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O exercício da mediunidade e a moralidade do médium

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    fergs
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  • 5 min de leitura

Vinícius Lima Lousada[1]

 

 

 

“Um médium é um instrumento pouquíssimo importante como indivíduo. Por isso é que, quando damos instruções que devem aproveitar à generalidade dos homens, nos servimos dos que oferecem as facilidades necessárias. Tenha-se, porém, como certo que tempo virá em que os bons médiuns serão muito comuns, de sorte que os bons Espíritos não precisarão servir-se de instrumentos maus.”[2]

  

O Espiritismo conferiu à mediunidade um profundo sentido de serviço ao próximo. Faculdade inerente ao ser humano, ela possibilita à criatura acolher as inspirações, orientações e estímulos edificantes de seu Espírito protetor, o anjo da guarda. Em suas manifestações mais sutis, presentes na experiência cotidiana de todas as pessoas, ou em suas expressões mais ostensivas, características da mediunidade em acepção específica, essa faculdade encontra no medianeiro um valioso instrumento de trabalho em favor do bem, da educação espiritual e do auxílio fraterno.

No âmbito do centro espírita, em condições próprias e sob critérios metodológicos estabelecidos na Ciência Espírita, a prática mediúnica, para ser exercida com proveito, não se destina à distração, ao atendimento de curiosidades ou interesse pessoal. Tampouco se presta à satisfação da vaidade do médium, pelo simples prazer de manter diálogos com o mundo espiritual. Sua finalidade é o serviço no bem, o esclarecimento, o consolo e o aperfeiçoamento moral de todos os envolvidos, tendo por horizonte a certeza inconteste da vida futura que o fenômeno mediúnico bem atesta.

A partir da obra de Kardec temos a mediunidade explicitamente norteada pela ética de Jesus, a ser experienciada com renúncia caritativa, como oportunamente propôs o tutelado do Espírito de Verdade: “A mediunidade é uma coisa santa, que deve ser praticada santamente, religiosamente.(...)”[3] E cabe ao médium mesmo, querendo granjear a assistência dos Bons Espíritos, trabalhar pelo aprimoramento constante de sua natureza moral, pois, há qualidades morais que atraem os Espíritos nobres, tais como: “(...) a bondade, a benevolência, a simplicidade do coração, o amor do próximo, o desprendimento das coisas materiais. (...)”[4] Em contraposição, nossas imperfeições nos afastam dos Bons Espíritos, pela lei natural da sintonia, e nos mantêm jungidos à companhia espiritual desqualificada em termos de virtudes. Falamos aqui de imperfeições como: “(...) o orgulho, o egoísmo, a inveja, o ciúme, o ódio, a cupidez, a sensualidade e todas as paixões que escravizam o homem à matéria.”[5]

André Luiz, cujas obras oferecem valiosas contribuições ao estudo da mediunidade sob o prisma da realidade espiritual, inicia, em Missionários da Luz, suas reflexões chamando a atenção para a estreita relação entre mediunidade e moralidade, considerando os elevados propósitos dessa faculdade orgânica. Antes, porém, de examinar alguns dos apontamentos do nobre médico desencarnado sobre o tema em questão, convém lançar um olhar sobre sua produção sob um ângulo que, embora não seja propriamente novo, por vezes acaba sendo relegado ao esquecimento.

Para tanto, recordemos a entrevista publicada na obra A Ponte, em que Fernando Worm pergunta ao médium Chico Xavier se o nome André Luiz designava apenas o autor espiritual ou se representava uma falange de Espíritos dedicada às tarefas e aos ensinamentos expressos em seus livros. Em resposta, Chico Xavier esclarece: 

“André Luiz escreve com muita independência, sempre ele mesmo; entretanto, admito que, como acontece a todo escritor responsável neste mundo mesmo, ele terá na Espiritualidade Maior muitos amigos experientes  e sábios, com os quais toma apontamentos e conselhos, a fim de descrever consolando e instruindo, auxiliando e edificando sempre.”[6]


A tese de que o conjunto das obras de André Luiz sobre a vida espiritual integra um programa de trabalho delineado pelos Espíritos Superiores, no qual o autor espiritual atua como intérprete do pensamento e da experiência de uma comunidade espiritual, também se encontra nos escritos de Ney da Silva Pinheiro, notável estudioso de Allan Kardec e da obra de André Luiz. Em Prontuário de André Luiz, o pesquisador assinala que:

Essa Obra manifesta a voz de Comunidades Espirituais que colaboram diretamente com o Cristo e que se expressam por meio da ação abnegada dos seus prepostos nos planos mais próximos da Crosta, neste crepúsculo doloroso em que se debate a civilização, presente o drama de desventura do homem do século, para que este não se perca na voragem dos seus descaminhos, sem ignorarem, essas Comunidades o direito sagrado ao livre-arbítrio da criatura na escolha de seus destinos, certo, porém, de que “a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória”, no justo processo a Lei.


Desse modo, convergem as observações de Chico Xavier e do pesquisador e dirigente espírita gaúcho Ney da Silva Pinheiro, hoje desencarnado, ao reconhecerem que a obra de André Luiz, por meio de suas narrativas sobre a vida no Além, traduz um programa de esclarecimento concebido pelos Espíritos Superiores. Seu propósito é tornar conhecidas determinadas nuances da realidade espiritual, para que essas informações acerca do mundo invisível concorram para a espiritualização do ser e para o seu aperfeiçoamento moral.

Agora, retornando ao nosso tema, voltemo-nos a algo mais específico, a reflexões em torno do processo mediúnico analisado por André Luiz no primeiro capítulo de Missionários da Luz, obra em que o benfeitor espiritual dá azo a um programa de estudo sobre o intercâmbio entre os dois planos.

Orientado pelo instrutor Alexandre, André Luiz está diante de uma reunião mediúnica, em um agrupamento espírita, da qual participam dezoito encarnados, além do médium. Na dimensão espiritual da reunião, encontram-se os dois benfeitores, o Espírito Calixto, preparado para se comunicar, uma assembleia de desencarnados necessitados de assistência e esclarecimento, que se beneficiam dos estudos, e, ainda, alguns cooperadores espirituais, que realizavam o serviço de proteção do ambiente e de apoio fluídico ao médium.

André Luiz observa, com o auxílio fluídico de Alexandre, o funcionamento do corpo físico e perispiritual do médium, destacando o papel fundamental da epífise (glândula pineal) como centro de recepção e emissão de raios espirituais. Entretanto, o registro do autor espiritual enfatiza que a mediunidade, para ser construtiva, demanda do medianeiro a sua educação moral constante, o desenvolvimento do sentimento de abnegação e o cultivo permanente de vigilância.

O exercício mediúnico não é algo automatizado pelos mecanismos fisiológicos, apesar de a mediunidade ser uma faculdade orgânica, segundo o ensino de Allan Kardec. Para que a prática mediúnica seja produtiva, conta-se com a preparação e o cuidado dos benfeitores do Mais Além, que dedicam sua influência positiva e dispensam fluidos salutares sobre os médiuns e o grupo, tendo em vista a manutenção do êxito da reunião, a fim de que esta atenda aos compromissos iluminativos assumidos por todos. Sem falar do anjo guardião do médium, que, sendo o avalista de sua reencarnação, é também o diretor espiritual de suas faculdades mediúnicas.

É preciso ter consciência diante da gravidade do labor mediúnico, para que o médium assuma a sua autoeducação enquanto indivíduo como dever primeiro e venha se colocando gradualmente em conexão com os Bons Espíritos, sem agir com invigilância – o que lhe prejudica o nobre tentame. Desse modo, apreende-se das instruções de Alexandre em Missionários da Luz, no capítulo já referido, que a mediunidade não é mera tradução mecânica dos sintomas da paranormalidade humana, em que o médium seria apenas um aparelho de conexão entre os dois mundos, cabendo-lhe o silêncio e a serenidade na tarefa.

Diante do exposto, cuidemos de nossa harmonização interior e de nossas atividades para que, no serviço socorrista da mediunidade com Jesus, venhamos a projetar raios mentais que se somem aos fluidos salutares dispensados pelos benfeitores espirituais, colaborando com a qualidade da reunião mediúnica e dos auxílios prestados em nome do Mestre Divino.


Referências:

[1] Vice-Presidente Doutrinário da Fergs.

[2] KARDEC, Allan. O livro dos médiuns (pp. 240-241). FEB Publisher. Edição do Kindle, Cap. XX, item 226-5ª.

[3] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo (p. 312). FEB Publisher. Edição do Kindle, Cap. XXVI, item 10.

[4] KARDEC, Allan. O livro dos médiuns (p. 243). FEB Publisher. Edição do Kindle, Cap. XX, item 228.

[5] Idem.

[6] XAVIER, Francisco Cândido; WORM, Fernando. A ponte. Porto Alegre: Francisco Spinelli, 2016, p. 177.

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