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Sucessão em tarefa espírita: ameaça ou oportunidade?

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  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

 

Vinícius Lima Lousada[1]

 

 

(...) não alimento a pretensão de ser indispensável; que Deus é extremamente sábio para não fazer que uma doutrina destinada a regenerar o mundo assente sobre a vida de um homem; que, além disso, sempre me avisaram que a minha tarefa é a de constituir a Doutrina e que para isso me será concedido o tempo necessário. A do meu sucessor será, portanto, muito mais fácil, porque já achará traçado o caminho, bastando que o siga.(...) - Allan Kardec[2]

 

Recentemente, fui instado pelos companheiros da Federação Espírita da Paraíba, a convite de seu atual presidente, a participar virtualmente da reunião de seu Conselho Federativo Estadual, tendo em vista partilhar reflexões sobre o tema da sucessão no centro espírita. Um tema instigante e afeto aos estudos sobre liderança espírita no contexto do centro espírita como unidade fundamental do Movimento Espírita.

O centro espírita é o elo principal desta rede de instituições e pessoas adeptas do pensamento espírita que agem de forma mais ou menos sinérgica e em rede colaborativa, tendo em vista o estudo, a prática e a difusão da Doutrina dos Espíritos. É a partir do centro espírita que se constroem ações fraternas inspiradas nos postulados do Espiritismo em prol do esclarecimento filosófico e consolo moral daqueles que o buscam.

Nesse sentido, o centro espírita consiste em um celeiro de experiências e aprendizagens que se irradiam por todo o movimento espírita. As vivências coletivas no centro espírita, suas práticas e produção de conhecimento reverberam em nosso ambiente doutrinário, de forma explícita ou implícita, de tal sorte que podemos afirmar que o movimento espírita é, culturalmente falando, reflexo dos centros espíritas que temos, inclusive em seus modelos de gestão, mais ou menos dialógicos, devendo atestar o que costumamos idealizar em termos de coerência ética e doutrinária.

Portanto, pensar no tema da sucessão no centro espírita e tornar a sua abordagem em nossas conversações como algo natural é muito importante para a sustentabilidade da instituição e de nosso movimento. A palavra sustentabilidade aqui deve ser compreendida como um princípio onde ações e utilização de recursos para a satisfação de necessidades do presente estejam sob o juízo de não comprometer o futuro do centro espírita no atendimento de suas finalidades. Aliás, sucessão é um tema pertinente à dimensão sociopolítica e cultural da sustentabilidade do centro espírita que, por sua vez, incide sobre as demais dimensões desta (ética ou moral, ambiental, econômica e espiritual[3]), como por elas é também afetada, podendo colaborar com o equilíbrio organizacional da agremiação espírita orientada, sobretudo, sob as lições do Evangelho de Jesus e pelos fundamentos éticos do Espiritismo, tal como recolhemos das obras de Kardec.

Quando os associados de um centro espírita amadurecem esse processo, com a conduta ética adequada, o movimento espírita como um todo pode viver processos sucessórios na administração de suas instituições ou na gestão de grupos de trabalho de forma mais harmônica, sem os atrapalhos dos melindres, personalismos ou manifestações inferiores de apego, de forma que as atividades desenvolvidas não sejam afetadas negativamente pelas paixões humanas. Logo, partimos do pressuposto de que a sucessão no centro espírita é uma oportunidade de desenvolvimento de novas lideranças e de exercício de generosidade dos que estão à frente na direção de nosso núcleo de trabalho, sempre em regime de voluntariado.

A naturalização dos processos sucessórios na tarefa espírita, ao que nos parece, constitui um dever da liderança, por meio da prospecção de companheiros com potencial para assumir funções de gestão, colaborando com seu desenvolvimento e, quando for o caso, apoiando sua efetivação junto à equipe de trabalho. Tal movimento deve ocorrer com humildade, cooperação e bom senso, favorecendo a legitimação de uma liderança em formação, chamada a assumir responsabilidades que antes lhe eram confiadas. Isso seria, ao nosso ver, atender a máxima: “Servir e Passar - eis o lema.”[4]

Em Obras Póstumas, há um texto intitulado “Meu sucessor”, mostrando que Allan Kardec não fugia ao tema. Ali, ele reconhece que não era indispensável, demonstrando genuína humildade, própria de uma liderança servidora. Kardec entendia que a sua missão e a de seu sucessor eram diferentes, pois ele havia organizado as bases da Doutrina Espírita e, ao seu sucessor caberia dar prosseguimento ao trabalho empreendido até ali, seguindo o caminho já aberto. Nesta reflexão, os Espíritos confirmam a Kardec que ninguém é indispensável aos olhos de Deus e, mais, se o mestre falhasse, outros seriam chamados ao labor a respeito do qual estava comprometido. O Espiritismo não repousaria sobre os ombros de um único homem e seu sucessor, com outros talentos, atenderia as responsabilidades que lhe coubessem.

Kardec indagou ainda aos Espíritos sobre como reconhecer esse sucessor, ao que os Benfeitores esclareceram que tal identificação se daria pelo devotamento e pelo desinteresse pessoal que ele viesse a demonstrar. Nesse sentido, na devida proporção, parece-nos fundamental aprendermos a valorizar aqueles que servem sem buscar ganhos pessoais, sem anseios de autopromoção ou interesses paralelos. Compartilhamos da compreensão de que a liderança espírita necessita enxergar para além do plano imediato, reconhecendo o potencial dos companheiros, comprometendo-se com o desenvolvimento de seus talentos e oferecendo apoio nas tarefas e nos desafios, de modo a fortalecer aqueles que chegam aos serviços do centro espírita para colaborar conosco no cumprimento dos nobres deveres espirituais assumidos.

Por fim, tenhamos em mente que a Espiritualidade não deixa de nos prevenir no sentido de superação do personalismo na tarefa espírita. Emmanuel, no livro Estude e Viva[5], compara o espírita a uma engrenagem inteligente dentro de uma grande máquina. Não somos o motor, não somos o centro do maquinário. Somos uma parte de complexa engrenagem que precisa funcionar em sintonia com o conjunto, sem personalismos, sem desejo de imposição, com espírito de serviço desinteressado.


Referências:

[1] Vice-Presidente Doutrinário da Fergs.

[2]  KARDEC, Allan. Obras póstumas (p. 330). Edição do Kindle. Meu sucessor.

[3] Vide o Plano de Trabalho do Movimento Espírita Brasileiro (2023-2027), aprovado no Conselho Federativo Nacional (CFN/FEB). Acessível em: https://c54a8a79-ac39-4cb6-bbee-04b1c0255428.filesusr.com/ugd/031287_0b019cb89f6441f8bf195309c03d1995.pdf 

[4] PERALVA, Martins. Os mensageiros do bem. Brasília: FEB/UEM: Brasília, 2025, p. 149.

[5] XAVIER, Francisco Cândido. Estude e viva. Ditado por André Luiz e Emmanuel. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2016, cap. 36.

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