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Revisitando o Código do Monte

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  • há 3 horas
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O ano de 2013 foi particularmente fecundo na produção de reflexões e conteúdos, impulsionado por inspirações que surgiam, muitas vezes, de modo inesperado, no convívio fraterno com a Federação Espírita do Rio Grande do Sul — Fergs. Naquele período, tive a alegria de colaborar com o jornal Diálogo Espírita, em uma coluna que a Federação, sempre merecedora da atenção constante e amorosa de Francisco Spinelli, generosamente me destinou, abrindo espaço para que eu escrevesse sobre temas capazes de dialogar com as inquietações, esperanças e necessidades da comunidade espírita.

Foi nesse ambiente de trabalho, estudo e inspiração que nasceu O Código do Monte.

Passada mais de uma década desde o lançamento de sua primeira edição, retorno agora a esse mesmo espaço afetivo, para me debruçar novamente sobre o conteúdo daquela obra. Mas o retorno nunca é simples repetição. Quem revisita um caminho já percorrido não encontra exatamente a mesma paisagem. A montanha permanece, mas o olhar mudou; e, com ele, modificam-se também os relevos e os horizontes.

A surpresa, ao reler O Código do Monte, é perceber que a paisagem da montanha está diferente. Não porque o Sermão da Montanha tenha mudado, mas porque nós mudamos diante dele. O tempo ampliou a visão, a experiência adensou a compreensão, e novas dores humanas passaram a pedir novas leituras. Aquilo que antes se apresentava como reflexão inicial, hoje se abre como campo mais vasto de investigação espiritual, psicológica e existencial.

Assim, volto ao Monte.

Volto não para corrigir simplesmente o que foi escrito, mas para escutar de novo. Volto para reconhecer o que permanece vivo, o que pede alargamento de visão e o que, talvez, só agora se deixe compreender com maior clareza. Mais de dez anos depois, novos horizontes se desvelam. A caminhada continua, e a montanha, silenciosa e luminosa, ainda nos convida a subir.

Revisitar uma obra é aceitar que o tempo também escreve sobre ela. Um livro, quando nasce, pertence ao seu autor; mas, depois que encontra os leitores, passa a pertencer também às experiências que desperta.

A Introdução do livro nascia de uma reverência: escrever sobre Jesus parecia um atrevimento, e continua sendo. Toda tentativa de interpretar Jesus carrega o risco de reduzir o infinito à moldura estreita de nossas compreensões. Mas há um outro risco, talvez maior: o de silenciar diante da grandeza, como se a humildade impedisse a reflexão. Não impede. A verdadeira humildade não paralisa; ela orienta o olhar. Também não pretende possuir a verdade, mas aproximar-se dela com respeito.

O Sermão da Montanha permanece como uma das mais altas formulações morais da humanidade. Mas sua grandeza não está apenas na beleza literária ou na força religiosa de suas frases, está no fato de que ele oferece uma nova arquitetura da alma. Jesus não propõe somente comportamentos exteriores; propõe uma transformação do modo de sentir e amar.


A primeira bem-aventurança

“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.”

A primeira porta dessa arquitetura é a humildade.

A expressão pode soar estranha aos ouvidos modernos. Numa cultura que valoriza desempenho e brilho, ser “pobre em espírito” parece quase uma desvantagem. No entanto, Jesus inverte a lógica comum: não começa pelos fortes e vencedores. Começa pelos que sabem que precisam crescer.

A humildade, nesse sentido, não é submissão passiva. Humildade é consciência de realidade, saber-se criatura em processo e reconhecer a própria incompletude sem desespero ou vaidade.

Talvez por isso ela seja a primeira virtude. Nada começa sem humildade, nem a fé, nem a reforma íntima, nem o amor verdadeiro. O orgulhoso não aprende porque já se imagina sabendo, não pede perdão porque confunde desculpa com humilhação. Não escuta porque sua própria voz ocupa todo o espaço interior.

A humildade é o chão da alma, e ninguém escala uma montanha começando pelo cume.

Nos dias atuais, essa reflexão torna-se ainda mais necessária. Vivemos uma cultura do “eu” amplificado. O sujeito contemporâneo é permanentemente convidado a mostrar-se, destacar-se, parecer feliz, inteligente e superior. Mesmo a espiritualidade pode converter-se em vitrine do ego. Fala-se de amor com agressividade e de caridade com autopromoção.

As redes sociais são, talvez, a grande vitrine contemporânea do ego. Nelas, o sujeito não apenas se comunica: ele se exibe e se edita e, muitas vezes, se vende como personagem de si mesmo. A vida, antes vivida no recolhimento natural das experiências íntimas, passou a ser organizada como espetáculo. A alegria precisa ser fotografada, a viagem precisa ser publicada, a opinião precisa ser afirmada, a dor precisa encontrar plateia, e até a espiritualidade corre o risco de transformar-se em linguagem de autopromoção.

O ego, que sempre buscou reconhecimento, encontrou nas redes sociais um palco permanente. Ali, a vaidade não precisa mais esperar grandes ocasiões para aparecer. Ela se manifesta diariamente, em pequenos gestos: na necessidade de ser visto, comentado, admirado e validado. O “curtir” tornou-se uma espécie de alimento psíquico. O silêncio do outro, por sua vez, pode ser sentido como rejeição. Assim, muitos passam a medir o próprio valor pela resposta externa que recebem.

A vaidade antiga dizia: “olhem para mim”. A vaidade moderna, mais sofisticada, diz: “vejam como sou feliz, produtivo e bem-resolvido”. E quando a virtude precisa ser exibida para ser reconhecida, ela perde a parte mais importante de seu valor.

Por isso, a primeira bem-aventurança, “bem-aventurados os pobres em espírito”, torna-se profundamente atual. Jesus começa pelo contrário da vitrine. Começa pelo esvaziamento. Ser pobre em espírito, hoje, talvez signifique também libertar-se da obrigação de parecer sempre forte e admirável.

A humildade, nesse contexto, é quase revolucionária. Ela nos permite existir sem espetáculo e trabalhar sem necessidade de aplauso, pelo simples prazer do labor.

Isso não significa condenar as redes sociais em si mesmas. Elas podem informar e divulgar o bem. O problema não está na ferramenta, mas no uso que o ego faz dela. A mesma rede que pode espalhar luz também pode alimentar ilusões e vaidades.

A vitrine do ego não está apenas no celular, está dentro de nós. As redes aceleram aquilo que ainda carregamos na intimidade. O problema não é somente a exposição externa, mas a necessidade interna de ser visto como maior do que se é.

E é exatamente por isso que a humildade continua sendo o primeiro degrau do Monte. Antes de subir, é preciso descer. Descer da imagem idealizada de nós mesmos. Descer da necessidade de aplauso. Descer da fantasia de superioridade. Descer ao chão fértil do húmus interior, onde a alma, finalmente sincera, pode reconhecer:

No primeiro capítulo de O Código do Monte, a humildade aparece ligada ao húmus, à terra. O humilde é aquele que está enraizado, que sabe de onde veio, sabe que ainda tropeça, pois tem fragilidades, mas também possibilidades. Ao não negar a própria humanidade, começa por ela.

A reforma íntima não se inicia quando nos imaginamos angelicais, mas quando temos coragem de reconhecer o que ainda há de primitivo em nós. O orgulho espiritual é uma das formas mais sutis de atraso, porque se disfarça de elevação. A pessoa fala de Deus, mas não suporta ser contrariada. Defende a verdade, mas não tolera crítica.

Talvez seja esse o primeiro convite do Monte: descer antes de subir. Descer das fantasias de grandeza, das defesas narcísicas e das certezas rígidas. Descer ao húmus de si mesmo é encontrar ali não apenas miséria moral, mas também semente. Porque a terra, embora baixa, é fecunda.

O pobre em espírito não é vazio de valor e sim, aberto ao valor. Não é aquele que nada possui, mas aquele que sabe que ainda tem muito a aprender e transformar.

E por isso o Reino dos Céus começa nele.

 

Referência

LOPES, Sérgio Luis da Silva. O Código do Monte: as virtudes do Sermão da Montanha. 2. ed. Porto Alegre: Livraria e Editora Francisco Spinelli, 2013.

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