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Por que ler Allan Kardec?

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fergs
há 2 horas
4 min de leitura

Vinicius Lima Lousada


Dissemos que o melhor meio de se esclarecerem sobre o Espiritismo é estudarem previamente a teoria; os fatos virão depois, naturalmente, e serão compreendidos facilmente, qualquer que seja a ordem em que as circunstâncias os façam vir. As nossas publicações são feitas no intuito de favorecer esse estudo.- Allan Kardec


A pergunta acima, ao adepto estudioso do Espiritismo, pode parecer dispensável por ser sua resposta uma obviedade, pois é nas obras de Allan Kardec que encontramos a Filosofia Espírita na totalidade de sua base fundamental e, sem a sua leitura, não seremos capazes de apreender seus postulados ou o seu objetivo essencial.

No entanto, diante das facilidades dos recursos midiáticos e da oferta vasta do campo literário espírita, pode ser que deixemos de colocar em nossa pauta diária a leitura da obra kardequiana ou venhamos a fazer leituras muito fragmentadas dela. Impõe-se, portanto, a necessidade de uma leitura de caráter tanto extensivo quanto intensivo. Neste caso, a leitura extensiva é importante, tendo em vista a apreensão do conjunto da obra e a compreensão da evolução do pensamento espírita. A leitura intensiva, igualmente de relevo, permite compreendermos não somente a terminologia própria do Espiritismo, em seus conceitos básicos e como estes operam em seus aspectos científico, filosófico e moral, mas, também, a sua aplicação. Somente a combinação das duas, como hábito, evita tanto o esquecimento da obra de Kardec quanto a sua leitura rasa. 

Do contrário, arriscamos produzir em nosso meio confusões com ideias “novas”, supostamente espíritas, como se toda ideia espiritualista coubesse na estrutura teórica da Doutrina Espírita, ainda que o Espiritismo possa dialogar com diversos saberes, ele tem em Kardec uma estrutura epistemológica própria, não sendo cabível a enxertia de ideias estranhas aos seus princípios e método. Aliás, lembremo-nos que o povo que procura o centro espírita está em atrás do que o Espiritismo oferece em termos de acolhimento, esclarecimento e consolo para os seus desafios. Caso ignoremos a base fundamental do Espiritismo, incorremos em difundir ideias particulares ou hipóteses equivocadas, como se fosse a própria Doutrina, prestando desserviços na seara da libertação de consciências. Precisamos partilhar estudos e reflexões que partem da obra de Kardec como fonte indispensável e de relevo.

Em torno do que já expusemos, é de bom alvitre termos ciência de que, de modo geral, nós mesmos trazemos atavismos religiosos cultivados outrora, dos quais não nos libertamos facilmente, e, assim, corremos o risco de lidar com o Espiritismo como se ele fosse apenas mais uma religião proselitista, ignorando o fato de que a convicção espírita se elabora muito mais no exercício da fé raciocinada, na prática de uma espiritualidade aliada ao pensamento reflexivo, do que na mera adesão de uma rotina nas instituições.

Aliás, escreveu Kardec que "O Espiritismo é uma questão de fé e de crença, e não de associação (...).", ao responder à reclamação do crítico Abade Barricand acerca da análise do mestre presente na Revista Espírita a respeito das pretensas refutações desse sacerdote à tese espírita nos cursos que ministrava sem o devido conhecimento de causa. Mas, enfim, deve ficar evidente que a convicção espírita se edifica mediante o estudo sério e com uma atitude filosófica do adepto em relação aos saberes presentes nos textos estudados. Por atitude filosófica compreendemos a postura intelectual de curiosidade que move o indivíduo à construção de suas aprendizagens, que busca saber e compreender o objeto de sua análise (um conceito, um fato ou uma circunstância, por exemplo) aprendendo a pensar reflexivamente e por si próprio. Logo, uma atitude filosófica ante o estudo espírita seria pensar de forma autônoma, porém problematizadora, no sentido de amadurecer a própria reflexão em torno dos textos do Espiritismo, com perseverança e compromisso.

E, no que tange à questão que dá título a este artigo, o que reforça a consciência da relevância das obras de Allan Kardec, para além de seu conteúdo, é o fato de o eminente professor ter desenvolvido a obra de sua vida em especial conexão com o Espírito Verdade e sua equipe. Para valorizarmos devidamente esse trabalho missionário, é útil considerarmos a colaboração interexistencial que caracterizou a dinâmica de pesquisa e produção da Teoria Espírita, realizada em conjunto com os Espíritos Superiores.

Dito isto, façamos outra pergunta: quais são as obras fundamentais do Espiritismo? A resposta está num opúsculo escrito pelo próprio Kardec, no ano de 1869: o Catálogo Racional: obras para se fundar uma biblioteca espírita. Neste pequeno livro, Allan Kardec apresenta um conjunto de obras catalogadas que se vinculavam, de algum modo, ao objeto de estudos da ciência com que se ocupava. Assim, encontramos citadas no referido catálogo: a) obras fundamentais da Doutrina Espírita; b) obras diversas sobre Espiritismo; c) obras produzidas fora do Espiritismo e, entre elas,  as que se opunham à Doutrina inclusive.

Isto exposto, é bom nos lembrarmos que Kardec nomeia da seguinte forma as obras fundamentais do Espiritismo:

  • O Livro dos Espíritos (parte filosófica)

  • O Livro dos Médiuns (parte experimental)

  • O Evangelho segundo o Espiritismo (parte moral)

  • O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo

  • A Gênese, os milagres e as predições, segundo o Espiritismo

  • O que é o Espiritismo? — Introdução ao conhecimento do mundo dos Espíritos

  • O Espiritismo em sua mais simples expressão

  • Resumo da lei dos fenômenos espíritas

  • Viagem Espírita em 1862

  • Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos

Fica evidente que o essencial para aprender a Filosofia Espírita está nessas obras, consideradas por Kardec como fundamentais, entre livros, brochuras e a Revista que produziu até a sua desencarnação, em 1869, após uma vida laboriosa e de entrega à educação e, por fim, ao Espiritismo. Assim, aproveitemos o ensejo de valorizarmos a obra kardequiana e procuremos estudá-la de forma que o saber apreendido nos torne mais sábios, resolutos no bem, moderados ante as paixões e felizes por conta da paz de consciência que o cultivo das virtudes, à luz da moral de Jesus lecionada pelo Espiritismo, pode nos trazer quando devidamente aplicada a nós mesmos, nas variadas circunstâncias da vida.


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