Maternidade e Imortalidade


Os dois servidores caminhavam, lado a lado, adentrando a mata densa; O ambiente estava tomado de miasmas exalados pela turba de desencarnados em desvario, após o confronto que resultou nas mortes de dezenas de pessoas refugiadas nos locais que ora atravessavam. Com a visão espiritual ampliada Luigi e Janaína identificavam o local onde o corpo de Antônio jazia estendido em uma poça de sangue.
— Meu irmão, não sei se terei coragem de resgatar o meu menino. Ele era tão jovem! Sei das suas escolhas, mas ninguém merece morrer assim — falou Janaína, com a voz embargada pela emoção.
— É preciso ter fé nesses momentos, pois tens a certeza de que a morte não é o fim, minha amiga e a cada experiência frustrada necessitamos ver a luz do recomeço — ponderava, delicadamente, Luigi envolvendo o coração aflito da mãe naquele momento de testemunho extremo.
Ao alcançarem, por fim, o lugar do resgate, a mulher em profundo sofrimento se inclinava sobre o cadáver que tinha a face destroçada pelos disparos feitos. Era uma cena medonha, capaz de abalar as fibras mais fortes de qualquer alma. As lágrimas corriam copiosas, misturando-se ao sangue coagulado que emplastrava as roupas, cobria o corpo e somente pela visão espiritual era possível reconhecer o filho desfigurado pelas balas. Os soluços de Janaína ecoavam, misturando-se ao burburinho espiritual da floresta, quando ouviram uma voz que ecoava, sobrepondo-se a algazarra reinante:
— Mãe! Onde você estava? Você está morta, eu te vi morrer.
Era Antônio que se aproximava sangrando, com as marcas dos tiros impressas no perispírito, vagando entre os Espíritos que andavam a esmo, lançando imprecações e agredindo-se, reciprocamente, cegos pelo ódio e pela dor de seus crimes.
Janaína lançou-se na direção do jovem, gritando: — Meu filho! Meu filho! Eu estou aqui, vim para te buscar.
O facínora parou de chofre, como se tivesse levado um choque e grunhiu uma blasfêmia:
— Vá embora! Não vou a lugar algum, pois tu estás morta e eu não vou morrer agora, pois antes vou levar para a cova muitos desses miseráveis que ousaram pisar em nosso território.
— Filho — voltou a insistir a mãe — acabou! Olhe para si mesmo, não percebes que já não tens mais a vida como falas?
— O quê? — o espectro aproximava-se de forma ameaçadora, quando Luigi se fez visível ao Espírito e se interpôs entre ambos.
— Antônio, lembras-te de mim? Fiz-te algumas visitas em sonho e renovei, muitas vezes, alguns convites e agora vou fazer-te recordá-los.
A fala enérgica e repassada de amorosidade atravessou a mente do rapaz como uma vigorosa corrente energética e ele caiu de joelhos, com o olhar fixo naquela figura a sua frente, enquanto verbalizava de forma acintosa:
— O senhor quer o quê, de mim?
— Nada, filho! Apenas te ajudar.
— Então, redarguiu, Antônio — ajuda-me a encontrar o meu fuzil e mostre o caminho para sair daqui.
— Claro, concordou, Luigi, mostro o caminho, mas sem armas.
Antonio gargalhou, enquanto afogava-se no sangue que brotava da sua face: — Se é assim pode ir embora, eu desarmado vou a lugar nenhum.
Luigi foi, lentamente, impondo a mão sobre o plexo coronário do rapaz, dando início ao desprendimento de formas-pensamento fuliginosas que demonstravam cenas do conflito vivido nas últimas horas e dias ali naquelas comunidades, enquanto a equipe responsável pelo resgate recolhia, por meio dos aparelhos plasmados para tal fim, os elementos liberados pelo socorrido.
Janaína acompanhava o processo com profundo respeito e em oração, ao mesmo tempo que recordava sua dolorosa trajetória como mãe. Seus três filhos haviam sido cooptados pelo tráfico, um após o outro. Ildevan, o mais velho, liderou diversos segmentos de uma das maiores e mais cruéis facções do país e administrava as finanças dos núcleos espalhados por vários estados. Mais tarde, tornou-se evangélico, converteu-se, denunciou várias ações criminosas do grupo e entregou-se à Justiça. Foi preso e assassinado na prisão, em represália. Jeiza envolveu-se com um traficante que morreu em confronto com um grupo rival e, depois, também foi assassinada como retaliação. Antônio, o caçula, custou-lhe a própria vida. Quando ele foi levado para servir às ações do tráfico, Janaína procurou o “chefe” e implorou pela libertação do menino. Não adiantou: sua resistência às regras impostas pelos líderes do crime na comunidade foi considerada traição, e ela foi morta, deixando órfão um filho que mal havia saído da pré-adolescência.
Luigi acompanhara o seu calvário e muitas vezes retirava-a, durante o sono físico, para estabelecerem combinações em benefício da prole nos dois planos da vida.
Quando ela desencarnou, foi socorrida pela nobre falange da benfeitora de Calcutá e integrada às suas fileiras, tão logo se recuperou da perturbação gerada pela morte violenta, mas meritória, na defesa de seu rebento.
Ildevan, também foi socorrido por Luigi e quando isso se deu, já começava a entender o processo da desencarnação e buscava atrelar os ensinamentos recebidos na Igreja, antes da morte física, com as realidades do mundo espiritual, atuando, juntamente com os servidores da comunidade evangélica, nos morros, no afã de fortalecer os corações leais ao Cristo, em defesa dos lídimos interesses do Mestre ante à investida do crime para manipular a crença a seu favor.
Jeiza demorava-se nas furnas onde os reflexos do sexo desregrado e da sensualidade provocada pelas exalações fluídicas do vício imperam. Agora era a vez de Antônio, para quem fariam os primeiros atendimentos e tentativas de socorro que somente a grandeza da Divina Misericórdia permitem o recolhimento nos braços da mãe.
O jovem traficante seguia, desacordado, com a caravana socorrista, para as câmaras de planejamento em regime de urgência, a fim de submeter-se a uma nova oportunidade de reencarnação, ainda na Terra, visando a superação dos impulsos deformados pelo crime e quiçá, evitando o exílio benfazejo para os mundos inferiores.
Janaína, ao lado de Luigi, acompanhava o cortejo benfeitor, e informada das providências estabelecidas para o seu amado filho, postou a mente em prece e passou a considerar, de pronto, peticionar, aos emissários do Cristo, a bênção de retornar ao lado de Antônio, em qualquer posição familiar, para continuarem juntos a caminhada rumo ao aprisco divino.
Saulo









































