A Ceifa



Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: colhei primeiro o joio e atai-o em molhos para o queimar; mas o trigo, ajuntai-o no meu celeiro.

Mateus 13:30

A manhã estava cinza. A chuva da noite não fora suficiente para dissipar as densas nuvens que prenunciavam mais e intensas precipitações. O experiente e leal servidor do Cristo tomou o Evangelho nas mãos e sentou na varanda que se abria para o pequeno jardim da casa, a fim de iniciar o dia com as salutares reflexões da mensagem do Mestre Jesus.

Elevou-se em prece e abriu o livro que lhe brindou com a passagem - “Muitos Chamados, Poucos os Escolhidos” - como fazia sempre selecionou um dos itens e se pôs a meditar sobre a aplicabilidade da lição para aqueles momentos desafiadores que atravessava no trabalho realizado no Centro e no Movimento Espírita.

Após muitas décadas de serviço em que superara tantas limitações pessoais e profissionais, a fim de não sucumbir aos fatores que tentavam deter-lhe o passo na caminhada de redenção, planejada para a atual encarnação, sentia mais uma vez um aperto no peito, que resultou em pranto silencioso a escorrer e banhar-lhe as faces.

Como não ocorria há tempos, sentia o impacto que o materialismo provoca nas fileiras do trabalho espírita.

Dia após dia, as baixas se verificavam nas equipes de trabalho sobrecarregando os que permaneciam fielmente em seus postos e comprometendo promissoras trajetórias que se rendiam ao culto dos valores transitórios, abandonando projetos redentores para as suas vidas.

O desânimo era avassalador nas almas frágeis e imediatistas. Os melindres geravam conflitos, afastando companheiros de longo tempo, vulnerando os setores de tarefas da casa. O personalismo provocava dissensão em muitos núcleos onde a união imperara produzindo avanços e conquistas unificadoras, hoje comprometidas pelo visgo destruidor do egoísmo.

Era um tempo de escolhas, pensava o maduro seareiro, enxugando as lágrimas e contemplado os canteiros bem cuidados, onde a chuva generosa abrira sulcos e preparara o solo para o plantio de novas mudas e sementes que, em breve, rebentariam em floração na próxima primavera.

Pensava: - O que temos plantado para estarmos colhendo tão amargos frutos em nossa messe?

Foi quando percebeu a presença de uma benfeitora amiga, que coordenava o trabalho no grupo mediúnico que ele dirigia. O trabalhador aflito experimentou o envolvimento amoroso, tão característico daquela alma nobre, e pela intuição, ouviu o estímulo que ela lhe entregava com a permissão do Cristo. Muitas vezes ela já acorrera em seu auxílio nos momentos difíceis em que as forças precisavam ser decuplicadas para vencer a si mesmo.

- É a ceifa, meu amigo e irmão. A ceifa a qual Jesus se refere e os evangelistas narram em seus evangelhos. São os instantes em que o trigo está maduro, mas pelo descuido do lavrador o joio cresceu e misturou-se com ele, tentando sufocá-lo.

A humanidade está a colher o trigo, sim. Mas para tal precisa ceifar o joio, separá-lo com atenção para deitá-lo ao fogo, salvando, o quanto possível, o trigo crescido.

A atávica visão do ser que se dirige quase sempre aos despenhadeiros sombrios e não aos altiplanos luminosos faz com que a presença do joio seja supervalorizada e, não raro, a única a ser propagada.

Atente que o trigo é uma bênção divina e a ela o lavrador precisa se reportar e agradecer a Deus, diuturnamente, pela sua existência. Sim, o trigo está maduro, porém difícil de ser percebido e ceifado em meio ao joio.

Como bem percebes, amigo, a faina é cansativa pelo processo complexo que o homem engendrou.

Mas é necessário prosseguir e o entusiasmo para tal mister está condicionado à mudança de olhar, que deve direcionar-se à observação do trigo que reluz em meio ao joio e não ao joio que tenta, sem conseguir, ofuscar o ouro do trigal.

Há os que desistem, mas há os que perseveram, sufocando o pranto com o devotamento, escondendo as mãos feridas no trabalho ingente, silenciando as queixas, ignorando o cansaço.

Tem os que relegaram suas leiras ao abandono sem concluir o plantio, mas há os que abnegados seguem cuidando com alegria dos seus afazeres que produzem cem por um, nutrindo tantos corações combalidos e vencidos pelas próprias mazelas cultivadas ao longo do tempo.

Vê-se os que caíram derrotados momentaneamente pelos abusos de toda a monta. Mas observe-se os derrotados de ontem, que hoje se erguem e fortes ombreiam ao nosso lado.

Há os que partem iludidos com as visões enganosas do materialismo, mas muitos chegam com os corações fertilizados pelas antigas dores, dispostos à renovação.

Há, meu filho, os que se distanciaram do Cristo e de nós. Mas observe-se os que retornam das caminhadas estéreis empreendidas, a buscar-nos o coração por celeiro de claridades que somente o trabalho no bem pode prover.

O velho servidor beijou as páginas do Evangelho, marcado pelas lágrimas de muitos anos que ali se depositaram, fechou o livro bendito e ergueu-se renovado.

Minutos depois estava a caminho do Centro Espírita para dirigir o trabalho da manhã com as famílias que eram evangelizadas naquele lar abençoado de amor.

Lá chegando verificou que o trigo crescia viçoso e o ouro do trigal penetrou sua alma de paz e de fé

Pompílio, O Secretário

Grupo Yvonne Pereira – setembro de 2018

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