O Julius cap. 7





- Doutor! Doutor! Paciente na sala! O enfermeiro entregou o prontuário e saiu rápido.

O médico Donato terminou o procedimento e rumou para o Centro Cirúrgico. A noite fora longa e tumultuada. O motim no presídio foi truculento e deixou vários mortos e feridos, movimentando a emergência mais do que o habitual. Enquanto fazia a assepsia, olhava o prontuário. O paciente estava com várias perfurações feitas com objeto perfuro-cortante, provavelmente atingindo órgãos vitais. Donato mordeu o lábio e respirou fundo. O nome que ali estava dizia-lhe quem era o homem do qual ele tinha a vida nas mãos.

A médica assistente entrou com as imagens dos exames e mostrou-lhe. A situação era desesperadora. Qualquer intervenção não teria a menor chance de êxito. O baço, o fígado e pulmões estavam atingidos. Na verdade, nem sabiam como o ferido ainda estava vivo e lúcido. O que restava a fazer era dar ao moribundo a dignidade para morrer, uma vez que para viver ele não tivera.

Donatto pediu para que a equipe saísse da sala. Queria ficar sozinho com o paciente. Precisava fazer isto. Os médicos e paramédicos não entenderam o pedido, mas dado o respeito e admiração que tinham por aquele homem, que devotadamente dividia as agruras de atender em um hospital público, mesmo sem precisar disto para sobreviver, assentiram sem perguntar nada.

O médico aproximou-se devagar, da cama onde jazia o traficante.

- Você é o italiano, pois não?

Com a voz roufenha, que já atestava a proximidade da morte o homem responde.

- Sou. Era. Vou morrer, não é?

- Deus é quem dá e quem tira a vida. Lamentavelmente, eu não tenho muito o que fazer por você, agora, mas queria te ouvir e saber se tens algo a dizer ou a pedir.

- Ah! Doutor! Eu sou um erro da vida! Sou um ser que não devia ter nascido, muito menos vivido. A vida nunca me deu nada. Só me tirou.

- Não diga isto. A vida é sempre um bem precioso.

- Digo, sim, para mim a vida foi um fardo miserável. Meu pai foi lutar na guerrilha do Araguaia, cansado das injustiças que via neste país imundo, Eu era pequeno e minha mãe, quando ele sumiu, estava grávida. Meu irmão já nasceu órfão. Juntos, eu, minha pobre mãe e meu irmão passamos fome, sofremos todos os tipos de humilhações que alguém pode experimentar. Nós não podíamos estudar, porque se descobrissem quem éramos já nos excluíam, não podíamos ficar muito tempo num mesmo lugar. Muito cedo fui levado ao crime, porque não suportei as injustiças a que éramos submetidos. O fato de termos um pai comunista como diziam, nos fez párias sociais, criaturas perseguidas, onde quer que fôssemos. Até que um dia fui parar em um reformatório e dali fugi. Fui cooptado muito cedo para o tráfico.

A fala foi interrompida pelo acesso de tosse que o fez soltar golfadas de sangue pela boca. Donatto o socorreu, percebendo que o doente tinha poucos minutos de vida.

- Acalme-se, não fale mais.

- Eu só quero que o senhor procure a minha mãe e peça a ela para cuidar do meu filho. Um filho é a única coisa boa que pode ficar dessa minha vida de crimes. Pensei que ele podia me redimir, sabe Doutor. Mas foi uma ilusão. Essa vida é assim mesmo. Minha mãe, minha mãe... eu vou lhe dizer o nome dela, por favor anote.

Donato fingiu anotar, enquanto o enfermo continuava:

- Durante esses anos no crime, fiz tudo o que pude para vingar-me dessa gente que nos humilhou. Vi muitos deles mendigando pela vida dos filhos, dos netos. Muitos patrimônios se esfacelando. Estou morrendo, mas a minha vingança eu consegui, Doutor. Gostaria de ter tido outra vida. Claro que sim. Mas isso foi o que me sobrou.

O italiano silenciou e Donato segurou a mão do irmão. Não fazia isto há mais de 20 anos, desde que o levaram para o Reformatório.

Acompanhou a escalada da sua vida criminosa e nunca comentou com a mãe, para não causar-lhe sofrimento. Era o que ele pensava. Quando Ivone trouxe Marcela, grávida, para casa, foi conversar com ele, porque achava que ele não sabia das atividades do irmão. Ambos se abraçaram e choraram juntos, ao descobrirem que sofreram calados, cada um no seu canto, por anos a fio, julgando protegerem um ao outro.

O médico aproximou-se mais do ferido que estava com os olhos muito machucados pelas agressões sofridas. Talvez ele não pudesse vê-lo, mas iria ouvi-lo.

- Pois você sabe, italiano, que eu também não conheci meu pai. Fiquei órfão antes de nascer. Minha mãe ficou grávida e quando eu nasci meu pai já estava desaparecido. Juntos vivemos dias de muita tristeza, dor, humilhações, fome e abandono. Cada dia eu acordava e surpreendia as lágrimas da minha mãe, lutando para manter as nossas vidas e prometia a mim mesmo que um dia eu daria àquela mulher valente e digna tudo o que a vida nos havia tirado. Cada sofrimento que nos faziam passar eu pedia a Deus forças para ser melhor do que aquelas pessoas. Trabalhava durante o dia, fazendo biscates e estudava a noite. Quando iniciei as aulas na Universidade, ficava horas sem comer, porque não tinha dinheiro para pagar o almoço no campus. Só conseguia comer à noite, quando voltava para casa. Minha mãe se consumia em cima de uma máquina de costuras, dia e noite, para que tivéssemos um teto, e eu pudesse estudar e para que pudéssemos fazer uma ou duas parcas refeições diárias. Mas o tempo passou, italiano, e eu venci, eu e minha mãe, vencemos! Apenas trazemos, os dois, uma grande dor, e uma derrota amarga - a de termos perdido o meu irmão. Queria muito que ele tivesse resistido conosco, mas ele escolheu outro caminho.

O italiano estava com os olhos inchados, inundados de lágrimas misturadas com sangue, o peito arfante, num último esforço de manter a oxigenação. A história daquele médico era a sua. Sabia que o irmão tinha se formado e era um médico conceituado, mas era muita coincidência. Seu irmão era um cirurgião famoso, tinha uma clínica famosa, pelo que a mãe lhe contara. Não. Ele não estaria ali, atendendo um detento, na madrugada, em uma emergência de um hospital público. Num impulso desesperado apertou a mão de Donato e ergueu o dorso ensanguentado.

- Eu sou teu irmão Luigi. Sou o Donato, teu irmão! Eu esperei tanto pelo dia em que te abraçaria de novo, mas nunca pensei que fosse assim.

- Donato, eu... eu... tinha saudade de ti, também, meu irmão.

Luigi não pode mais falar, uma onda de soluções que mais pareciam o grunhido de uma fera ferida inundaram o recinto.

Os dois homens ali abraçados eram duas almas que o planejamento reeencarnatório reuniu para se tornarem amparo um do outro, e que as escolhas infelizes provocaram o afastamento e adiaram planos concertados, adredemente, pelas equipes benfeitoras.

Donato sentiu que Luigi - o italiano – foi silenciando e diminuindo o ritmo arfante da respiração e o ruído abafado dos soluços. Sentiu-o inerte em seus braços. Com carinho, como se o fizesse com um filho querido, acomodou-o no leito de morte. Cerrou-lhe os olhos e cobriu o corpo do irmão. Balbuciou uma prece e se encaminhou até o posto de enfermagem para firmar o atestado de óbito do temido traficante, que até poucos dias infundia terror nos morros cariocas. Os profissionais que ali estavam pressentiam que algo estranho havia ocorrido ali, ao contemplarem os olhos vermelhos e umedecidos de Donatto e lhe responderam com um silêncio respeitoso.

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