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Revisitando a quarta Bem aventurança de O Código do Monte: a fé

Foto do escritor: fergs
fergs
há 11 horas
6 min de leitura

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados” (Mt 5:6).


Nas três primeiras bem-aventuranças, Jesus nos conduz por virtudes de elaboração interior: a humildade, a resignação e a mansuetude. Nelas, o trabalho espiritual parece acontecer principalmente no campo íntimo da criatura. O ser humano é chamado a reconhecer seus limites, aceitar com sabedoria aquilo que ainda não pode modificar e pacificar as próprias forças internas. É como se Jesus preparasse o terreno da alma, retirando dela o excesso de orgulho, revolta e agressividade.

Agora, no quarto movimento do Sermão da Montanha, algo novo começa a surgir. O indivíduo não apenas se recolhe para trabalhar a si mesmo, mas se abre para uma dimensão maior da existência. Depois de aprender algo sobre sua pequenez, sua dor e seus impulsos, ele começa a perceber que não vive isolado, que sua história pessoal está inserida numa ordem espiritual mais ampla. A fome e a sede de justiça revelam exatamente esse despertar: a criatura descobre que não se basta.

Esse é um ponto essencial. Enquanto o ser humano acredita que pode resolver tudo apenas com sua vontade ou controle, permanece fechado em si mesmo. Mas a vida, com suas perdas e frustrações, vai mostrando que há acontecimentos que ultrapassam nossa capacidade imediata de compreensão. Nem tudo se explica apenas na pessoa. Nem toda dor encontra resposta apenas no plano humano.  É nesse ponto que a alma começa a sentir fome e sede de algo superior. Não se trata apenas de desejar que a vida seja mais justa no sentido externo, embora isso também seja importante. Trata-se de uma necessidade mais profunda: a sede de sentido, de confiança numa justiça maior do que a justiça dos homens.

Por isso, essa bem-aventurança introduz a fé.

A fé nasce quando a criatura percebe que há uma ordem divina sustentando a vida, mesmo quando os acontecimentos parecem confusos ou dolorosos. Ela não elimina o sofrimento, mas modifica a forma como o sofrimento é vivido. Aquele que tem fé não se sente abandonado dentro da própria prova. Assim, a fome e a sede de justiça representam uma passagem espiritual importante. O ser deixa de viver apenas no esforço solitário de melhorar-se e começa a experimentar a ligação com o Alto. 

Nasce a fé como abertura. Então, a alma sente fome, sente sede. A criatura é arrastada dentro de si mesma pela necessidade de expansão. Surge aqui uma promessa de Jesus: “serão saciados”. E essa promessa introduz um sentimento indispensável à existência humana: a esperança.

A fome e a sede de justiça poderiam se transformar facilmente em desespero se não houvesse essa palavra de Jesus. Porque quem tem fome percebe a falta. Quem tem sede sente a urgência. Mas Jesus não deixa essa fome suspensa no vazio. Ele afirma que ela será atendida, que não ficará sem resposta, que existe uma saciedade possível para a alma que busca.

A esperança nasce exatamente nesse ponto: quando a criatura, mesmo ainda não vendo a solução, passa a acreditar que sua dor não é inútil, e que sua sede não será ignorada por Deus. A esperança não é ingenuidade, ou fingir que tudo está bem. Esperança é a força interior que permite continuar caminhando mesmo quando a realidade ainda não mudou.  Nesse sentido, “serão saciados” não significa que todos os desejos humanos serão imediatamente atendidos. A promessa de Jesus é mais profunda. Ele não fala de uma satisfação superficial, semelhante à saciedade do consumo, do prazer rápido ou da conquista material. Fala de uma plenitude espiritual, de uma resposta íntima de confiança que alimenta a alma mesmo antes que todas as circunstâncias externas estejam resolvidas.

Há uma beleza imensa nessa bem-aventurança: Jesus não elogia os satisfeitos, mas os que buscam. Não abençoa os acomodados, mas os que ainda sentem falta de algo maior. E promete que essa falta não será definitiva.

No entanto, talvez hoje estejamos vivendo um problema particular: estamos saciados demais. Saciados de informações, imagens, consumo, respostas prontas, prazeres imediatos e estímulos contínuos. Nunca tivemos tanto acesso a tantas coisas. Comemos sem fome, compramos sem necessidade e opinamos sem reflexão. Vivemos a sociedade do acúmulo. E, pior, do acúmulo e do descarte.  A sociedade contemporânea parece cheia, mas essa saciedade é estranha: quanto mais consome, menos se alimenta por dentro.

O acúmulo tornou-se quase uma forma de identidade. Acumulam-se objetos, contatos, mensagens, imagens... A pessoa parece precisar estar sempre adicionando algo à própria vida, como se o vazio interior pudesse ser resolvido pela quantidade. Porém, nada parece suficiente por muito tempo.

Há uma diferença entre estar cheio e estar nutrido. A pessoa pode estar cercada de abundância e, ainda assim, faminta de sentido. Pode ter acesso a tudo e, mesmo assim, não saber mais pelo que vale a pena viver.

Mas, o problema não está apenas em acumular. Está também na velocidade com que descartamos. O mesmo mundo que nos estimula a desejar incessantemente também nos ensina a abandonar rapidamente aquilo que já não produz excitação. Descartam-se valores, relações que exigem cuidado, pessoas que deixaram de corresponder às nossas expectativas imediatas.

A lógica do descarte, quando sai das coisas e entra nos vínculos, torna-se profundamente adoecedora. O outro passa a ser valorizado enquanto satisfaz e encanta. Porém, na rapidez dos vínculos o indivíduo se encanta e logo desencanta.  Vivemos um tempo em que muitos vínculos começam sob o signo da excitação, mas não amadurecem, não se aprofundam. O encantamento inicial, tão necessário e bonito em sua medida, muitas vezes é confundido com amor. Mas, o encantamento pertence ao instante; o amor precisa atravessar o tempo. O encantamento se alimenta da novidade; o amor se constitui na permanência.  A pessoa saciada demais de estímulos perde a fome de profundidade. E, quando perde essa fome, já não sabe verdadeiramente se relacionar.

Nesse cenário, a bem-aventurança de Jesus torna-se profundamente atual. Ele não diz: bem-aventurados os satisfeitos. Não diz: bem-aventurados os que nada mais procuram. Ele afirma: felizes os que ainda têm fome e sede de justiça. A fome, aqui é sinal de vida espiritual. Quem tem fome de justiça ainda não se acomodou ao mundo como ele está. Necessita de algo a mais, sobretudo algo mais profundo, que proporcione sentido.

Uma sociedade saciada demais corre o risco de perder a capacidade de desejar o bem. O excesso pode anestesiar e a abundância pode perigosamente distrair. O conforto pode produzir uma espécie de sonolência moral, em que a criatura já não se revolta com as injustiças, apenas muda de tela. Já não se compadece com a dor alheia, apenas segue rolando a página.

Por isso, talvez uma das grandes enfermidades do nosso tempo seja a perda da fome espiritual.

A fome de justiça não é desejo de vingança ou a vontade de punir o outro. Não é ter prazer em ver o erro alheio exposto. A justiça de que fala Jesus nasce de uma ordem mais alta: é fome de verdade, de reparação e de reconciliação da vida com o bem.

Por isso, quem tem fome e sede de justiça também tem fome e sede de Deus.

É o nascimento da fé verdadeira. A fé não é apenas acreditar quando tudo vai bem. A fé verdadeira aparece quando a resposta demora, quando a vida parece injusta, quando o pedido não é atendido da forma esperada. É nesse ponto que se distingue a fé madura da fé infantil. A fé infantil exige que Deus faça a nossa vontade, enquanto a fé amadurecida aprende a confiar mesmo quando não compreende.

No capítulo original, essa ideia aparece com força: Deus sempre responde, mas raramente conforme os nossos desejos imediatos. Muitas vezes, só mais tarde compreendemos que não receber o que pedíamos também foi uma forma de cuidado.

Por isso, Jesus une fome, sede, justiça e saciedade. Ele sabe que a alma humana carrega necessidades que o mundo não consegue resolver. A nossa sociedade está saciada de quase tudo, mas continua sedenta do essencial.

Talvez por isso tanta gente se sinta exausta, ansiosa e vazia. Não necessariamente porque lhe faltem coisas, mas porque lhe falta direção. A alma não vive apenas de estímulos; vive de sentido, sobretudo. Alimenta-se de sentido, principalmente quando esse sentido é alimento vivo de amor, verdade e transcendência.

Assim, resgatar a fome e a sede de justiça significa reaprender a desacelerar e a despoluir a alma das distrações efêmeras, permitindo que a fé atue como bússola no cotidiano. Ao cultivarmos a esperança e o compromisso ético com o bem, deixamos de ser meros leitores passivos da existência e nos tornamos coautores de uma justiça viva, que principia no íntimo e se espalha como alimento sustentável para o mundo ao nosso redor.

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