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Planejamento inclusivo de atividades

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  • há 11 horas
  • 6 min de leitura

Sonia Hoffmann

 

A proposição de toda e qualquer atividade precisa sempre apresentar como objetivo fundamental o fortalecimento e ampliação do horizonte intelectual de quem elabora e de quem interage com o processo construtivo da dinâmica que provoca vínculo.

Neste panorama, um é surpreendido com a variedade de resultados que geralmente ultrapassam expectativas, quando não são fixados limites e fronteiras criativas e interpretativas. Outro é favorecido pela oportunidade de se apresentar como sujeito da sua vulnerabilidade, da sua escassez, da sua habilidade, expondo sua identidade, sua persona que, no encontro e reencontro de singularidades, agrega ao seu saber novos saberes e novas probabilidades.

Sem a superficialidade do mero cumprimento de atribuições e sim com a convicção da sua responsabilidade moral e social nas consequências manifestas a partir de provocações evolutivas, o facilitador precisa esquematizar um planejamento consciente desde a preparação de ambiente acolhedor até etapas da dinâmica apropriadas e adequadas às possibilidades de todos os participantes terem acesso e agirem conectados em conjunto aos incentivos.  Isso implica reflexão de quem elabora e objetiva estimular o desenvolvimento de pensamento crítico naquele que mantém um diálogo ativo com os elementos internos e com os desafios externos. Portanto, o melhoramento é recíproco.

 

"Cada um de nós tem a sua parte de responsabilidade e o dever de trabalhar para o melhoramento do destino geral. A educação das almas humanas obriga-as a ocupar situações diversas" (Denis, 2000, p. 97).

 

O planejamento deve ser um sistema aberto, no qual existam lacunas propositadas a serem preenchidas tanto com a carência como com a fartura de viabilidades que, de qualquer forma, expressam a realidade do ser interexistencial, transversalizado nas mais diversas culturas e vivenciando possíveis momentos de enfrentar o peso de olhares repletos de estranhamento, de vergonha pela sua diferença, do medo em ser rotulado, depreciado, humilhado e considerado ridículo. Aqui se encontra a relevância do participante com deficiência, neurodivergência, imigrante ou qualquer outra diferença, ostensiva ou não, de encontrar ambiente seguro, limpo de preconceitos e julgamentos, afetivamente estruturado onde possa se manifestar sem culpa, sem inibição, sem esperas vazias (ainda mais quando injustas) ou ser valorizado em excesso ou com insuficiência.

Este entendimento significa e justifica a formação do enunciado inclusão= reflexão+(co)participação+ação. Internamente, estas variáveis se complementam e se solicitam, pois a ação, exemplificadamente, pode demandar a reflexão para novas coparticipações e o surgimento de ações contínuas que, algumas vezes, ultrapassam o ambiente da atividade e deslizam para o espaço vivencial familiar e social da pessoa, culminando em sólida assimilação das informações experienciadas.

A reflexão envolve impulsionadores prioritários: por que fazer? para que fazer? a quem se destina a atividade? quais as peculiaridades e singularidades presentes? como fazer? quando fazer?

Toda esta sequência busca trazer para o cenário de qualquer atividade algo substancial, algo que incentive e promova no participante mais do que seu envolvimento, mas também o deslocamento do seu estado receptivo passivo para a condição de se tornar agente e responsável por suas escolhas, decisões e atitudes perante a atividade como igualmente na trajetória da sua vida.

 

"O Self desenvolve-se mediante os esforços existenciais que lhe facultam o despertar dos tesouros adormecidos, produzindo a imaginação, a ambição de crescimento, o desejo de conquistas novas. São, portanto, muito saudáveis, alguns estados de mal-estar, de queixa, de tristeza, desde que se não transformem em tormento, em hábito doentio de reclamação inoperante, mediante a qual a pessoa justifica a própria indolência. Quem se basta com o habitual permanece em hibernação de consciência, aguardando que fenômenos-dor o sacudam, provocando-lhe a busca da renovação e a disposição para mudanças psicológicas, para novas aspirações que lhe constituirão objetivos a trabalhar. O Si mesmo é a fonte da vida do corpo em todas as suas expressões: psíquicas, emocionais e físicas. Nele residem os dínamos geradores de todos os recursos para a existência humana, e, quando liberto das injunções do processo material na Terra, ei-lo que, ideal e numinoso, avança na direção da plenitude. Todos os esforços devem ser aplicados pelo ser consciente na autoconquista, na superação das forças atávicas do ontem e na atração dos iluminados patrimônios da superconsciência" (Ângelis, 2009, p. 180).

 

Sentindo-se respeitada e valorizada em suas fragilidades e potencialidades, a pessoa tem afirmada sua identidade como Espírito em evolução, capaz de aprendizagens e ensino de aptidões diferentes importantes para seu progresso intelectual e moral e o dos outros sociais. Cada etapa da atividade apresenta-se para ela como um vislumbre do encadeamento de existências, extraindo de cada uma conhecimentos e orientações que amadurecem e revigoram para o prosseguimento rumo à felicidade.

 

"Procurando a sociedade, não fará o homem mais do que obedecer a um sentimento pessoal, ou há nesse sentimento algum providencial objetivo de ordem mais geral?

"O homem tem que progredir. Insulado, não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades. Falta-lhe o contato com os outros homens. No insulamento, ele se embrutece e estiola." Homem nenhum possui faculdades completas. Mediante a união social é que elas umas às outras se completam, para lhe assegurarem o bem-estar e o progresso. Por isso é que, precisando uns dos outros, os homens foram feitos para viver em sociedade e não insulados" (Kardec, 2013).

 

A (co)participação reflete o entendimento de que uma atividade desenvolvida de modo colaborativo, construída em conjunto talvez não em sua proposição e sim em sua dinâmica, desencadeia benefícios pessoais e no grupo de trabalho, constituídas na vertente psicológica e intelectual, agindo na própria saúde mental. O sentimento de pertença, de proximidade, de compartilhamento e protagonismo se amplia, provavelmente, para o seu eu e em direção ao seu cotidiano no qual circulam pessoas, acontecimentos, a natureza.

Tal entrelaçamento promove a confiança na existência de uma rede vinculada aos propósitos divinos de fraternidade e solidariedade traduzidas na proposta de trabalho como ação útil configurada desde o autoconhecimento ao partilhamento com sua família universal em que poderá encontrar apoio, estímulo, sustentação.

 

"Irmãos, irmãos neste mundo, irmãos na imortalidade. Trabalhai em comum para tornardes mais doces as condições da vida social, mais fáceis vossas tarefas de amanhã. Trabalhai para aumentar o saber, os tesouros da sabedoria, do poder, que são a herança da humanidade. A felicidade não está na luta, na vingança; está na união dos corações e das vontades!” (Denis, 2000, p.133).

 

A ação, traz o participante, intervalando ora como protagonista ora como coadjuvante, para um espetáculo de encaminhamentos e diversidade de trajetos que conduz à conquista da sua transformação, demonstrando haver muito mais do que as possibilidades previstas, surpreendendo a si, ao grupo e ao propositor da atividade.

Este deixar fluir, enriquece, fortalece e dignifica o ser, afirmando a autenticidade do fazer por vias tanto previsíveis quanto alternativas, mesmo que naquela circunstância tenha sido possível a realização parcial e não integral da atividade. O mais importante não está na plena resolução do que foi proposto, mas o empenho e as conquistas adquiridas e desenvolvidas no percurso.

Gradativamente, o ser torna-se mais e mais propenso em se aventurar para novas conquistas. a completude ou não de sua ação participativa se assemelha, então, aos objetivos evolutivos pela reencarnação, pois nem todas as virtudes serão adquiridas em uma única existência e nem todas as más inclinações provavelmente não serão totalmente (re)educadas apenas em um capítulo do livro vivencial de cada ser, por melhores sejam as oportunidades pedagógicas reencarnatórias porque uma série de variáveis individuais, sociais e culturais a que o Espírito fica exposto precisam ser consideradas.

Se esta exigência de aproveitamento completista apenas em uma encarnação não procede da misericórdia divina, ainda menos deve ser exigida por nós a execução na íntegra de uma atividade, seja na evangelização, nos estudos doutrinários ou em qualquer proposição da instituição espírita. Talvez, o conceito de perfeição que desejamos seja o nosso e não o do outro, que possivelmente esteja fazendo o seu melhor e o seu possível ao qual não estamos conseguindo interpretar pela inflexibilidade. O que nos cabe fazer como trabalhadores no movimento espírita e colaboradores na edificação da harmonia nas relações humanas é qualificar nossa ativa atitude inclusiva.

 

Referências

ÂNGELIS, Joanna de (Espírito). A conquista do si. In: ÂNGELIS, Joanna de (Espírito). Em busca da verdade. Psicografia de Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL, 2009.

DENIS, Léon. O problema do destino. São Paulo: Petit, 2000. (Coleção O problema do ser, do destino e da dor).

KARDEC, Allan. O Livro dos espíritos. 93. ed. Brasília (DF): FEB Editora, 2013. Parte Terceira. Cap. VII. Q. 768.

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