Um Natal diferente - cap. 2


Ao lado do corpinho inerte do Moedinha, misturado ao sangue estavam alguns restos de alimentos, inclusive da ceia de Juvenal. Tal qual outo perseguido, que há dois mil anos não encontrou um lugar para nascer, o Moedinha não o encontrou para viver.

Aquele fato atormentou Juvenal por longo tempo, mas como ele costumava dizer: - não era responsável pelos problemas do mundo. Isto era lá com o governo. Ele tinha a ver consigo e com a sua família e era o bastante.

O tempo passou.

Juvenal era excelente profissional, técnico em mecânica. Estudou, cursou Engenharia, aprimorou-se em gestão e cresceu junto com a empresa onde trabalhava. De chefia em chefia chegou à posição de destaque na Diretoria da grande multinacional.

Vila Esperança e suas casas simples ficaram para trás. Agora, no bairro de classe média-alta onde mora, Juvenal via os seus sonhos se concretizarem.

Tudo o que sonhara, materialmente, ia pouco a pouco conseguindo. Os filhos adolescentes frequentavam as melhores escolas paulistanas, eram assíduos nos clubes sociais mais requintados e faziam amigos dentre os filhos das mais tradicionais famílias da grande metrópole.

Mas, estranhamente, ao chegar o Natal, a tristeza, o vazio e a aura depressiva voltavam a se instalar. Comentava isso, muitas vezes, com a esposa, que embora dedicada e amiga, era algo frívola e não aderia às reflexões de cunho mais profundo, pois sempre vivera na superfície da vida, fruindo o que lhe era ofertado sem maiores questionamentos ou preocupações.

No entanto, Juvenal continuava detestando o Natal e isto era para ele um suplício. Enquanto a família reunia-se com os amigos e divertiam-se, ele praticamente agonizava, andando pela casa, como se fosse uma alma penada, sem achar graça em coisa alguma.

Certo dia, o barco da vida, que conduzia Juvenal, começou a enfrentar mares bravios e temporais. Laurinha, sua única filha, pois os demais eram rapazes iniciou a apresentar sintomas estranhos. Primeiro foram longos isolamentos, não queria falar com ninguém, recusava-se a comer, relutava para fazer a higiene e até mesmo a abrir as janelas do quarto e dos demais aposentos por onde passava.

A princípio a família deu a isto a conotação de uma crise da idade. Laurinha contava, então, com 14 anos e prenunciava uma adolescência difícil. Mas o quadro foi se agravando e a menina revelando uma personalidade transtornada. Agora, tinha acessos de fúria, tendo que ser contida por várias pessoas. Nesses momentos ameaçava a integridade própria e também das pessoas que estavam na volta, causando estragos de monta em tudo o que lhe estivesse ao alcance.

Juvenal estava arrasado, afinal era a sua filha predileta, seu arrimo, com quem tinha a maior afinidade dentre os filhos. Foi com a alma dilacerada que ouviu, de consultório em consultório, repetir-se o diagnóstico da doença mental grave, que acometia Laurinha.

Clínicas e sanatório foram dali em diante o Calvário da família. A enferma ficava algum tempo em casa, outros, internada, mas seu estado era tão precário que a sua fisionomia causava mal-estar e até uma certa repugnância a tantos quantos a viam.

Marisa e os irmãos chegaram a pedir a Juvenal que afastasse Laurinha, definitivamente, do seu convívio, pois os amigos haviam se afastado, a casa estava deserta e eles em completo isolamento.

O pobre pai amava a família e tinha uma quase devoção pela filha enferma. Esse pedido o desesperou. Nunca pensara que eles fossem capazes de analisar o doloroso drama que viviam, por um ângulo tão egoísta. Sua resposta foi “não”. E a resposta da família foi o abandono. Se quisesse, disseram eles, fique você cuidando dessa louca.

A maledicência alheia deu contornos trágicos a este fato.

“- Dizem que Juvenal está louco, também.

- Coitado! Diz que ele e a filha estão de certa forma transtornados, que a família não aguentou e teve que ir embora!”

Os boatos chegaram à empresa que Juvenal dirigia, e temerosos das atitudes que ele pudesse tomar, já que diziam estar doente mental, antes que se a doença fosse comprovada eles o demitiram.

Sem família, sem emprego, sem os bens que Marisa passara a gerir, por uma manobra jurídica de conhecidos influentes, desde a “insanidade” de Juvenal, ele começou a experimentar o lado escuro da vida, que nem mesmo nos tempos de Vila Esperança, chegara a vivenciar.

Algumas economias que lhe couberam no acerto com a família dariam para algum tempo. Pensou em se mudar com Laurinha para um lugar humilde, distante da curiosidade e do escárnio do seu círculo de conhecidos.

Laura andava mais calma e naquela noite Juvenal deitou tarde, pensando no rumo que daria às suas vidas.

E sonhou...

Imagine! Sonhou com o Moedinha!

Leia os próximos capítulos.

#bethbarbieri

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