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A cura verdadeira

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fergs
há 3 horas
6 min de leitura

Certamente, a função da mediunidade não é de promover curas, como arbitrariamente supõem e pretendem alguns desconhecedores da missão do Espiritismo na Terra. Fossem eles vinculados à Doutrina e seria incompreensível tal comportamento. Entretanto, em uma Sociedade Espírita, a tarefa primacial é a de iluminação da consciência ante a realidade da vida, seus fins, sua melhor maneira de agir, preparando os indivíduos para a libertação do jugo da ignorância, a grande geradora de males incontáveis. Dr. Carneiro de Campos [1]

 

É indispensável, para o êxito do exercício mediúnico, atentarmos sempre à lição colhida em o Evangelho segundo o Espiritismo que afirma: “A mediunidade é uma coisa santa, que deve ser praticada santamente, religiosamente. Se há um gênero de mediunidade que requeira essa condição de modo ainda mais absoluto é a mediunidade curadora.”[2]

Efetivamente, a mediunidade curadora é identificada em vários graus, como as demais faculdades e promove a cura pelo simples toque, pela imposição das mãos, pelo olhar, pela prece, enfim. Allan Kardec, conquanto tenha incluído essa especificidade no capítulo Médiuns, em O Livro dos Médiuns, fez questão de assinalar que falaria dessa variedade de medianeiros somente para não deixar de mencioná-la, dado ao fato de o assunto carecer um desenvolvimento mais extenso que não se amoldaria à estrutura da obra em elaboração.

Vê-se, pois, a complexidade que o assunto trazia, mesmo para o Codificador, e deve-se ressaltar o fato de Allan Kardec não ter estabelecido como prioridade esse estudo, delegando-o, como ele mesmo disse: “a um médico, amigo nosso, que se propõe a tratá-lo em obra especial sobre a medicina intuitiva”.[3]

Extrai-se, dessa passagem, o foco estabelecido pelo Mestre de Lyon, centralizando esforços em delinear princípios e orientações às comunicações e manifestações destinadas a instruir o homem para a educação dos seus sentimentos, com vista a forjar-lhe o caráter do homem de bem.

Mesmo assim encontraremos artigos na Revista Espírita, tratando da matéria como, por exemplo, no exemplar de janeiro de 1864 em que um médium envia correspondência ao Codificador, noticiando sobre o exercício da mediunidade curadora e   discorrendo sobre alguns atendimentos feitos, encarecendo preces para encorajamento e estímulo dos esforços empreendidos naquele trabalho.  Essa carta foi lida na Sociedade de Estudos Espíritas Parisiense em 18 de dezembro de 1863 e a seguir um dos médiuns recebeu comunicações espontâneas dos Espíritos Mesmer e do Apóstolo Paulo com norteamentos preciosos para a compreensão do tema.

Tomando por base essas assertivas, podemos traçar alguns paralelos entre as lições dos benfeitores acima mencionados e as circunstâncias que cercam muitas das atividades de cura realizadas nos Centros Espíritas:


1. A primeira questão pontuada por Mesmer é o caráter secundário da vontade do médium em realizar a cura e a sua visão limitada das reais necessidades daqueles que busca a sua intervenção.  Diz ele:

“A vontade muitas vezes foi mal compreendida. Em geral o que magnetiza não pensa senão em desdobrar sua força fluídica, em derramar seu próprio fluido sobre o paciente submetido aos seus cuidados, sem se preocupar se há ou não uma Providência interessada no caso tanto ou mais que ele. Agindo sozinho, ele não pode obter senão o que a sua força sozinha pode produzir, ao passo que nossos médiuns curadores começam por elevar sua alma a Deus e por reconhecer que por si mesmos nada podem. Eles fazem, por isto mesmo, um ato de humildade, de abnegação, e então, confessando-se fracos por si mesmos, Deus, em sua solicitude, lhes envia poderosos socorros que o primeiro não pode obter, porque ele se julga suficiente para o empreendimento.” (grifos nossos).[4]


Eis uma condição que necessita ser mantida pelos médiuns de cura: O reconhecimento de que a sua vontade não supera as necessidades do planejamento reencarnatório do paciente e que a sua atuação está na dependência de uma força superior, o que lhe exige humildade e abnegação. O desenvolvimento dessas virtudes é, por vezes, afetadas diretamente pelo orgulho, pelos elogios fáceis a estimularem a vaidade do médium, fazendo-o colocar-se na posição de um magnetizador comum, pois para atender e gerar resultados para os consulentes que o buscam, conta com as suas próprias energias vitais eis “que se julga suficiente para o empreendimento”, como refere Mesmer.


2. Outro ponto capital a desafiar-nos a compreensão é o fato de as curas efetivas dependerem da pureza dos fluidos inoculados e essa qualidade residir no concurso dos bons Espíritos aos médiuns curadores “e esse concurso só é concedido à fé sincera e à pureza de intenção.” [5]

Tanto e a fé sincera, quanto a pureza de intenções requerem a redução da influência do interesse pessoal sobre ações e escolhas, que é o principal esforço exigido de quem deseja servir como intermediário dos fluidos capazes de regenerar o organismo físico, quando isso é permitido pela Misericórdia Divina. Como o interesse pessoal revela a imperfeição moral própria do nosso estágio evolutivo, os benfeitores da humanidade afirmam que “[...] a sublimidade da virtude consiste no sacrifício do interesse pessoal pelo bem do próximo, sem segundas intenções. A mais meritória é a que se baseia na mais desinteressada caridade.”

Portanto, observando a trajetória de alguns médiuns curadores — dentre eles o retratado por Manoel Philomeno de Miranda em Trilhas da Libertação, obra da qual se extraiu a citação em epígrafe —, percebemos como o interesse pessoal pode se impor a ponto de fazer uma alma comprometida com a mediunidade ceder, aos poucos, aos apelos mundanos e à sensualidade, envolvendo-se em sombras e perturbações e conclui-se que não é a mediunidade curadora que impede a dignificação da faculdade e seu emprego no bem, mas a fragilidade moral, as intenções desviadas e as escolhas equivocadas de quem a possui.

Paulo de Tarso afirma na mensagem psicografada pelo médium, Sr. Albert, que os médiuns curadores referidos na Carta enviada a Allan Kardec, possuem as mais louváveis disposições, quais sejam: “a fé que transporta montanhas, o desinteresse que purifica os atos da vida e a humildade que os santifica.” Essa análise de parte do Apóstolo Paulo sobre esses médiuns curadores, no entanto, deve ser estudada e anotada por todos os seareiros em tarefa nesses hospitais da alma - os centros espíritas - pois somente assim teremos a garantia de que a vontade de Deus se fará e a cura verdadeira, ou seja, a erradicação das causas que enfermam e causam o grande cortejo dos males que infelicitam a humanidade chegará a seu tempo para felicitar os corações humanos à medida  que os princípios do Evangelho de Jesus forem dominando as paisagens vivenciais das criaturas.

Diante dessas considerações poder-se-ia avaliar a objeção feita por alguns segmentos espíritas, quanto às recomendações e restrições feitas às atividades voltadas à cura do corpo nas diretrizes emanadas do Movimento Espírita Brasileiro, considerando a sua importância para cumprirmos o planejamento reencarnatório, darmos curso à execução das leis morais e da própria lição dos imortais ao dizerem: “Amai, pois, a vossa alma, porém, cuidai igualmente do vosso corpo, instrumento daquela. Desatender as necessidades que a própria natureza indica, é desatender a lei de Deus.”[6] Porém não se trata disso, mas de considerarmos adequadamente os pressupostos para tais atividades. Sabe-se que os Espíritos promovem curas quando elas fazem parte dos desígnios providenciais de Deus. Isso pode ocorrer a qualquer momento — durante uma exposição doutrinária, um encontro de estudo, uma irradiação mental ou um atendimento fraterno — sem exigir gestos, aparatos ou denominações específicas.

Nas lides espíritas é fundamental o estímulo à iluminação das consciências de médiuns, trabalhadores e dirigentes e a perseverança em cultivarem: “a fé que transporta montanhas, o desinteresse que purifica os atos da vida e a humildade que os santifica.”[7] Essa é a recomendação do Apóstolo Paulo aos médiuns curadores e que devem, no entanto, serem ampliadas para todos os seareiros em tarefa nesses hospitais da alma - os centros espíritas -  pois somente assim teremos a garantia de que a vontade de Deus se fará e a cura verdadeira, ou seja, a erradicação das causas que enfermam o homem e causam o grande cortejo dos males que infelicitam a humanidade.



Referências:


[1] Franco, Divaldo Pereira; de Miranda (Espírito), Manoel Philomeno. Trilhas da libertação (Portuguese Edition) (p. 58). FEB. Edição do Kindle.

[2] Kardec, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XXVI, item 10.FEB Publisher. Edição do Kindle.

[3] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo. Cap. XXVI, item 10.FEB Publisher. Edição do Kindle. 

[4] KARDEC, Allan, Revista Espírita de Janeiro de 1864. Médiuns Curadores

[5] Ibidem.

[6] KARDEC, Allan. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. O evangelho segundo o espiritismo FEB Publisher. Edição do Kindle.Capítulo XVII, item 11.

[7] KARDEC, Allan, Revista Espírita de Janeiro de 1864. Médiuns Curadores

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