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O trabalhador espírita entre dois mundos

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  • há 10 horas
  • 4 min de leitura

Vinícius Lima Lousada[1]

 

 

Assim, pela comunhão de pensamentos os homens se assistem entre si e, ao mesmo tempo, assistem os Espíritos e são por estes assistidos. As relações entre os mundos visível e invisível não são mais individuais, mas coletivas e, por isto mesmo, mais poderosas em proveito das massas e dos indivíduos. Numa palavra, estabelecem a solidariedade, que é a base da fraternidade. Cada qual trabalha para todos, e não apenas para si; e trabalhando para todos, cada um aí encontra a sua parte. É o que o egoísmo não compreende. - Allan Kardec[2]

  

A Ciência Espírita, com o seu objeto de estudo bem definido por Kardec — a relação do mundo invisível com o visível[3] —, descortinou-nos a realidade do mundo dos Espíritos e sua interconexão permanente entre os Espíritos domiciliados na carne e aqueles que já navegaram para a vida espiritual, mediante o mecanismo natural da desencarnação.

A mediunidade, faculdade orgânica comum à nossa espécie, manifesta em diversas gradações nos indivíduos em razão das necessidades evolutivas de seus portadores, pôde apresentar-nos, sob as diretrizes do método kardequiano, provas incontestes não somente da imortalidade da alma como, também, da constante interação entre os dois pólos da vida.

Enquanto Espíritos imortais, somos um ser no mundo e para além do mundo físico. Estabelecemos relações comunicativas no círculo restrito da vida que se arrasta no planeta e extrapolamos a faixa de nossa materialidade em interconexões mais ou menos intensas e conscientes com o mundo dos Espíritos, nada obstante, vivamos muitas vezes distraídos da realidade espiritual por conta de demandas outras da vida material. Portanto, com o saber espírita temos consciência de que somos viajores entre dois mundos e, dessa forma, identificamos a nossa condição interexistencial, como postulava o filósofo Herculano Pires[4] em sua perspectiva de ontologia[5] espírita.

Neste contexto de reconhecimento de nossa interexistencialidade é que devemos refletir sobre a nossa condição de trabalhador espírita, servidor voluntário de uma equipe de trabalho no centro espírita. Para tanto, recordemos a anotação de André Luiz: “(...) Cada Espírito vive entre as forças com as quais se combina, transmitindo-as segundo as concepções que lhe caracterizam o modo de ser.”[6] A nossa jornada interexistencial é permanentemente compartilhada com quem temos sintonia.

Dito isso, quem é o trabalhador espírita? Quem somos nós? Podemos considerar que o trabalhador espírita é um Espírito imperfeito e perfectível, ou seja, sujeito à Lei do Progresso, consoante nos ensina O Livro dos Espíritos. É, igualmente, um adepto da Doutrina Espírita, quer dizer, consiste em alguém que adotou com liberdade de consciência os princípios do Espiritismo e suas implicações morais, como caminho pessoal de cultivo de sua espiritualidade.

Dedicado ao estudo do Espiritismo, ele se torna aprendiz de Jesus e de Kardec. Entende que a moral do Espiritismo é a moral do Evangelho e se esforça por aprendê-la e aplicá-la a si mesmo, igualmente atento ao conteúdo filosófico e científico da Doutrina dos Espíritos. Parece-me que lhe cabe fazer o que recomendou, um dia, Yvonne do Amaral Pereira a um jovem missivista: “Procure antes dedicar-se ao estudo fiel da Revelação Espírita, do Evangelho, de todos os compêndios, mesmo profanos, dignos de serem acatados, pois o mundo, e não somente o Espiritismo, necessita de personalidades cultas, mas bem orientadas, capazes de criarem o reino de Deus em si mesmas a fim de estabelecê-lo no mundo, e não de imitadores de opiniões alheias negativistas e destrutivas. Que os estude também na vida prática e sentirá a alma edificada, (...)”[7].

E, dessa forma, o trabalhador espírita deve ter por bússola moral a caridade em sua ampla acepção, de acordo com Jesus, como um dia reproduziu Kardec em O Livro dos Espíritos: benevolência, indulgência e perdão[8]. A caridade precisa ser uma meta a ser atendida nas expressões de seu pensamento, fala ou ação, em todos os contextos em que se move enquanto ser interexistencial.

Deverá ser o trabalhador espírita um devotado praticante da técnica de autoconhecimento lecionada por Santo Agostinho na obra magna do Espiritismo, pois guarda a certeza de que o conhecimento de si mesmo é a chave do progresso espiritual do ser, proveitosa à sua autotransformação gradativa.

Aquele que se identifica como trabalhador espírita, constituiu-se como tal no dia em que se vinculou como colaborador voluntário em um centro espírita, passando a se dedicar a alguma tarefa consoante as suas possibilidades e orientado pelas necessidades da instituição. Neste sentido, deve guardar o desejo de servir, repudiando o personalismo e o profissionalismo religioso, tão em voga no contexto de nossa sociedade contemporânea. Como consigna Kardec, “a sublimidade da virtude consiste no sacrifício do interesse pessoal pelo bem do próximo, sem segundas intenções. A mais meritória é a que se baseia na mais desinteressada caridade.”[9]

Consciente de sua interexistencialidade, o trabalhador espírita, enfim, é aquele que partilha saudavelmente o seu tempo, entre deveres pessoais, profissionais, cívicos, espirituais, familiares e doutrinários (Peralva, 2025)[10] e, mobilizado pela pura intenção, se inscreve na condição de cooperador da Espiritualidade Superior, que (como ocorre junto a outras venerandas instituições no mundo) orienta e cerca de cuidados o centro espírita enquanto posto avançado da Vida Maior.


Referências:

[1] Vice-Presidente Doutrinário da Fergs.

[2] KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: Ano décimo primeiro –

1868. Evandro Noleto Bezerra. Trad. (poesias traduzidas por Inaldo Lacerda Lima). – 3.ed. – 1.imp. – Brasília: FEB, 2019, p. 459.

[3] Vide a obra O que é o Espiritismo, de Allan Kardec, ao final de seu Preâmbulo.

[4] PIRES, J. Herculano. O Ser e a Serenidade: Ensaio de ontologia existencial (Locais do Kindle 337). Paideia. Edição do Kindle.

[5] Ontologia consiste no ramo da Filosofia que estuda a natureza do ser.

[6] XAVIER, Francisco Cândido. Nos domínios da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. 36. ed. 16. imp. Brasília: FEB, 2023, p. 107.

[7] PEREIRA, Yvonne do Amaral. À luz do consolador (Coleção Yvonne A. Pereira). FEB. Edição do Kindle, cap. “Panorama”.

[8] KARDEC, Allan. O livro dos espíritos (p. 505). FEB Publisher. Edição do Kindle, questão 886.

[9] KARDEC, Allan. O livro dos espíritos (p. 510). FEB Publisher. Edição do Kindle, questão 893.

[10] PERALVA, Martins. Mensageiros do bem: segundo a obra “Os mensageiros” de Francisco Cândido Xavier; André Luiz. Brasília: FEB; Belo Horizonte: UEM, 2025, p. 125-128.

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