar a impressão de liberdade, mas frequentemente conduz ao vazio, à banalização do vínculo e à dificuldade de amar com profundidade.
A maturidade espiritual não consiste em arrancar do ser humano suas forças instintivas, mas em integrá-las numa consciência mais ampla. Nesse sentido, a mansuetude também se relaciona com a agressividade. Agressividade, em sua raiz, pode ser força de avanço, impulso de vida, capacidade de afirmação e proteção. O problema não está na energia em si, mas em sua deformação. Quando desgovernada, converte-se em violência e destruição. Quando integrada, transforma-se em firmeza e capacidade de sustentar limites.
O mesmo ocorre com a sexualidade. Quando desgovernada, pode aprisionar. Quando reprimida de modo artificial, pode adoecer. Quando integrada, pode tornar-se expressão de afeto e vitalidade, intimidade e responsabilidade.
Essa é uma tarefa profundamente atual. Vivemos numa cultura que estimula a excitação permanente. Tudo convida à resposta rápida, ao consumo imediato, ao prazer, à exposição do corpo, à sedução como moeda de valor pessoal e à confusão entre desejo e amor. Nesse ambiente, a mansuetude é quase uma forma de resistência espiritual. Ela nos ensina que nem tudo o que se deseja precisa ser vivido imediatamente.
A alma amadurecida aprende a esperar dentro do próprio desejo. Aprende a perguntar se aquilo que busca a aproxima ou a afasta de si mesma. Aprende que o corpo é parte da experiência espiritual, mas não pode ser o único condutor da existência. Aprende que a liberdade verdadeira não está em fazer tudo o que se quer, mas em não ser escravo do que se quer.
Por isso, “bem-aventurados os mansos” também pode ser lido como: bem-aventurados os que pacificaram suas forças internas. Não porque as tenham eliminado, mas porque começaram a ordená-las.
Os mansos e a regeneração da Terra
Outro ponto importante do capítulo é a relação entre mansuetude e regeneração. A frase “os mansos herdarão a Terra” ganha aqui um sentido espírita profundo. A Terra em regeneração não será construída pelos violentos, pelos arrogantes, pelos dominadores ou pelos que fazem da força a sua lei. Será construída por aqueles que aprenderem a cooperar e pacificar.
A brutalidade ainda parece dominar muitos espaços. Mas ela não representa o futuro espiritual da humanidade e sim, o que representa aquilo que ainda resiste em nós como herança primitiva.
E, se a humanidade caminha para a regeneração, será necessário que cada um de nós pergunte a si mesmo: que parte de mim ainda pertence à Terra velha da violência, da reação e do orgulho? E que parte de mim já pode habitar a Terra nova da mansidão e da paz?
Não temos a mínima pretensão de predizer ou fazer qualquer alusão a como esse processo se dará, muito menos de estabelecer datas, pois isso seria uma ilusão onipotente do próprio pensamento.
O que nos importa considerar é que o manso é o ser humano em processo de regeneração. Ele já não precisa ferir para existir, nem necessita humilhar para sentir-se forte. É aquele que não transforma toda divergência em ameaça. Assim, o ser humano começa a substituir a lógica da dominação pela lógica da presença serena e do respeito.
Quem consegue permanecer senhor de si mesmo no instante da provocação já começou, silenciosamente, a herdar a Terra.
Referência
LOPES, Sérgio Luis da Silva. O Código do Monte: as virtudes do Sermão da Montanha. 2. ed. Porto Alegre: Livraria e Editora Francisco Spinelli, 2013.









































