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Allan Kardec e seus inimigos

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    fergs
  • 24 de abr.
  • 6 min de leitura


Vinícius Lima Lousada[1]

 

No estado atual das coisas aqui na Terra, qual é o homem que não tem inimigos? Para não os ter fora preciso não habitar aqui, pois esta é uma consequência da inferioridade relativa de nosso globo e de sua destinação como mundo de expiação. Bastaria, para não nos enquadrarmos na situação, praticar o bem? Não! O Cristo aí está para prová-lo. Se, pois, o Cristo, a bondade por excelência, serviu de alvo a tudo quanto a maldade pôde imaginar, como nos espantarmos com o fato de o mesmo suceder àqueles que valem cem vezes menos?. - Allan Kardec[2]

  

Allan Kardec, conforme o registro constante na coleção da Revista Espírita, fez viagens em prol do movimento espírita nascente nos anos 1860, 1861, 1862, 1864 e 1867 — ao que tudo indica, no período de férias da Sociedade Espírita de Paris —, para atender às sociedades espíritas que o convidaram a dialogar em torno de questões doutrinárias e da gestão de grupos e sociedades espíritas.

O texto que ora apresentamos está embasado no discurso de Kardec aos espíritas lioneses e bordaleses. Para tanto, fizemos um pequeno recorte focando no tópico em que o mestre procura compartilhar com os companheiros o fato singular de ter inimigos no seio do próprio movimento espírita, após ter mencionado, evidentemente, os inimigos naturais do Espiritismo — ou seja, aqueles que combatiam abertamente a Doutrina em razão dos saberes que ela apresentava e das consequências morais que afetavam crenças por eles defendidas, bem como interesses os mais variados.

Minha hipótese é que Kardec abordou esse tema, um tanto delicado, para alertar os dirigentes espíritas de sua época quanto às artimanhas que poderiam enfrentar em seus grupos e sociedades, tendo como ponto de partida a sua própria experiência e, também, pela oportunidade de demonstrar o caminho adequado para lidar com esses desafios, por meio de sua didática inquestionável.

A partir de agora, para a nossa instrução, elencamos a classificação de Kardec a respeito dos inimigos. O primeiro grupo de pessoas que se inimizaram com Kardec e com sua proposta de prática mediúnica beneficente foi o daqueles que queriam fazer do Espiritismo e de sua fenomenologia objeto de lucro material. Recordemos que a mediunidade exercida mediante pagamentos era algo comum entre os chamados “médiuns profissionais” antes do advento do Espiritismo, e Kardec coloca essa prática em xeque, especialmente com o lançamento de O Livro dos Médiuns, que propugna o exercício desinteressado e caritativo da mesma.

Na sequência, encontramos os especuladores morais, que usavam a mediunidade para atender aos seus anseios pessoais de doentia autopromoção. Essas pessoas tinham por propósito construir um "pedestal honorífico" para satisfazer os ditames de seu orgulho e, melindrosas, incomodavam-se diante da demanda por humildade nas tarefas em curso. E, como o Espiritismo não transforma as pessoas de imediato — sendo necessário aderir conscientemente à sua moral —, temos ainda aqueles outros que se entregavam às próprias paixões, cultivando a inveja diante do êxito das obras kardequianas ou das simpatias a ele endereçadas.

Outro grupo que teria se inimizado com Allan Kardec seria o dos médiuns fascinados ou obsidiados, vaidosamente convictos de sua própria infalibilidade ou irritáveis, prontos a se afastar — sob influência espiritual obsessiva — diante de qualquer crítica às comunicações recebidas. Lembremos que Kardec estimulava o exame das comunicações mediúnicas, independentemente do médium ou do Espírito comunicante.

Há ainda, no registro de Kardec, os excessivamente suscetíveis — os melindrosos —, que se ofendem por coisas sem significância, como o seu lugar nas reuniões ou o papel desempenhado por eles. Igualmente, segundo Allan Kardec, havia os críticos do ritmo: ora viam em sua obra uma suposta prematuridade na proposição de princípios, ora o acusavam de alguma lentidão. Provavelmente, estes últimos estavam mais movidos pelo orgulho e pela vaidade, imaginando que a produção do conhecimento espírita a partir da revelação espiritual deve se dobrar às suas perspectivas.

E, como não poderia deixar de acontecer, surgiram também no caminho de Kardec os caluniadores e os bajuladores frustrados. Sobre a calúnia, já afirmou o mestre oportunamente:

Sem dúvida, a calúnia é uma arma perigosa e pérfida, mas tem dois gumes e fere sempre a quem dela se serve. Recorrer à mentira para se defender é a prova mais forte de que não se têm boas razões para dar, porquanto, se as tivessem, não deixariam de as fazer valer. Dizei que uma coisa é má, se tal for a vossa opinião; gritai-o de cima dos telhados, se for do vosso agrado: ao público cabe julgar se estais certos ou errados. Mas deturpá-la para apoiar o vosso sentimento, desnaturá-la é indigno de todo homem que se respeita. Na crítica das obras dramáticas e literárias, muitas vezes se veem apreciações opostas. Um crítico elogia sem reservas o que outro expõe ao ridículo; é direito seu. Mas o que pensar daquele que, para sustentar a sua censura, fizesse o autor dizer o que não diz e lhe atribuísse maus versos para provar que sua poesia é detestável?[3]


Kardec ainda identificou pessoas que se valiam da bajulação para, com suas lisonjas, induzir a sua atuação em favor de interesses pessoais, vindo a inimizar-se com o mestre por terem falhado em seus propósitos subalternos — provavelmente em razão da higidez moral do Codificador, que tinha consciência de que a nobreza da obra demandava a atitude íntegra que cultivou durante toda a sua existência. Vejamos, meus amigos, quanta resistência ele teve de enfrentar para nos legar o Espiritismo, e observemos, agora, a postura que adotou e partilhou com os companheiros de Lyon e Bordeaux, visando à instrução especialmente dos dirigentes de grupos e sociedades espíritas, a fim de que lidassem com maestria com o "fogo amigo" que também poderiam encontrar em seus nobres labores.

Para ataques infamantes e críticas pouco espirituosas, ele recomendou a resposta do desprezo — não lhes dar valor — e do silêncio. Acreditava que responder pessoalmente seria conferir importância a quem não a merece, e que o silêncio muitas vezes faz com que o adversário se desacredite pelos próprios exageros. Percebe-se que Kardec preferia deixar que os fatos falassem por si, como o sucesso de suas obras e o crescimento do número de adeptos. Considerava que o tempo gasto com as mesquinharias de opositores seria um "roubo" contra a grande obra a realizar. Portanto, a regra de conduta, nesses casos, seria jamais responder injúria com injúria; pelo contrário, o ideal seria manter a moderação e a calma diante de provocações.  

Na alocução que faz, Kardec ainda refuta a crítica que recebera por não buscar aqueles que desertaram das fileiras do Espiritismo, dando-nos a entender que se deveria priorizar as pessoas de boa vontade, que se dispõem sinceramente ao aprendizado que a Doutrina Espírita oferece. Isso faz muito sentido, considerando o tempo escasso do mestre em razão da tarefa hercúlea sob suas mãos e a necessidade de atender e esclarecer aqueles que sinceramente buscavam as luzes do Espiritismo — fosse quanto aos seus princípios filosóficos e consequências morais, fosse nas dúvidas práticas sobre a Ciência Espírita.

Já diante de críticos sérios ao Espiritismo, a postura adotada por Kardec foi respondê-los de forma indireta, por meio de artigos escritos, orientados pela lógica dos ensinamentos espíritas, para contrapor seus argumentos, sem jamais adentrar em polêmicas de caráter pessoal. No caso de médiuns fascinados ou dissidências, ele sugere a observação rigorosa da caridade, informando:

“(...) me coloco, sem hesitar, do lado daquele que tiver mais caridade, isto é, mais abnegação e verdadeira humildade, pois aquele a quem falta a caridade está sempre errado, assistido embora por qualquer espécie de razão, pois Deus maldiz quem diz a seu irmão: raca.[4]


Diante do exposto até aqui, conclui-se que a trajetória de Allan Kardec não foi isenta de dissabores, e que o enfrentamento do "fogo amigo" constituiu, talvez, um dos aspectos mais exigentes de sua missão. Mais do que expor as fragilidades humanas que se manifestaram ao seu redor, o mestre nos legou, por meio de sua própria conduta, um modelo de liderança espírita fundado na calma, na moderação e no bom senso, sempre atento ao propósito maior que o animava. Assim, a lição central que emerge dos registros de Kardec é que a resposta aos que se fazem adversários não reside no confronto, mas na perseverança silenciosa e fecunda. O tempo, a coerência e os frutos da obra bem realizada são, em última instância, os árbitros mais eloquentes diante de qualquer oposição.


Referências:

[1] Vice-Presidente Doutrinário da Fergs.

[2] KARDEC, Allan. Viagem Espírita em 1862 (Traduzido) (pp. 29-30). Casa Editora O Clarim. Edição do Kindle.

[3] KARDEC, Allan. A luta entre o passado e o futuro. In: Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos: Ano sexto – 1863/publicada sob a direção de Allan Kardec; [tradução de Evandro Noleto Bezerra; (poesias traduzidas por Inaldo Lacerda Lima)]. – 4.ed. – 1.imp. – Brasília: FEB, 2019, p. 102.

[4] KARDEC, Allan. Viagem Espírita em 1862 (Traduzido) (p. 61). Casa Editora O Clarim. Edição do Kindle.

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