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A paz do mundo começa em mim

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fergs
há 3 horas
5 min de leitura

Cleto Brutes

Vice-diretor da Área de Estudo do Espiritismo da Fergs

 

“[...] A tua fé te salvou, vai em paz”1.

   

Jesus é o maior pacificador que a Humanidade terrena podê conhecer. No entanto, essa não é uma missão exclusiva do Governador Espiritual da Terra. Todos os Espíritos vinculados ao planeta estão comprometidos com as diretrizes divinas ensinadas por Ele, que conta com cada inteligência para a execução do projeto que tem como meta final conduzir o planeta à condição de um mundo ditoso e feliz.

 

O universo é, ao mesmo tempo, um mecanismo incomensurável, acionado por um número incontável de inteligências, e um imenso governo em o qual cada ser inteligente tem a sua parte de ação sob as vistas do soberano Senhor, cuja vontade única mantém por toda parte a unidade.2

 

Assim, compreendemos que a paz do mundo é uma construção coletiva. Ela se realiza quando cada criatura busca viver em harmonia em três dimensões essenciais: com Deus, ao compreender Suas Leis e o propósito divino para a própria existência; consigo mesmo, ao aceitar seus limites e necessidades e reconhecer sua missão como Espírito reencarnado; e com o próximo, pelo exercício da paciência, da tolerância, da fraternidade, da solidariedade e do perdão.

Na síntese da Lei de Deus, apresentada por Jesus, encontramos os fundamentos para viver em paz. “[...] Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com toda a tua mente. [...] Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”3 

 

Como viver em paz com Deus?

Deus está sempre conosco; somos nós que nos afastamos Dele por meio de escolhas equivocadas. Muitas vezes, imaginamos que podemos criar nossas próprias regras e viver apenas segundo a nossa vontade. A verdadeira proximidade com Deus se estabelece quando buscamos cumprir a vontade Dele, e não a nossa.

Afastamo-nos de Deus, “[...] a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas”4, porque ainda não compreendemos a forma como ocorre a ação da Providência Divina. 

"Será dado um dia ao homem compreender o mistério da Divindade? Quando, pela sua perfeição, se houver aproximado de Deus, ele o verá e compreenderá”5. No entanto, já estamos aptos a estudar os atributos da Divindade. “Deus é, pois, a inteligência suprema e soberana, é único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições, e não pode ser diverso disso. Tal o eixo sobre que repousa o edifício universal.”6 

Normalmente, esperamos que Deus seja o provedor daquilo que imaginamos que está nos faltando, por isso, muitas vezes, não recebemos o que pedimos. Deus, que conhece as nossas necessidades, oferece sempre as melhores oportunidades de aprendizado, muitas vezes materializadas nos momentos desafiadores. “O que Deus lhe concederá sempre, se ele o pedir com confiança, é a coragem, a paciência, a resignação. Também lhe concederá os meios de se tirar, por si mesmo, das dificuldades [...].”7

“Jesus veio ensinar um novo modo de relacionamento com Deus, utilizando como exemplo a convivência entre um pai e um filho, a qual deve ser estabelecida nas bases da fidelidade, da confiança, da união de esforços e da mútua colaboração.”8

 

Qual dentre vós é o homem que, pedindo-lhe pão o seu filho, lhe dará uma pedra? Ou, pedindo-lhe peixe, lhe dará uma serpente? Portanto, se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai {que está} nos céus dará boas {coisas} aos que lhe pedem.9

 

Como viver em paz com os outros e consigo mesmo?

Jesus apresentou as diretrizes para uma vivência pacífica, sintetizadas no amor incondicional, para que tenhamos méritos:  a fraternidade, do latim frater, que significa "irmão”, pois somos todos filhos do mesmo Pai; a humildade, temos o mesmo ponto de partida e a mesma destinação; que precisamos perdoar, pois ainda ofendemos e, por isso, também precisamos do perdão; a caridade, como única condição para a evolução, pois, sem a prática do bem, não avançamos. 

Ao compreender a nossa condição de Espíritos imortais em processo de aprimoramento contínuo, desaparecem as aparentes diferenças. Somos iguais na origem, no destino e nas oportunidades para chegar à perfeição.

Vivemos as experiências reencarnatórias com recursos e contextos diferentes porque cada criatura tem necessidades específicas, e o atendimento Divino é individual e personalizado. Assim, o que recebemos da Providência Divina é diferenciado de acordo com o planejamento reencarnatório de cada Espírito.

Deus atende às criaturas por intermédio das próprias criaturas. Com essa compreensão, ganha sentido o amor ao próximo, ensinado por Jesus, como condição essencial para alcançar a plenitude. Deus chega até nós através do outro; assim, nos aproximamos de Deus por meio do próximo.

Se vivêssemos apenas para atender às nossas necessidades, desprezando os deveres coletivos, chegaríamos ao final da existência com uma enorme dívida. Basta pensar no quanto temos recebido das pessoas que fazem parte do nosso convívio. O quanto usufruímos de recursos e possibilidades resultantes do esforço e trabalho da coletividade à qual pertencemos.

A vida física, como escola de aprendizado, proporciona experiências redentoras. Nesse contexto, estão as vicissitudes da vida pelas quais todos passam, mas o aproveitamento depende de como cada um as vivencia.

Progredir faz parte do determinismo divino, mas cada criatura deve despertar para essa necessidade, pois Deus não nos obriga; se fôssemos obrigados, não teríamos méritos.

 

As revelações divinas apontam o caminho, mas é preciso aceitar as suas orientações.

 

Quem somos. “E conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará!”10 Somos um projeto Divino, que é perfeito, mas a execução é nossa. Hoje somos o resultado construído ao longo de milênios, vivendo em ciclos que se alternam na matéria e no Mundo Espiritual.

 

Como evoluímos. “[...] restituirá a cada um segundo as suas ações”11. Somente por meio do esforço e das renúncias se constrói o Reino de Deus em nós. Acreditar, mas transformar a fé numa jornada de serviço. Somente uma fé ativa irá superar as montanhas representadas pelas imperfeições que precisamos corrigir.

 

No que precisamos prestar atenção. “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação”12.  Vigilância para não cair nas ciladas das próprias imperfeições e a oração para se conectar com as esferas superiores que irão sustentar os nossos esforços.

 

Nossa âncora. A crença na vida futura muda a forma como vivemos e nos relacionamos com Deus, com o próximo e conosco mesmos.

 

Resignamo-nos diante dos desafios da existência porque compreendemos a sua utilidade como instrumentos do nosso burilamento moral.

Aceitamos as perdas, pois sabemos que a vida não termina no túmulo e, ao nos despedirmos de um ser querido que parte para a outra dimensão, compreendemos que essa separação é apenas temporária.

Seremos indulgentes diante das imperfeições dos outros, pois já sabemos que o erro é um estado transitório e todos nós, na medida de nossos esforços, seremos Espíritos iluminados.

 

A paz é um caminho possível. 

Se até agora lutamos por ideais que não são os verdadeiros, a qualquer momento temos a possibilidade de retomar o caminho ensinado pelo Mestre da paz.

Estaremos no rumo certo quando percebermos que os nossos esforços visam ao bem coletivo, quando não mais encontrarmos motivos para distinguir ou separar as pessoas.

Estaremos pacificados quando expressarmos a nossa gratidão pela vida que temos e quando vivermos em harmonia com esta sentença: “[...] seja feita a tua vontade, como no céu, também sobre a terra.”13

 

Referências

  1. BÍBLIA SAGRADA. O Novo Testamento. Tradução de Haroldo Dutra Dias. Brasília: CEI, 2010. Lucas, 7:50.

  2. KARDEC, Allan. A gênese. 53. ed. Brasília: FEB, 2018. cap. 18, item 4.

  3. BÍBLIA SAGRADA. O Novo Testamento. Tradução de Haroldo Dutra Dias. Brasília: CEI, 2010. Mateus, 22:37-39.

  4. KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. 93. ed. Brasília: FEB, 2019. q. 1.

  5. Ibidem. q. 11.

  6. KARDEC, Allan. A gênese. 53. ed. Brasília: FEB, 2018. cap. 2, item 19.

  7. KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. 131. ed. Brasília: FEB, 2019. cap. 27, item 7.

  8. BRUTES, Cleto. Espiritualidade na vida. Porto Alegre: Fergs Editora, 2022. p. 17.

  9. BÍBLIA SAGRADA. O Novo Testamento. Tradução de Haroldo Dutra Dias. Brasília: CEI, 2010. Mateus, 7:9-11.

  10. Ibidem. João, 8:32.

  11. Ibidem. Mateus, 16:27.

  12. Ibidem. Mateus, 26:41.

  13. Ibidem. Mateus, 6:10.

 

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