A criança e a natureza: um caminho para a formação integral do Espírito
Equipe do Programa Gestão do Saber Ambiental da Fergs

A natureza está profundamente relacionada a todos os aspectos do desenvolvimento infantil, contribuindo para o desenvolvimento físico, cognitivo, emocional, social e sensorial da criança. O contato com ambientes naturais estimula a curiosidade, a criatividade, a autonomia e a capacidade de observar, explorar e estabelecer relações com o mundo ao seu redor. Além disso, favorece a construção de vínculos afetivos com a natureza, despertando sentimentos de pertencimento, cuidado e respeito pela vida. Essas experiências, vivenciadas desde a infância, podem constituir uma importante base para a formação de indivíduos mais conscientes, responsáveis e capazes de adotar atitudes sustentáveis e contribuir para uma sociedade que reconheça a interdependência entre as pessoas, os demais seres vivos e o planeta.
Esse tema ganhou ainda mais relevância no Brasil com a aprovação da Lei n.º 15.512, de 22 de setembro de 2026, conhecida como ECA Ambiental. A nova legislação “dispõe sobre princípios e diretrizes para a formulação e a implementação de políticas públicas para a efetivação, com absoluta prioridade, do direito da criança e do adolescente à natureza.”¹
A norma reconhece que crianças e adolescentes têm direito a áreas naturais saudáveis e ecologicamente equilibradas, à convivência e à criação de vínculos com a natureza, ao brincar livre em contato com ambientes naturais e a uma educação baseada na natureza.
Entre as principais diretrizes da nova legislação estão:
Direito à natureza: crianças e adolescentes devem ter acesso prioritário a ambientes naturais saudáveis e equilibrados, incluindo áreas verdes, praças, parques e outros espaços que favoreçam o contato cotidiano com a natureza;
Brincar e conviver ao ar livre: a lei reconhece a importância do brincar livre e do contato direto com a natureza, fortalecendo oportunidades para que crianças possam explorar, observar, movimentar-se e estabelecer vínculos com os ambientes naturais;
Educação baseada na natureza: a legislação incentiva práticas educativas que aproximem crianças e adolescentes dos ambientes naturais e contribuam para a educação ambiental, a conservação da biodiversidade e a compreensão dos desafios socioambientais e climáticos;
Ambientes escolares mais conectados à natureza: a lei estabelece diretrizes para que o planejamento e os sistemas de ensino considerem o contato com a natureza e a educação ambiental. Isso abre espaço para iniciativas como hortas, jardins, áreas verdes, espaços de sombra e outras estratégias que aproximem a comunidade escolar da natureza;
Proteção diante das mudanças climáticas: crianças e adolescentes passam a ser considerados de forma prioritária nas políticas de adaptação e enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas, inclusive em situações de riscos socioambientais, emergências e desastres;
Planejamento das cidades: a legislação orienta políticas públicas que favoreçam o acesso de crianças e adolescentes à natureza, inclusive por meio de espaços públicos próximos de suas casas e escolas e de ambientes que estimulem o brincar e a convivência.
É necessário possibilitar que crianças e adolescentes vivenciem experiências significativas ao ar livre, tenham oportunidades de brincar, explorar, observar e interagir com os elementos naturais e compreendam, desde cedo, que fazem parte de uma rede de vida da qual também dependem.
Ao cultivar uma horta, observar os ciclos das plantas, brincar com elementos naturais, acompanhar a vida dos animais, perceber a importância da água e do solo ou simplesmente experimentar o tempo e os ritmos da natureza, a criança desenvolve conhecimentos e, ao mesmo tempo, constrói valores e atitudes que podem acompanhar sua trajetória. Assim, a educação ambiental deixa de ser apenas um conteúdo e passa a constituir uma experiência cotidiana, capaz de formar indivíduos mais sensíveis, participativos e comprometidos com a preservação da vida e com a construção de uma sociedade sustentável, fraterna e organizada segundo a Lei de Amor.
No livro Pestalozzi: um romance pedagógico, encontramos elementos que apresentam o pensamento e o método pedagógico defendidos por Pestalozzi, cuja proposta valorizava uma educação fundamentada na experiência concreta e na observação do mundo. Para ele, a criança aprende de maneira mais significativa quando pode explorar, observar e estabelecer relações diretamente com aquilo que a cerca. Nesse sentido, o contato com a natureza assume papel fundamental no processo educativo, pois possibilita que a aprendizagem parta da realidade vivenciada pela criança, e não apenas de representações abstratas. Como destacado na obra, “o contato direto com as coisas da natureza, ao invés de aprender pelos livros e figuras, esteve presente em todo o trabalho desenvolvido por Pestalozzi”.² Essa concepção evidencia a importância de considerar os sentidos, a experiência e a curiosidade infantil como elementos essenciais para a construção do conhecimento.
Ao observar os fenômenos naturais, explorar diferentes materiais e perceber as relações existentes no ambiente, a criança amplia sua compreensão sobre a vida e desenvolve, gradativamente, atitudes de cuidado e responsabilidade. A educação, portanto, ultrapassa a transmissão de conhecimentos e passa a contribuir também para a formação de valores e para o desenvolvimento de uma consciência ecológica. É nesse contexto que o Espírito Camilo, pela psicografia de Raul Teixeira, afirma que “a ecologia não deverá ser dissociada da educação, a fim de que alcance os seus enobrecidos objetivos sobre o mundo”.³ A afirmação amplia a perspectiva apresentada por Pestalozzi, mostrando que a aproximação com a natureza pode constituir não apenas um caminho para aprender sobre o mundo, mas também uma oportunidade para aprender a cuidar dele.
Para que essa educação aconteça de maneira significativa é fundamental considerar aquele que atua como mediador desse processo: o educador. Uma prática educativa que valoriza a observação, a experiência e a interação com o ambiente exige uma mediação atenta às manifestações, curiosidades, necessidades e descobertas das crianças. O mediador é também aquele que observa, acolhe, aprende e cria condições para que as crianças construam suas próprias relações com o mundo. Cézar Braga Said, no artigo “Os processos educativos à luz do Evangelho do Cristo”, ressalta que:
Um bom educador espírita tem sensibilidade para perceber as necessidades dos seus educandos e sabe que precisa, igualmente, educar-se. É aquele que, à luz da Terceira Revelação, procura aprimorar em si: o desenvolvimento do tato; o acúmulo de experiências; a ampliação do senso de observação.⁴
Essa compreensão sobre o papel do educador dialoga com as reflexões apresentadas em O evangelho segundo o espiritismo, ao abordar a infância como um período particularmente favorável às influências educativas. Kardec explica que, nos primeiros anos, o Espírito se encontra mais acessível às experiências e impressões que podem contribuir para seu desenvolvimento:
Durante o tempo em que seus instintos se conservam amodorrados, ele é mais maleável e, por isso mesmo, mais acessível às impressões capazes de lhe modificarem a natureza e de fazê-lo progredir, o que torna mais fácil a tarefa que incumbe aos pais.⁵
A Doutrina Espírita amplia a compreensão sobre a importância das experiências vivenciadas na infância. Se a criança se encontra em um período especialmente receptivo às impressões que podem contribuir para seu desenvolvimento, proporcionar-lhe experiências de contato, observação e convivência com a natureza significa também oferecer oportunidades para a construção de valores, sentimentos e atitudes que poderão acompanhá-la ao longo de sua jornada de desenvolvimento.
Desse modo, as contribuições de Pestalozzi, Camilo, Cézar Said e Allan Kardec apresentam-nos uma compreensão de educação na qual a criança, a natureza e o mediador estão profundamente relacionados. A criança aprende pela experiência e pela interação com o mundo; a educação amplia essa experiência, favorecendo a construção de uma consciência ecológica; e o educador, por sua vez, precisa desenvolver sensibilidade e capacidade de observação para mediar esse processo. Educar para o cuidado com a natureza implica, portanto, também educar o olhar, despertar a sensibilidade e transformar a maneira como nos relacionamos com a vida.
A educação ambiental envolve tanto a relação da criança com a natureza quanto o processo de aprimoramento daquele que educa. Nesse contexto, a natureza constitui um espaço privilegiado para o desenvolvimento dos sentidos, o enriquecimento das vivências e a ampliação do senso de observação, favorecendo experiências concretas que contribuem para a construção do conhecimento e para uma relação mais sensível e consciente com o ambiente.
Assim, educar em contato com a natureza é também educar para a vida, para a convivência e para a responsabilidade diante de tudo aquilo que nos cerca. Quando a criança tem a oportunidade de conhecer, observar, sentir e vivenciar a natureza, não apenas amplia seus conhecimentos, mas também desenvolve vínculos, valores e sentimentos que podem orientar suas escolhas ao longo da formação integral do Espírito.
Referências
1 BRASIL. Congresso Nacional. Lei n.º 15.512, de 22 de setembro de 2026. Diário Oficial da União: Brasília, DF, 2026. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2026/lei-15512-22-setembro-2026-800007-publicacaooriginal-181452-pl.html . Acesso em: 10 out. 2026.
2 ALVES, Walter Oliveira. Pestalozzi: um romance pedagógico. Pelo Espírito Alfredo. São Paulo: IDE, 2013. E-book. pos. 324.
3 TEIXEIRA, José Raul. Educação e vivências. Pelo Espírito Camilo. Niterói: Frater, 2014. E-book. p. 22.
4 SAID, Cézar Braga. Os processos educativos à luz do Evangelho do Cristo. In: BARBIERI, Maria Elisabeth (org.). Educação com Jesus: a conquista do Reino de Deus. Porto Alegre: Fergs Editora, 2019. p. 51
5 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 131. ed. Brasília: FEB, 2013. cap. 8, item 4.









































