Conscientização a favor do respeito aos animais
- fergs

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“Na casa da Natureza, O Pai espalhou com arte
As bênçãos de luz da vida, Que brilham em toda a parte.Essas bênçãos generosas, Tão ricas, tão naturais, São notas de amor divino na esfera dos animais.”
(Francisco Cândido Xavier, pelo espírito Casimiro Cunha, em Cartilha da Natureza¹)
A violência contra os animais tem ocupado, com frequência crescente, o noticiário brasileiro. Casos de maus-tratos, abandono e crueldade revelam não apenas uma crise de proteção legal, mas, sobretudo, uma crise moral. Diante desse cenário, torna-se urgente retomar valores fundamentais que reconheçam a vida como expressão da Criação Divina e compreendam todos os seres como participantes de uma mesma jornada evolutiva.
À luz da Doutrina Espírita, os animais não são simples máquinas instintivas. Allan Kardec esclarece, em O Livro dos Espíritos², que eles possuem princípio inteligente e liberdade de ação, ainda que em grau mais limitado do que o ser humano (Questão 595). Essa compreensão rompe com a ideia de superioridade absoluta da espécie humana e nos convida a uma ética ampliada, baseada no respeito à vida em todas as suas formas.
A Campanha Espírita Permanente de Conscientização Ecológica³ (CEPCE), aprovada pelo Conselho Federativo Nacional da Federação Espírita Brasileira (FEB) em 2022 e lançada em 2023, nasceu com o propósito de promover uma educação que transcenda interesses exclusivamente humanos, incorporando o direito de viver de todas as espécies e estimulando práticas sustentáveis, não antropocêntricas e não especistas, em favor do equilíbrio dos ecossistemas. Entre os objetivos da Campanha Ecológica estão o fortalecimento da ética animal, a promoção da cultura da paz e o incentivo a hábitos que reduzam impactos sobre a Natureza, incluindo o respeito aos animais como parte integrante desse processo.
Em consonância com essa proposta, o opúsculo Em defesa da Vida Animal – Violência, não!⁴, reúne ensinamentos de diversos benfeitores espirituais, convidando-nos a estender até eles, os animais, nossa concepção de solidariedade. O material enfatiza que a vivência plena da Lei de Justiça, Amor e Caridade só se concretiza quando inclui também o cuidado com os seres não humanos.
Esses ensinamentos ganham ainda mais relevância quando observamos a realidade contemporânea. A agressão aos animais não ocorre de forma isolada: ela está ligada a padrões de consumo, à exploração intensa da Natureza e à banalização da vida. A CEPCE destaca que a degradação ambiental, a perda da biodiversidade e os eventos climáticos extremos fazem parte do mesmo contexto de desequilíbrio, alimentado por escolhas individuais e coletivas. A violência contra os animais é também sintoma de um modelo de relação com o planeta baseado no domínio, e não no cuidado.
A vida nos oceanos sustenta o equilíbrio do planeta, regula o clima, produz grande parte do oxigênio que respiramos e abriga uma diversidade imensa de espécies, muitas ainda desconhecidas. No entanto, mares e costas sofrem hoje com poluição por plásticos, derramamentos de óleo, pesca predatória e aquecimento das águas, afetando corais, peixes, mamíferos marinhos e toda a cadeia da vida. Cuidar dos oceanos é reconhecer que cada onda carrega um elo invisível com nossa própria existência: ao proteger os mares, preservamos não apenas ecossistemas distantes, mas a harmonia da Terra e o futuro das próximas gerações.
O autor Carlos Villarraga, em seu livro Desenvolvimento sustentável: o papel dos espíritas na Agenda 2030⁵, no capítulo Proteger a Vida Marinha, relata que as pesquisas científicas sobre a vida, tal como a conhecemos neste planeta, mostram que ela teve sua origem nos oceanos.
A vida terrestre pulsa em cada floresta, campo, solo e cidade, sustentando incontáveis formas de existência que dependem umas das outras em delicado equilíbrio. O desmatamento, a urbanização desordenada, o uso excessivo de agrotóxicos e a degradação dos habitats ameaçam essa rede viva, afetando plantas, animais e também a própria humanidade. Cuidar da vida na Terra é reconhecer que cada árvore, cada inseto e cada nascente participam do mesmo sistema que nos mantém de pé: preservar o chão que pisamos é preservar o futuro que desejamos construir.
Villarraga, na mesma obra⁵, no capítulo Proteger a Vida Terrestre, nos lembra que o tráfico de animais e plantas silvestres é uma atividade criminal internacional multibilionária que coloca em risco todos os ecossistemas ao romper seu equilíbrio com a retirada das espécies de seus habitats naturais e levá-las a locais aos quais não pertencem.
Conscientizar é mais do que informar: é provocar transformação interior. Significa rever hábitos, apoiar iniciativas de proteção animal, denunciar maus-tratos, promover educação ambiental desde a infância e juventude e cultivar, no cotidiano, atitudes de respeito e responsabilidade moral.
Transformar é atuar como cidadãos e como seres encarnados neste planeta Terra, que chamamos de nossa casa planetária. Pensar em cada ação do nosso dia a dia.
No limiar de um mundo em profundas transformações, somos convidados a refletir sobre os inúmeros casos de violência praticados contra os animais, nossos irmãos em processo de evolução. Na obra Os Mensageiros6, de André Luiz, psicografada por Francisco Cândido Xavier, no capítulo 41, encontramos um exemplo: um irmão, dominado pela cólera, submetia a castigos e chicotadas o animal que o auxiliava no sustento da própria família. Ferido e atormentado pela violência, o muar acabou reagindo e atacou o condutor com a pata. Diante da situação, o orientador espiritual esclarece que ninguém edifica algo de “útil com a fúria e a brutalidade”, lembrando-nos, como ensina André Luiz, que “ninguém desrespeita a Natureza sem o doloroso choque de retorno”.
Na obra O Evangelho segundo o Espiritismo7, Allan Kardec apresenta, no Capítulo VIII, item 11, uma reflexão ética e moral acerca dos escândalos, ao citar um trecho do Evangelho de Mateus: “Se algum escandalizar a um destes pequenos que creem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós que um asno faz girar e que o lançassem no fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos; pois é necessário que venham escândalos; mas ai do homem por quem o escândalo venha. Tende muito cuidado em não desprezar um destes pequenos. Declaro-vos que seus anjos no céu veem incessantemente a face de meu Pai que está nos céus, porquanto o Filho do Homem veio salvar o que estava perdido. Se a vossa mão ou o vosso pé vos é objeto de escândalo, cortai-os e lançai-os longe de vós; melhor será para vós que entreis na vida tendo um só pé ou uma só mão, do que terdes dois e serdes lançados no fogo eterno. Se o vosso olho vos é objeto de escândalo, arrancai-o e lançai-o longe de vós; melhor para vós será que entreis na vida tendo um só olho, do que terdes dois e serdes precipitados no fogo do inferno.” (Mateus,5:29 e 30; 18:6 a 11.)
À luz deste ensinamento, verificamos a importância de refletir sobre escândalos que ainda acontecem em nossa sociedade. Qual é nossa postura coletiva em relação aos maus-tratos aos animais? A todos os animais? Essa reflexão envolve o reconhecimento da responsabilidade ética individual e coletiva, levando ao questionamento das próprias atitudes em relação aos animais e das ações efetivas diante de situações de sofrimento ou abandono.
No item 13 do mesmo capítulo, Kardec retoma as palavras de Jesus ao esclarecer que: “É preciso que haja escândalo no mundo, disse Jesus, porque, imperfeitos como são na Terra, os homens se mostram propensos a praticar o mal, e porque, árvores más, só maus frutos dão. Deve-se, pois, entender por essas palavras que o mal é uma consequência da imperfeição dos homens, e não que haja, para estes, a obrigação de praticá-lo” (KARDEC, 1864). Essa reflexão evidencia que o mal não constitui uma necessidade moral, mas resulta das limitações éticas e espirituais próprias da condição humana. Destaca-se aqui a importância de entendermos os eventos não como o fato em si, onde o animal seria um instrumento de aprendizado nosso, humano. Cada espécie tem sua própria história de vida, e elas não objetivam nos servir.
Nesse sentido, mesmo quando o indivíduo não é o agente direto do escândalo, a análise crítica e reflexiva sobre tais acontecimentos integra o processo de evolução moral. Esse processo articula-se à evolução intelectual à medida que o avanço dos conhecimentos científicos e éticos sobre os animais amplia a compreensão de sua sensibilidade e inteligência, reforçando a responsabilidade humana na promoção do respeito, do cuidado e da proteção da vida de todas as espécies.
O chamado que se apresenta é claro: combater a violência animal é parte inseparável do compromisso com a vida, com a justiça e com a paz. Cada gesto de cuidado, seja no acolhimento de um animal abandonado, na escolha consciente do consumo ou na educação para o respeito à Natureza, representa um passo no aprimoramento moral da sociedade.
Que possamos, inspirados pelo Cristo e pelos ensinamentos da Doutrina Espírita, ampliar o conceito de “amar ao próximo” para todos os seres que compartilham conosco a experiência na Terra. Proteger os animais é, em essência, proteger a nós mesmos, pois tudo na Criação se encadeia e tende à unidade.
Equipe Saber Ambiental Fergs
Referências
1. XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Casimiro Cunha. Cartilha da Natureza. Os animais. Ed. 7ª ed. Brasília. FEB Editora, 2022.
2. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. Ed. 93ª ed. Brasília. FEB Editora, 2013.
3. FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Conselho Federativo Nacional. Campanha Espírita Permanente de Conscientização Ecológica (CEPCE). Brasília. FEB, 2023. Disponível em:<https://conscientizacaoecologica.febnet.org.br/wp-content/uploads/2025/03/Documento-Oficial-da-Campanha-Novembro-de-2022_compressed.pdf>
4. FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA. Em defesa da Vida Animal – Violência, não!. Brasília. FEB, 2021. Disponível em: <https://www.febnet.org.br/portal/wp-content/uploads/2021/05/WEB-Em-Defesa-da-Vida-Animal-13-05-21.pdf>
5. VILLARRAGA, Carlos. Desenvolvimento sustentável: o papel dos espíritas na Agenda 2030. Capítulos 14 e 15. Brasília. FEB Editora, 2023.
6. XAVIER, Francisco Cândido. Pelo espírito ANDRÉ LUIZ. Os Mensageiros. Capítulo 41. Ed. 47ª ed. Brasília. FEB Editora, 2019.
7. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília. FEB Editora, 2019.












































