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A mediunidade na infância

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    fergs
  • 13 de mai.
  • 5 min de leitura


Jeferson Quadros

Vice-diretor da Área da Mediunidade da Fergs


É muito comum, nas lides do Movimento Espírita, depararmo-nos com dúvidas atinentes a sintomas de mediunidade apresentados por crianças, além de diversos tipos de fenômenos que elas relatam. São amigos imaginários, percepções de seres desencarnados, lembranças de reencarnações ou de experiências no Plano Espiritual, dentre tantas outras ocorrências que afligem e perturbam os pais e familiares, levando-os aos centros espíritas em busca de ajuda.

Por que essas situações acontecem? Como lidar com elas? O que pode ser feito para ajudar as crianças? Este artigo visa trazer subsídios para que entendamos essas ocorrências e possamos amparar os pequenos e seus familiares com base nos postulados do Espiritismo.

Inicialmente, lembramos que a mediunidade é um sentido, tal qual os cinco sentidos físicos, que permite o contato com o mundo extrafísico e os seres que o habitam (os Espíritos). Allan Kardec afirma em O livro dos médiuns que “essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, um privilégio exclusivo. Por isso mesmo, raras são as pessoas que dela não possuam alguns rudimentos1, deixando claro que a mediunidade, apesar de seus graus e características variadas, é faculdade comum a todos os seres humanos. Seguindo a mesma linha de pensamento, José Herculano Pires explica na obra Mediunidade que: 

Mediunidade é a faculdade humana, natural, pela qual se estabelecem as relações entre homens e espíritos. Não é um poder oculto que se possa desenvolver através de práticas rituais ou pelo poder misterioso de um iniciado ou de um guru. A Mediunidade pertence ao campo da comunicação. Desenvolve-se naturalmente nas pessoas de maior sensibilidade para a captação mental e sensorial de coisas e fatos do mundo espiritual que nos cerca e nos afeta com as suas vibrações psíquicas e afetivas. Da mesma forma que a inteligência e as demais faculdades humanas, a Mediunidade se desenvolve no processo de relação.2


Esclarecendo que, em sua essência, a mediunidade é uma faculdade natural, de eclosão espontânea, que independe da idade, do grau de moralidade, do conhecimento ou da total ignorância da sua existência para se fazer atuante na vida de todos nós. Com base nessas informações, inferimos ser perfeitamente possível a mediunidade se expressar no período da infância, tanto quanto se expressa nas fases juvenil e adulta, como comprova a vivência de muitas famílias. 

No entanto, é preciso prudência na análise e interpretação dos sinais da suposta mediunidade, em especial no período da infância. 

Primeiramente, precisamos levar em conta que os sintomas apresentados pelas crianças são decorrentes da sensibilidade natural que promove o contato com o Mundo Espiritual. No período que vai até os sete anos, a criança possui fortes laços com ambos os planos da vida, o físico e o espiritual. Esses laços, decorrentes das faculdades da própria alma, permitem que, espontaneamente, muitas crianças percebam o Plano Espiritual e interajam com os seres desencarnados. É importante ressaltar que, diferente das experiências mediúnicas, que dependem de fatores tais quais a concentração e o transe mediúnico, as experiências vivenciadas pelas crianças ocorrem naturalmente, em meio às situações corriqueiras do dia-a-dia, demonstrando tratar-se de fenômeno diferente.

Mas essa é uma situação passageira, pois as percepções espirituais tendem a diminuir gradativa e espontaneamente com a aproximação da idade entre sete e oito anos, período no qual “o processo reencarnacionista estará consolidado3, e a ligação Espírito/perispírito com o corpo físico estará finalizada. No período posterior aos oito anos, a sensibilidade se atenua e, consequentemente, cessam os sintomas até então apresentados.

Há exemplos, é verdade, de crianças que possuem desde tenra idade as faculdades mediúnicas atuantes. Yvonne do Amaral Pereira afirma no seu livro Recordações da mediunidade: “creio que nasci médium já desenvolvido (...) algumas faculdades se apresentaram ainda em minha primeira infância (...)4 relatando, em seguida, um fenômeno de catalepsia (de morte aparente), que ocorreu com ela nas primeiras semanas de vida. Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco relatavam com alegria suas percepções do Mundo Espiritual e dos seres imateriais com os quais tinham contato desde a infância. Esses relatos comprovam de forma inequívoca que é possível que as faculdades mediúnicas aflorem muito cedo, constatação essa que não deve ser usada como incentivo para que as crianças estimulem a sensibilidade mediúnica.

Baseamos essa recomendação na advertência que Allan Kardec registrou em O livro dos médiuns

[...] não se deve forçar o desenvolvimento dessas faculdades (a mediunidade), nas crianças, quando não é espontânea, e que, em todos os casos, se deve proceder com grande circunspecção, não convindo nem excitá-las, nem animá-las nas pessoas débeis5


A preocupação do nobre Codificador com o exercício da mediunidade na infância também é expressada no item 221 de O livro dos médiuns6, em que ele afirma que desenvolver a mediunidade nas crianças é muito perigoso em função da fragilidade e delicadeza do organismo em formação, estando os infantes sujeitos a perturbações físicas e sobre-excitação da imaginação.

A ciência corrobora com as afirmações de Kardec, afirmando que o período da infância é necessário para o desenvolvimento dos órgãos e das habilidades intelectuais e cognitivas. Segundo o Ministério da Saúde, “são nos primeiros anos de vida que ocorrem o amadurecimento do cérebro, a aquisição dos movimentos, o desenvolvimento da capacidade de aprendizado, além da iniciação social e afetiva7 das crianças. Somando-se a essas constatações, as características naturais do período da infância, tais quais a imaturidade moral, a dificuldade de concentração, a cognição limitada, dentre outras, são fatores que desaconselham o exercício de intercâmbio espiritual, levando em conta as prescrições trazidas no capítulo 17 da segunda parte de O livro dos médiuns8.

Quando os sintomas surgem de forma espontânea e repetida, a criança deve ser encaminhada ao centro espírita, onde receberá o apoio indispensável para a solução das dificuldades decorrentes dos sinais apresentados. Um diálogo amigo e fraterno, esclarecendo os responsáveis sobre a sensibilidade que, ao natural, os pequenos apresentam, sempre será uma ótima iniciativa. Aproveitando os recursos oferecidos no centro espírita, em especial as atividades de assistência espiritual, tais como o atendimento fraterno e o passe, deverão ser indicados, dando início ao auxílio. Integrar a criança nas turmas de evangelização infantil e incentivar os pais e familiares a assistirem regularmente às exposições doutrinárias são medidas que trazem excelentes resultados, com diminuição gradual dos sintomas apresentados pelo infante. Em momento oportuno, a família deve ser instruída à prática do culto do Evangelho no Lar e, também, pode ser convidada a participar dos grupos de estudo disponibilizados pelo centro espírita, onde terá contato com conhecimentos que auxiliarão a todos no ambiente familiar.

Por fim, cabe ressaltar que não é recomendável que as crianças sejam estimuladas  à participação em reuniões mediúnicas. Nossos pequenos não possuem as habilidades e conhecimentos necessários para que o intercâmbio sistemático com os seres desencarnados ocorra de forma segura e, sobretudo, as crianças ainda não estão prontas, no que se refere à sua organização física, para instaurar, de forma habitual, relações com essa atividade espiritual. Para que a sensibilidade mediúnica ou anímica das crianças seja minimizada e, em especial, seja controlada, recomendamos os recursos disponibilizados pelos centros espíritas, tal qual relatado anteriormente. Com o amparo oferecido nas instituições espíritas, somado ao apoio familiar, as crianças e suas famílias poderão conquistar a harmonia que tanto almejam.


Referências:

1. KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. 81. ed. 8. imp. Brasília: FEB, 2019. 2.ª parte, cap. 14, item 159. 

2. PIRES, José Herculano. Mediunidade. 2ª ed. São Paulo: Paidéia, 1992. Capítulo 1.

3. XAVIER, Francisco C. Missionários da Luz. Pelo Espírito André Luiz. 45ª edição, 8ª impressão. Brasília: FEB, 2017. Capítulo 13.

4. PEREIRA, Yvonne do A. Recordações da Mediunidade. 12ª ed. Brasília: FEB, 2015. Capítulo: Faculdade Nativa.

5. KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. 81 ed. 8 imp. Brasília: FEB, 2019. 2ª parte, cap. 18, item 222.

6. KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. 81 ed. 8 imp. Brasília: FEB, 2019. 2ª parte, cap. 18, item 221.

7. BRASIL. Ministério da Saúde. Primeira infância. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-crianca/primeira-infancia. Acesso em 7 de maio de 2026.

8. KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. 81 ed. 8 imp. Brasília: FEB, 2019. 2ª parte, cap. 17, item 200 a 216.


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