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Somos apenas usufrutuários






Vinícius Lima Lousada[1]


Portanto, que benefício terá o homem se ganhar o mundo inteiro, e sua alma sofrer perda? Ou que dará o homem em troca da sua alma? (Mateus 16:26)[2]


A Doutrina Espírita nos apresenta uma outra perspectiva sobre a vida material e seus recursos. Ao contrário da mera negação do espiritualismo tradicional quanto aos recursos materiais, com o princípio da reencarnação aprendemos que os recursos materiais são ferramentas emprestadas por Deus, ainda que tenhamos nos esforçado por adquiri-los, tendo em vista a nossa evolução, a fim de que venhamos a colaborar com o progresso onde a Providência Divina nos situou, em tarefas simples ou planos de trabalho complexos.

A pluralidade das existências, como princípio filosófico do Espiritismo, inaugura uma nova compreensão da vida, fazendo compreender a transitoriedade da presença do Espírito que somos no carro físico e fala-nos, de modo muito claro, da impermanência do dinheiro, dos bens, das posições sociais, de nossas ocupações, dos títulos e, até mesmo, de certos relacionamentos.

Tudo é transitório, especialmente no que tange à vida na matéria, ficando ao Espírito riquezas maiores, aquelas conquistas imperecíveis: as aprendizagens morais e intelectuais que dizem respeito ao Ser integral.

André Luiz, em seus estudos sobre a Lei de Causalidade (Ação e Reação), ao tratar do tema dos bens materiais remete-nos aos ensinamentos do ministro Sânzio que, por sua vez, postula o fato de sermos meros usufrutuários da Natureza, de tal forma que, segundo a anotação feita pelo médico desencarnado:

O Espírito, seja onde for, encarnado ou desencarnado, na Terra ou noutros mundos, gasta, em verdade, o que lhe não pertence, recebendo por empréstimos do Eterno Pai os recursos de que se vale para efetuar a própria sublimação no conhecimento e na virtude. Patrimônios materiais e riquezas da inteligência, processos e veículos de manifestação, tempo e forma, afeições e rótulos honoríficos de qualquer procedência são de propriedade do Todo-Misericordioso, que no-los concede a título precário, a fim de que venhamos a utilizá-los no aprimoramento de nós mesmos, marchando nas largas linhas da experiência, de modo a entrarmos na posse definitiva dos valores eternos, sintetizados no Amor e na Sabedoria com que, em futuro remoto, Lhe retrataremos a Glória Soberana.[3]


Na anotação acima, observamos a listagem de recursos que a Providência Divina nos confere por empréstimo, em nossas lutas reencarnatórias, tendo em vista a conquista dos valores do Espírito, consoante a programação reeducativa estabelecida para cada existência.

Vejamos, assim, a necessidade de meditarmos sobre o ponto de vista da vida futura que a Doutrina Espírita nos lega, especialmente, nestes dias de vigorosas investidas do materialismo, inclusive no seio da religiosidade, quando alguns incautos procuram enxertar na árvore do Evangelho doutrinas de outra natureza, incompatíveis com o ensinamento moral de Jesus.

Allan Kardec, ao estudar o tema do ponto de vista, inspirado pelo alerta de Jesus sobre o seu Reino não pertencer a este mundo[4], indica-nos a necessidade de contemplarmos a vida numa outra perspectiva, a espiritual:

Para quem se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a vida corpórea se torna simples passagem, breve estada num país ingrato. As vicissitudes e tribulações dessa vida não passam de incidentes que ele suporta com paciência, por sabê-las de curta duração, devendo seguir-se-lhes um estado mais ditoso. À morte nada mais restará de aterrador; deixa de ser a porta que se abre para o nada e torna-se a que dá para a libertação, pela qual entra o exilado numa mansão de bem-aventurança e de paz. Sabendo temporária e não definitiva a sua estada no lugar onde se encontra, menos atenção presta às preocupações da vida, resultando-lhe daí uma calma de espírito que tira àquela muito do seu amargor.[5]


O ponto de vista que temos a partir do horizonte de compreensão da realidade espiritual que a Doutrina Espírita nos descortina, dá-nos o devido valor da vida corporal: uma jornada cujos desafios e dificuldades serão breves, considerando-se a imortalidade da alma e a sua progressão infinita. O nosso foco muda, devemos investir nossas forças para, na matéria, buscarmos as aquisições do Espírito passíveis de serem amealhadas no cultivo do dever, na execução de nossas responsabilidades, na experiência gradativa da aprendizagem do amor ao próximo, dos mais aconchegados à nossa convivência até a família universal.

Disso tudo, resulta significativa calma no âmago do ser para as lutas necessárias à sua evolução. Nesta virada de perspectiva que o Espiritismo promove, a dor, por exemplo, se apresenta como recurso de despertamento do Espírito para novos rumos; a solidão como uma oportunidade de autoencontro; a carência material enquanto experiência de desapego ou incentivo ao esforço constante no campo de uma resignação ativa; a ingratidão consiste numa ocasião de aprendermos a desculpar, amar e servir sem recompensa; a enfermidade aparece na condição de convite ao reajuste e etc.

Como simples usufrutuários do Patrimônio Divino, aprendamos a usar os recursos disponíveis em prol de nossa evolução espiritual, empregando-os nos serviços de Deus, promovendo junto a todos, vida em abundância, contentamento e espiritualização.


Referências: [1] Vice-presidente de Unificação da Fergs. [2] O Novo Testamento. trad. Haroldo Dutra Dias. FEB. Edição do Kindle. [3] XAVIER, Francisco Cândido. Ação e Reação. Pelo Espírito André Luiz. 1. ed. especial. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2003, p. 92-93. [4] João 18: 36. [5] KARDEC, Allan, O evangelho segundo o espiritismo. tradução de Guillon Ribeiro. 13. ed. – Brasília: FEB, 2019, p. 53.

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