As resistências na busca do conhecimento
- fergs

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Para que ocorra uma educação desejável, é necessário o estudo da própria faculdade, assim como da Doutrina Espírita, a fim de identificar-se o mecanismo das forças de que se dispõe, bem como dos valores éticos e instrutivos do Espiritismo, que devem ser incorporados ao dia a dia, gerando conquistas morais que libertam o médium das paixões inferiores e atraem os Seres Espirituais interessados no progresso da Humanidade.[1]
Allan Kardec quando discorre sobre a influência moral do médium, afiança-nos que a mediunidade tem como objetivo o aprimoramento, a correção da humanidade inteira.[2] Essa premissa reflete a importância do conhecimento aprofundado, por parte de quem é médium, sobre a sua faculdade e, também, sobre as diretrizes e princípios que a norteiam a fim de se tornar instrumento fiel à transmissão dos ensinamentos provindos da Espiritualidade Maior.
No que se refere ao estudo da Doutrina Espírita, há uma cultura bem sedimentada nos centros, desde o ano de 1976, quando o Espírito Angel Aguarod – ex-presidente da federativa gaúcha - ditou à médium Cecília Rocha, uma mensagem na qual concitava o Movimento Espírita do Rio Grande do Sul à elaboração e lançamento de uma Campanha do Estudo Sistematizado do Espiritismo, o que realmente aconteceu, e a partir de 1983 se implantou em todo o Brasil.
Com o transcurso do tempo, esse programa validou o quanto conhecer o Espiritismo é, pois, pressuposto para o correto exercício das atividades espíritas, a fim de que nelas transpareça a essência doutrinária e, conseguintemente, se atinja o objetivo do Consolador Prometido que é a transformação moral do ser. Dessa forma, para o seareiro da mediunidade, o entendimento da sua faculdade mediúnica é fundamental para dominar corretamente o seu manejo, ampliar a sua utilidade e o seu alcance como ferramenta transformacional, recebida para a sua própria evolução.
A mediunidade é um princípio afeto ao aspecto científico da Doutrina Espírita, enquanto observação e compreensão dos fenômenos – o que somente se concretiza com o estudo contínuo e sério - eis que cada médium é um verdadeiro laboratório, onde os fatos se produzem de maneira diversa e exclusiva, conquanto tenham, na generalidade, a mesma origem, objetivos e agentes envolvidos. Vejamos que o Codificador ao organizar o conhecimento em O Livro dos Médiuns aponta tipos de médiuns identificados a partir dos estudos, observações e informações advindas dos Espíritos, mas não cataloga mediunidades, ao contrário, deixa, suficientemente claro, que há tantas variedades de médiuns quantas são as espécies de manifestações. [3]
Esse é um aspecto a ser considerado por todos os que se ocupam das reuniões mediúnicas. Muitas vezes há tendência em padronizar as faculdades medianímicas, quer seja na forma de manifestação ou na maneira de expressão dos médiuns, denotando inexistir compreensão ampla da complexidade do fenômeno.
A comunicação mediúnica é uma arte produzida pelo mundo espiritual, contando com os elementos oferecidos pelo intermediário e considerando, sempre, a utilidade, ou seja, a necessidade evolutiva do grupamento ao qual a mensagem é dirigida e, nos casos mais amplos, à própria humanidade.
Nessa esteira convém destacar a nossa condição de seres com organismos físicos idênticos, mas com estruturas diferenciadas, e sendo a mediunidade uma faculdade orgânica é evidente que as condições do arcabouço físico ofertado aos Espíritos comunicantes carregam as características fisiológicas e psicológicas de cada médium. Daí a importância do estudo, da análise de cada comunicação, seja de que tipo for, no grupo mediúnico do qual o médium faz parte, para auxiliar o desenvolvimento da sua faculdade, a fim de que haja o aprimoramento contínuo da tarefa realizada.
Assim, a conjugação do conhecimento da própria faculdade com os princípios da Doutrina Espírita é determinante para corresponder aos propósitos do Mundo Maior que disponibiliza aos sensitivos a sagrada oportunidade de devassar o invisível tanto na condição de socorristas aos que sofrem quanto na de aprendizes dos Espíritos Superiores.
Aprender sobre a própria mediunidade, no entanto, é um esforço educativo e requer perseverança por parte do medianeiro. Todos trazemos atavismos religiosos que se manifestam em resquícios de dogmas, hierarquia e autoritarismo, e é possível encontrarmos nos centros espíritas cenários onde eles afloram, quer seja na postura inflexível dos integrantes e dirigentes das reuniões, nas frases prontas, na ausência de pesquisa séria e no hábito de rotular o médium em tabelas únicas que desconsideram as peculiaridades de cada qual; quer seja no comportamento do próprio médium com entendimento superficial da sua faculdade, ao fazer avaliações apressadas da sua condição, supervalorizando o fenômeno e cerrando os ouvidos e olhos aos alertas e possibilidades de entender-se e tornar-se um instrumento melhor. Esse é um desafio que só pode ser superado com humildade e acolhendo esses obstáculos como incentivos ao crescimento espiritual.
Porém, mesmo diante dessa imprescindibilidade na aquisição de competências para o labor mediúnico encontramos resistência ao estudo constante, sério, sistemático e isso se dá por inúmeros fatores e um deles é apontado por J.J. Rousseau ao escrever que:
“[...]o Espiritismo é um estudo todo filosófico das causas secretas dos movimentos interiores da alma, até agora nada ou pouco definidos. [...] A preocupação com as questões morais ainda está por nascer. Discute-se a política, que agita os interesses gerais; discutem-se os interesses particulares; o ataque e a defesa das personalidades apaixonam os espíritos; os sistemas têm seus partidários e seus detratores. Entretanto, as verdades morais, as que são o pão da alma, o pão da vida, ficam abandonadas sob o pó acumulado pelos séculos.[4]
Efetivamente, o tempo dispendido para tais assuntos da materialidade tem se constituído em entrave para que a vida moral dos mensageiros encaminhados à reencarnação para servir nas fileiras da mediunidade padeça de inanição do pão da vida.
Cabe considerar que o Espiritismo é uma Ciência e que o seu conhecimento não se restringe ao ensinamento moral , mas “ abrange a teoria de todos os fenômenos, a pesquisa das causas e, como consequência, a comprovação do que é e do que não é possível; em suma, a observação de tudo o que possa contribuir para o avanço da Ciência,”[5] no entanto muitos adeptos espíritas resistem consciente ou inconscientemente ao estudo desses aspectos, persistindo nas crenças intuitivas e no misticismo ainda presente em nosso meio, ou seja, ainda baseamos as nossas avaliações e o entendimento da faculdade mediúnica em conhecimentos compartilhados pelo senso comum, aceitando-se conceitos alternativos sem a base científica trazida pela Doutrina Espírita.
Porém a mais proeminente base de resistência ao estudo da mediunidade e da Doutrina Espírita é o seu aspecto filosófico. Quanto mais conhecemos, mais identificamos a nossa necessidade de transformação moral. Por vezes ainda estagiamos na condição de “espíritas imperfeitos” identificados por Allan Kardec como aqueles que “a influência da Doutrina sobre o caráter deles é insignificante ou nula. Não modificam em nada os seus hábitos e não se privam de um só prazer.”[6] A ausência de reforma íntima no campo de trabalho da mediunidade funciona como erva daninha a comprometer o plantio e por via de consequência, frustar as possíveis colheitas.
Logo, identificar as fontes de resistência na busca do conhecimento é um esforço contínuo a ser realizado pelos médiuns espíritas, a fim de sermos anotados dentre aqueles aos quais os Seres Espirituais interessados no progresso da humanidade atribuam o selo de bons médiuns.
Referências:
[1] PEREIRA FRANCO, Divaldo; Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Temas da Vida e da Morte. FEB Editora. Capítulo “Educação Íntima”.
[2] KARDEC, Allan. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. O livro dos médiuns. FEB Publisher. Edição do Kindle. Capítulo XX.
[3] KARDEC, Allan. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. O livro dos médiuns. FEB Publisher. Edição do Kindle. Capítulo XX.
[4] KARDEC, Allan. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. O livro dos médiuns (FEB Publisher. Edição do Kindle. Capítulo XXXI. “Sobre o espiritismo”.
[5] Idem.
[6] KARDEC, Allan. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. O livro dos médiuns (FEB Publisher. Edição do Kindle. Capítulo III. “Método”.









































