A Vida Merece Mais: Proteja esse Presente Divino


Luciane Bandeira
Diretora da Área de Atendimento Espiritual no centro espírita (AAECE)
Uma reflexão espírita sobre o valor da existência, o propósito de viver e a responsabilidade diante do dom da vida.
Nascemos em um determinado corpo, em uma determinada família, em determinado tempo e sob circunstâncias que, muitas vezes, somente muito mais tarde começamos a compreender. Chegamos ao mundo trazendo possibilidades, desafios, vínculos, afetos e responsabilidades. E, diante de tudo isso, talvez uma das perguntas mais profundas que possamos fazer seja: o que estamos fazendo com o presente que recebemos?
Para o Espiritismo, a existência corporal não é algo sem significado. A vida terrestre integra um processo muito mais amplo: o caminho de desenvolvimento do Espírito rumo à perfeição. A experiência física, com suas alegrias e dificuldades, constitui uma oportunidade de aprendizado, reparação, amadurecimento e serviço.
Por isso, dizer que a vida merece mais não significa afirmar que devemos ter uma existência livre de sofrimento. Significa reconhecer que, mesmo quando atravessamos períodos de dor, fracasso, solidão ou incerteza, nossa existência possui um valor que ultrapassa as circunstâncias momentâneas.
A vida é um presente divino que carrega consigo uma responsabilidade. A existência não começa no berço nem termina no túmulo. Uma das contribuições fundamentais do pensamento espírita para a compreensão da vida está na perspectiva de que o ser humano não se resume ao corpo físico.
Em O Livro dos Espíritos¹, questão 134, Allan Kardec pergunta aos Espíritos “Que é a alma?” e recebe a resposta: “Um Espírito encarnado.”
A perspectiva espírita desloca, portanto, o centro da existência. O corpo é temporário; o Espírito permanece. A encarnação representa uma etapa de uma trajetória muito mais extensa. A vida corporal, consequentemente, não é um episódio isolado. Ela se insere na história espiritual de cada indivíduo.
Isso modifica profundamente nossa maneira de interpretar aquilo que nos acontece. Uma dificuldade deixa de ser necessariamente um absurdo. Uma perda não precisa representar o fim de tudo. Uma limitação não precisa definir integralmente quem somos. Um fracasso não constitui nossa identidade definitiva.
Somos Espíritos em processo. E processos não são julgados por uma única página.
Por que recebemos a oportunidade de viver? Se a existência corporal possui finalidade, então a pergunta seguinte é inevitável: por que estamos aqui?
Na questão 132 de O Livro dos Espíritos², Kardec pergunta qual é o objetivo da encarnação dos Espíritos:
Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação.
Essa afirmação oferece uma perspectiva particularmente importante sobre nossa passagem pela Terra. Não estamos aqui apenas para acumular bens, conquistar reconhecimento, obter sucesso profissional ou satisfazer desejos. Essas experiências podem fazer parte da existência, mas não constituem seu significado último.
A reencarnação é uma oportunidade de crescimento. Aprendemos a amar quando encontramos pessoas diferentes de nós. Aprendemos a ter paciência quando somos contrariados. Desenvolvemos coragem quando precisamos enfrentar aquilo que nos assusta. Exercitamos o perdão quando estamos feridos. Desenvolvemos humildade quando descobrimos nossos próprios limites.
Existem dias luminosos e dias difíceis. Há encontros e despedidas. Conquistas e fracassos. Começos e encerramentos. A Doutrina Espírita não promete uma existência terrestre sem sofrimento. Ao contrário, reconhece o caráter educativo das experiências corporais.
Mas reconhecer o valor educativo da dor não significa glorificar o sofrimento. Sofrer não é, por si só, uma virtude. O valor espiritual está naquilo que fazemos diante da experiência. Por isso, não precisamos esperar uma vida perfeita para agradecer pela vida. Podemos agradecer por estarmos vivos enquanto ainda estamos aprendendo a viver.
A valorização da vida não significa passividade. Independentemente da densidade das sombras que tentem cobrir o seu horizonte, lembre-se: a vida merece mais. Busquemos o auxílio médico e psicológico, como também fortaleçamos o Espírito com a prece sincera, a conversa fraterna, o passe, a água fluidificada e a prática do Evangelho no Lar que o centro espírita oferece. Proteja esse presente divino com a certeza de que você é um filho amado do Universo e de que a sua jornada aqui importa imensamente.
Vinde a mim, todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou brando e humilde de coração e achareis repouso para vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo. (Mateus 11:28 a 30.)³
O convite do Mestre Jesus está estendido a todos nós!
Compreender que o corpo físico é o instrumento temporário e o Espírito, a realidade imortal, nos confere uma nova responsabilidade diante do dom da vida. Não somos náufragos do acaso, mas artífices do próprio destino, estagiando na oficina do mundo para converter dores em aprendizado, limitações em superação e desencontros em oportunidades do amor universal.
Portanto, honrar a existência não pressupõe a ausência de aflições, mas sim a postura ativa e resiliente diante delas. Diante das inevitáveis adversidades que possam tentar obscurecer a nossa jornada, a Doutrina Espírita nos oferece o fortalecimento e o amparo por meio do esclarecimento e o consolo com Jesus e Kardec. Dessa forma, atender ao chamado consolador de Jesus é reconhecer que cada novo amanhecer é uma concessão de amor do Criador. Proteger a vida, em todas as suas nuances, é o nosso mais profundo ato de gratidão a Deus, um passo importante em direção à nossa própria felicidade imortal.
Saúda o teu dia com a oração de reconhecimento.
Tu estás vivo.
Enquanto a vida se expressa, multiplicam-se as oportunidades de crescer e ser feliz.
Cada dia é uma bênção nova que Deus te concede, dando-te prova de amor.
Acompanha a sucessão das horas cultivando otimismo e bem-estar.⁴
Referências Bibliográficas
¹ KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. 8. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2019. Questão 134.
² KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 93. ed. 8. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2019. Questão 132.
³ MATEUS, 11:28 a 30. In: KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131. ed. Brasília: FEB, 2019. cap. 6, O Cristo Consolador.
⁴ FRANCO, Divaldo P. Vida feliz. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. cap. 1. Salvador: Editora Leal.









































