Espiritismo para um príncipe


João Paulo Cardozo
Trabalhador do Centro Espírita Joanna de Ângelis, de Sarandi-RS
Allan Kardec abriu o primeiro número da Revista espírita de 1859, no mês de janeiro, com a publicação da carta “À S. A. Príncipe G.”¹, respondendo ao nobre, que assim se identificou, a uma série de perguntas que ele lhe havia feito a respeito do Espiritismo. Talvez mais no texto introdutório do que nas respostas esteja o que há de muito interessante à nossa reflexão nos dias atuais, mais de século e meio depois, pois nele encontramos o que Kardec definiu como “proposições fundamentais”, os elementos que, naquele momento, ele entendia como centrais e definidores da Doutrina Espírita. Aliás, conhecer a evolução desta compreensão do Codificador, no transcorrer de doze anos de publicação da Revista espírita, é um estudo de real importância.
Destacou que, fora do mundo corporal, existe o Mundo dos Espíritos, constituído por estes seres invisíveis que nada mais são do que as próprias almas dos que viveram na Terra ou em outras esferas e se despojaram de seus corpos físicos pelo fenômeno da desencarnação. Enfatizou que estes seres, os Espíritos, nos rodeiam incessantemente e, sem que percebamos, podem dirigir nossos pensamentos e ações, influenciando os acontecimentos e o destino da Humanidade.
Apresentou também que os Espíritos têm todos os graus de desenvolvimento intelectual e moral, havendo “bons e maus, esclarecidos e ignorantes, levianos, mentirosos, velhacos, hipócritas”¹, que tendem a induzir as pessoas ao mal, ao passo que existem os superiores em tudo, que nada mais fazem senão o bem, sendo fundamental aprender a fazer a distinção e entreter relações com estes últimos.
Kardec preocupou-se em destacar a possibilidade de os Espíritos atestarem a sua presença por meio de efeitos materiais, como movimentação de objetos, ruídos e até mesmo aparições, que são fenômenos naturais, perdendo completamente o caráter sobrenatural à medida que as leis que os regem se tornam conhecidas. Esclareceu ainda que, como todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente, sempre que um desses fenômenos permite identificar uma inteligência que não está entre os encarnados, “evidentemente encontra-se fora de nós”¹, tendo-se aí uma comprovação da sobrevivência e da imortalidade dos seres humanos.
O Codificador foi além, prestando ao correspondente de família nobre informações a respeito dos dois envoltórios do Espírito encarnado: o corpo físico, mortal e perecível, que todos percebemos por nossos sentidos, — e que muitas vezes, equivocadamente, pensamos representar tudo o que somos —, e o perispírito, semimaterial e indestrutível, que conservamos e com o qual prosseguiremos após a morte do corpo, o qual, sob certas circunstâncias, pode tornar-se visível e mesmo palpável no plano físico.
Adentrou Kardec, então, no tema da mediunidade, falando ao príncipe sobre os meios pelos quais os encarnados podem entrar em relação com os Espíritos, dando-se as comunicações pela palavra escrita e oral e por outros meios, sendo os médiuns indivíduos dotados de uma aptidão especial para transmitir as mensagens dos desencarnados.
Aprofunda a sua introdução relacionando a infinita variedade de Espíritos à múltipla gama de comunicações mediúnicas que podem acontecer, cabendo a nós a tarefa de fazer a seleção. Para isso, ressalta a necessidade de desenvolver a capacidade de análise, que se dá pela forma e pelo conteúdo da mensagem, recordando-se de que os Espíritos superiores sempre se expressam numa linguagem “séria, digna, nobre e cheia de benevolência; toda expressão trivial ou inconveniente, todo pensamento que choca a razão e o bom senso, que denota orgulho, acrimônia ou malevolência, procede necessariamente de um Espírito inferior”¹. Ressaltou que os Espíritos elevados unicamente boas coisas ensinam, na moral do Evangelho, só pregando união e caridade.
Finaliza o texto introdutório, recordando que o bom médium é o que simpatiza com os bons Espíritos, não se medindo a sua eficiência pela facilidade das comunicações, e relembrando a consoladora informação de que todos temos um Espírito protetor que acompanha a nossa encarnação.
“A fé é a mais elevada paixão de todos os homens”, pontificava o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard². Quando passamos a nos relacionar com a Espiritualidade Superior, tendo como alicerce a Doutrina Espírita e, como meio, o centro espírita, deixamo-nos envolver por um suave encantamento.
Depararmo-nos com aquilo que Allan Kardec considerava fundamental é sempre uma alavanca para constantemente reavaliarmos os sentimentos que nos ligam ao Espiritismo e que movem nosso trabalho voluntário, para que possamos encaminhá-los da melhor forma. Será que nosso encantamento é por um Jesus idealizado, loiro e de olhos azuis, a anos-luz de suas morenas feições históricas, reproduzindo práticas religiosas do passado, rituais e rotinas, que geram paralisia de ação? Ou é pelos fundamentos altamente racionais deduzidos por Kardec, que necessariamente nos conduzem ao trabalho em favor do próximo e, de forma ampla, da Humanidade?
O que salta aos olhos, que Allan Kardec destacou de mais importante na missiva ao “Príncipe G”, é a imortalidade do Espírito, que, a partir da ciência espírita e por meio da mediunidade, foi atestada e provada aos sentidos do mundo como nunca antes, na história, havia sido. A prova da imortalidade traz consequências radicais ao nosso cotidiano de Espíritos em temporária passagem em um corpo físico — traz ou deveria trazer.
Arthur Conan Doyle, em A história do espiritualismo³, realizou aquele que terá sido o maior estudo histórico da ciência espírita e dos fatos mediúnicos até aquele momento, esquadrinhando as contribuições de tantos médiuns, como as irmãs Fox, Daniel Dunglas Home e Eusapia Palladino, e de cientistas como William Crookes. Mas foi após o apanhado dos fatos, ao final do livro, que o autor chegou às consequências religiosas, afirmando que os pontos básicos da persistência da personalidade após a morte e do seu poder de comunicação deveriam tocar e transformar as velhas religiões, que se tornaram formais, mundanas e materiais, presas ao passado sem qualquer contato com os fatos vivos do Espírito.
Estes pontos básicos da imortalidade e da comunicabilidade, que Kardec tanto enfatiza em seu texto, precisam ser o motor da revisão de que todos precisamos em nossa vivência com a Doutrina Espírita e nossa prática corriqueira nos centros espíritas que frequentamos. Cabe-nos enfatizar em nosso cotidiano e rotina a consciência permanente de que somos seres imortais, em trânsito temporário pela Terra, e a elevação de pensamento que nos torna acessíveis ao amparo da Espiritualidade Superior.
Imortalidade e comunicabilidade são o vértice comum de todas as correntes de pensamento religioso: dos primeiros cristãos que, como destaca Doyle, viviam em íntimo contato com os invisíveis; da antiga doutrina indiana do Raja Yoga, que preconiza a lembrança constante de que somos a alma, e não o corpo; do Budismo, que nos solicita a atenção plena e profunda em todos os momentos; e do próprio Espiritismo nosso, que, no mesmo tom, nos solicita que, em tudo o que fizermos, remontemos à Fonte de todas as coisas, para que nenhuma das nossas ações deixe de ser purificada e santificada pela lembrança de Deus, como nos relembra a mensagem “O homem no mundo”, de O evangelho segundo o espiritismo⁴.
Todos somos príncipes, pois somos filhos de Deus, e, de alguma forma, a correspondência de Allan Kardec é destinada a cada um de nós. Como o desconhecido “Príncipe G”, todos podemos e precisamos extrair lições de seu texto.
Se o advento do Espiritismo veio proporcionar à Humanidade a reconquista da imortalidade da alma e da comunicabilidade, proporcionando às pessoas a retomada da religiosidade em sua expressão mais pura; se ele deve injetar nas religiões antigas o sopro de renovação a que elas ainda resistem; e se, como destacou Doyle, o conhecimento espírita dissipou as nuvens que nos obscureciam a visão e nos pôs na montanha, onde vibra a intensa claridade que nos é a culminância da vida. Não podemos permitir que em nós aconteça o oposto: passar a tratar o Espiritismo como uma religião dogmática e seus centros espíritas como templos frequentados por mero formalismo, sem trabalho ou mudança interior.
Reconheçamos, a partir da ciência espírita, que somos detentores da fé, a mais elevada expressão humana, que somos filhos de Deus, imortais e sob o amparo daqueles que caminharam antes de nós. Somos verdadeiros príncipes, também destinatários da carta de Allan Kardec. Que nossa fé seja um encantamento por todo o seu trabalho, por este conhecimento que nos reconecta a Deus e é a verdadeira religião, expressando-se no aperfeiçoamento constante e no trabalho no bem.
Referências
1 KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: ano segundo – 1859. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2005. p. 11-19.
2 KIERKEGAARD, Søren apud CAMPELO, Rosane Delane; SOUZA, José Tadeu Batista de. A paixão da fé na filosofia da religião de Søren Kierkegaard. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://share.google/j6coHAEnExJI4OZ6O. Acesso em: 29 set. 2026.
3 DOYLE, Arthur Conan. A história do Espiritualismo: de Swedenborg ao início do século XX. Tradução de José Carlos da Silva Silveira. 1. ed. Brasília: FEB, 2013. p. 493-496.
4 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro da 3. ed. francesa. 131. ed. Brasília: FEB, 2016. p. 240-241.









































