Tormentos redentores
- fergs

- 25 de jun.
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Como se pode avaliar, o período inicial de educação mediúnica sempre se dá sob ações tormentosas. O médium, geralmente, é Espirito endividado em si mesmo, com vasta cópia de compromissos a resgatar, quanto a desdobrar, trazendo matrizes que facultam o acoplamento de mentes perniciosas do além-túmulo, que o impelem ao trabalho de autoburilamento, quanto ao exercício da caridade, da paciência e do amor para com os mesmos.1
De há muito venho reunindo fragmentos para registrar, como forma de compartilhar aprendizado com aqueles que se iniciam nesse mister da educação mediúnica, os acontecimentos que assinalaram o meu retorno às lides da mediunidade. Falo em retorno, porque soube desde o primeiro dia em que frequentei uma reunião mediúnica estar retomando uma atividade já exercida em outra existência.
Encontrar-me com o estudo do Espiritismo foi um evento felicitador, após uma infância e adolescência vividas nas hostes do catolicismo, ao adentrar um centro espírita pela primeira vez e assistir uma sessão pública e daí ser encaminhada ao grupo de estudos.
Nesse processo reencontrei um velho amigo de antanho, um companheiro de milênios – o Irmão Genésio – que tomou aos seus cuidados a orientação de uma alma rebelde, endividada e com muitas arestas a serem lapidadas.
Genésio se apresentava na roupagem de um monge tibetano. Um Espírito sereno, profundo, ouvia sempre com atenção os meus inúmeros questionamentos sobre a faculdade mediúnica, as incompreensões com os desafios da vida, as ansiedades e angústias e jamais respondia, diretamente, as minhas dúvidas, mas propiciava-me vivências, visões, incursões em desdobramento que iam lançando, pouco a pouco, luz sobre as muitas sombras que eu trazia.
Com ele tive muitas lições ministradas nos mosteiros e nas grutas secretas do Tibete, em desdobramento durante o sono e nas reuniões mediúnicas, com o único objetivo de tornar-me mais dócil, apurar a sensibilidade e assim facilitar o trabalho de intercâmbio. Com o tempo esses ensinamentos foram sendo cobertos pelo véu do esquecimento, quando ele identificava já terem produzido o efeito necessário. Sempre me recomendava não adotar quaisquer conceitos, práticas e rituais orientais, mesmo muitas vezes explicando-me seus significados e me oportunizando assisti-los para lhes entender a essência e aplicá-la ao desenvolvimento da minha faculdade.
-Siga Jesus e o Consolador por Ele Prometido - era essa a forma como ele encerrava todas as prédicas e treinamentos ministrados a mim.
Os primeiros tempos de autoeducação para os labores mediúnicos requerem uma austera economia dos poucos valores desenvolvidos para o abatimento do saldo devedor que acumulamos com nossas malsinadas escolhas. Por essa razão, Genésio exemplificava a abnegação e devotamento dos monges do Tibete, das suas vidas voltadas inteiramente para a natureza e a espiritualidade, os níveis extremos de compaixão e a sabedoria em cada gesto, ato ou palavra.
Foi meu anjo-guardião no adestramento da faculdade mediúnica pois todos temos um anjo-guardião, na vida e nas nossas tarefas, como Allan Kardec aponta:
Sob esse aspecto, pode-se dizer que todos são médiuns, porque não há quem não tenha seus Espíritos protetores e familiares, que tudo fazem para sugerir ideias salutares aos seus protegidos. Se todos estivessem bem convencidos desta verdade, ninguém deixaria de recorrer com frequência à inspiração do seu anjo da guarda, nos momentos em que não sabe o que dizer ou fazer. Que cada um invoque o seu Espírito protetor com fervor e confiança, caso seja necessário, e muitas vezes se admirará das ideias que lhe surgem como que por encanto, quer se trate de uma resolução a tomar, quer de alguma coisa a fazer.2
Com os médiuns em tarefa, não é diferente, e por isso deve-se estar atento para as intuições, inspirações transmitidas com o objetivo de auxiliar o medianeiro na superação das dúvidas, incertezas e assédios dos adversários espirituais.
Aprender a identificar o teor das sugestões recebidas e os resultados que o seu acolhimento enseja é um exercício permanente para o médium dedicado à educação da sua faculdade.
A mediunidade é mais um dos aportes trazidos pela Misericórdia Divina para os Espíritos faltosos redimirem-se no trabalho do bem, e diante do conhecimento revelado pela Doutrina Espírita sobre esses fenômenos naturais, cuja ocorrência se verificou em todas as épocas da humanidade, mais amiúde ela será identificada entre as criaturas, validando o ensino do profeta Joel : “Acontecerá depois que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos, os vossos mancebos terão visões;” [...]3
A afirmativa do benfeitor Manoel Philomeno de Miranda, na epígrafe, de que o período inicial de educação mediúnica sempre se dá sob ações tormentosas leva-nos a refletir sobre o porquê desses tormentos. Em o Livro dos Médiuns encontramos no capítulo XX, intitulado Influência Moral do Médium os apontamentos sobre o objetivo da concessão da faculdade mediúnica aos homens, atribuindo-lhe o significado de “meio de salvação ao culpado”4
A expressão, por si só, traz-nos a dimensão da importância desse contexto vivencial para a evolução do Espírito que a recebe e das lutas que ele deve sustentar para atingir as metas de iluminação a que está fadado. As perseguições, os projetos de vingança arquitetados no mundo espiritual contra o médium em esforço de soerguimento moral são decorrências das escolhas infelizes e dos atos malsãos que o algemaram com mentes a vibrarem na mesma sintonia.
O estabelecimento de parcerias infelizes e conúbios criminosos gera responsabilidades com aqueles a quem prejudicamos, portanto vencer esse cipoal de tramas infelizes demanda disciplina, fé, coragem, oração e estudo a fim de fortalecermos a têmpera e adquirirmos condicionamento moral e espiritual para darmos a nossa faculdade o brilho verdadeiro a distinguir os que podem ser reconhecidos na categoria de bons médiuns.
Foi assim, nas muitas lutas do recomeço, que encontrei no irmão Genésio a dose certa de amparo e estímulo para os dias primeiros do exercício mediúnico. Na sua presença discreta e observadora, sem jamais revelar qualquer surpresa ou impaciência com a minha imaturidade ele aguardou, por anos a fio, que uma parcela diminuta de equilíbrio e entendimento acendesse a chama do compromisso com a tarefa, como soe acontecer com os Bons Espíritos que jamais retiram o nosso mérito nos escassos avanços que empreendemos.
Certo dia, e lá se vão mais de vinte anos, ele se despediu, temporariamente eu sei, porque as almas que amamos e nos amam estarão sempre conosco. Disse-me que rumaria para uma Universidade no Além, na qual receberia preparação para reencarnar ainda no século XXI em um grande país do Ocidente, com tarefas de liderança mundial. Antes disso, providenciou para que a minha orientação continuasse aos cuidados do Irmão Saulo. Algumas vezes, nos primeiros tempos, visitava-me, brevemente, acalmando a saudade - sentimento ainda muito doloroso para as almas inferiores como a minha.
Manoel Philomeno de Miranda, na obra em epígrafe, categoriza os primeiros passos na senda da educação mediúnica por “calvário abençoado”, o qual precisamos escalar com determinação para nos subtrairmos dos fossos profundos, cavados ao nosso redor, por essa horda materialista a nos convocar para as suas ilusões.
O calvário é caminho ascensional, solitário, embora o percorramos ladeados por muitas almas, que sequer entendem as dores e renúncias que suportamos.
O calvário é a caminhada com a cruz das nossas faltas e vícios, cujo peso nos marca profundamente a emoção para o despertar da consciência adormecida nos erros milenares.
No caminho desse calvário, abrandado pelos cireneus espirituais, precisamos nos reerguer das muitas quedas sob o açoite das consequências do ontem e das desconfianças ante os sinais de soerguimento do hoje.
Que as bênçãos desses tormentos redentores constituam o teu propósito de seguir adiante, até te defrontares com a Cruz onde deixarás parte de tuas mazelas e ganharás asas para seguires adiante, em novos voos na companhia do Mestre dos Mestre.
Referências:
1 PEREIRA FRANCO, Divaldo; Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Nas Fronteiras da Loucura. Leal Publisher. Edição do Kindle.Capítulo 23
2 KARDEC, Allan. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. O livro dos Médiuns. FEB Publisher. Edição do Kindle. Item 182
3 ALMEIDA Atualizada. A Bíblia Sagrada. Joel 28.
4 KARDEC, Allan. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. O livro dos Médiuns. FEB Publisher. Edição do Kindle. Item 226,2.









































