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Reconciliações



Vinícius Lima Lousada[1]

Portanto, se estiveres oferecendo tua oferta sobre o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa ali tua oferta, diante do altar, vai e reconcilia-te primeiramente com teu irmão; então, vem e oferece tua oferta. (Mateus 5:23-24)[2]


A Terra, como bem sabemos com base nos conhecimentos da Doutrina dos Espíritos, é um planeta de provas e expiações, portanto, a rigor, os Espíritos que aqui vivemos somos de natureza moral inferior, carentes de valores superiores que todos buscamos através da reencarnação e de um melhor entendimento da Lei Divina.

Santo Agostinho, luminar da Codificação, assim se exprime sobre a nossa estação educacional:

A Terra nos oferece, pois, um dos tipos de mundos expiatórios, cuja variedade é infinita, mas que têm, como caráter comum, o fato de servirem de lugar de exílio para Espíritos rebeldes à Lei de Deus. Esses Espíritos têm aí de lutar, ao mesmo tempo, com a perversidade dos homens e com a inclemência da Natureza, duplo e árduo trabalho que simultaneamente desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência. É assim que Deus, em sua bondade, faz que o próprio castigo reverta em proveito do progresso do Espírito.[3]


Logo, verificamos, no conjunto variável de mundos expiatórios - lares planetários onde se concentram mais Espíritos que experimentam estágios de sofrimento consequentes de suas faltas -, que o nosso planeta serve de estação de exílio para Espíritos que não se conformam com os ditames da Lei Divina e que lidam, concomitantemente, com as lições advindas da inferioridade humana e da Natureza exigente. Nestas lutas morais e intelectuais do Espírito, a Lei do Progresso se impõe nos demandando o desenvolvimento da inteligência e da moralidade, onde o nosso crescimento está implicado nos benefícios que geramos à vida do próximo.

O Espírito Jacob bem ilustra a nossa condição evolutiva quando narra que:

“Dois terços das criaturas Humanas encarnadas na crosta da Terra demoram-se em jornada evolutiva da irracionalidade para a inteligência ou da inteligência para a razão; a terça parte restante acha-se em trânsito da razão para a Humanidade. Fora do corpo terrestre, mas ligados ao mesmo plano, evolutem bilhões de seres pensantes nas mesmas condições.”[4]


A maioria de nós está conectada às paixões inferiores e apenas um terço deste montante está caminhando da faixa evolutiva da capacidade de raciocinar rumo ao exercício de sentir com elevação.

Temos uma caminhada pela frente e o simples contato com o Espiritismo não nos transforma em anjos. Tanto é verdade, que Kardec estabelece as diferentes categorias de espíritas[5] com base nas diversas formas de apropriação do que há de essencial no Espiritismo, referindo-se sobre os espíritas exaltados, pouco afeitos ao bom senso; experimentadores, voltados à fenomenologia; imperfeitos, que valorizam a moral cristã, mas não aplicam a si mesmos, e os verdadeiros espíritas, que não se contentam em admirar a moral do Espiritismo, mas se comprometem em vivenciá-la. Os últimos, quando se fazem presentes, causam admiração e até desconfiança porque a virtude, em um mundo inferior como o nosso, ainda é uma exceção. Como ensina Emmanuel: “Muitos se convencem, poucos se convertem.”[6]

Kardec, em a Revista Espírita de setembro de 1862, se ocupa de um tema muito interessante: “Uma reconciliação pelo Espiritismo”, é o nome do artigo. Neste texto o mestre traz aos leitores da Revue, novamente, fatos que revelam a influência do Espiritismo sobre o caráter dos indivíduos que aderem às suas ideias. Trata-se de um caso que lhe foi narrado por um capitão da marinha mercante do Havre[7], que havia iniciado os seus subordinados no Espiritismo. Ele mesmo era médium e, no dizer de Allan Kardec, um excelente espírita.

Na sua embarcação havia o seu próprio irmão, de dezoito anos e um piloto de dezenove anos, ambos médiuns, animados de uma viva fé e atentos aos sábios conselhos que recebiam dos Bons Espíritos. Todavia, de uma feita, discutiram e agrediram-se, agendando para o dia seguinte, com local definido, o pugilo infeliz. Mais tarde, cada qual em seu ambiente foram advertidos pelos Bons Espíritos quanto à insensatez de seu comportamento, a futilidade da discussão e a felicidade da amizade. Enfim, foram instados à reconciliação.

Logo mais, movidos pelo mesmo sentimento de perdão recíproco, os amigos fizeram as pazes e nunca mais a incompreensão se fez presente em seu relacionamento, segundo o capitão de ambos. E, a esse respeito, pondera o nobre Codificador:

Um dos resultados do Espiritismo bem compreendido ─ e insistimos na expressão: bem compreendido ─ é o desenvolver o sentimento de caridade. Mas, como se sabe, a própria caridade tem uma acepção muito ampla, desde a simples esmola até o amor aos inimigos, que é o supra-sumo da caridade. Pode-se dizer que ela resume todos os nobres impulsos da alma para com o próximo. O verdadeiro espírita, como o verdadeiro cristão, pode ter inimigos - não os teve o Cristo? - mas não é o inimigo de ninguém, pois está sempre disposto a perdoar e a pagar o mal com o bem.[8]


Observamos que, ao verdadeiro espírita, não faz sentido ser inimigo de ninguém, nada obstante encontre, dado o estágio evolutivo em que transitamos, aqueles que se lhe antipatizam ou até mesmo se colocam na condição de seus adversários. Mas, o verdadeiro espírita tem o compromisso moral de afastar-se mentalmente de qualquer ideia de fomento à inimizade porque ela é contrária à caridade. Dessa forma, deve abrir mão do desejo de vingança quando alguém o prejudica, nada obstante, possa buscar com equilíbrio a justiça para consigo e a retidão na própria conduta porque compreende a lei de ação e reação, entregando a Deus a gestão dos desdobramentos de ações que não dizem respeito ao seu próprio livre-arbítrio.

Aquele que busca imbuir-se da moral espírita deve ser ligeiro em reconciliar-se, abstendo-se de malquerer alguém, trabalhando por aprender a servir ao próximo, perdoando-lhe as faltas deste para consigo de forma a prosseguir em paz com a consciência.


Referências: [1] Vice-presidente de Unificação da Fergs. [2] O Novo Testamento. trad. Haroldo Dutra Dias. FEB. Edição do Kindle. [3] Kardec, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. FEB Publisher. Edição do Kindle. p. 57-58. [4] XAVIER, Francisco Cândido. Voltei (pp. 152-153). Pelo Espírito Irmão Jacob. FEB. Edição do Kindle. [5] Kardec, Allan. O livro dos médiuns. FEB Publisher. Edição do Kindle, cap.III, item 28. [6] XAVIER, Francisco. Perante Jesus. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB. São Paulo: IDEAL, 2021, p. 52. [7] Comuna francesa situada na região administrativa da Normandia, Departamento de Seine-Maritime. (Fonte: wikipedia.) [8] KARDEC, Allan. Uma reconciliação pelo Espiritismo. In: KARDEC, Allan. Revista Espírita: jornal de estudos psicológicos. Ano quinto. Evandro Bezerra. trad. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004, p. 378.

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