Acolher a própria ignorância



“O que conhece o homem, aliás, do próprio planeta onde tem renascido desde milênios, para criteriosamente rejeitar o que o futuro há de popularizar sob os auspícios do Psiquismo?... O seu país, a sua capital, a sua aldeia, a sua palhoça ou, quando mais avantajado de ambições, algumas nações vizinhas cujos costumes se nivelam aos que lhe são usuais?...”[2]


Quando nos deparamos com textos psicografados por Yvonne do Amaral Pereira somos surpreendidos a respeito da nossa própria ignorância espiritual.

A obra Memórias de um suicida, por exemplo, que tem seu texto produzido pelo Espírito Camilo Cândido Botelho, além de contar com a revisão de Léon Denis, nos permite navegar nos mares profundos da vida espiritual e compreender parte das consequências do materialismo na construção de situações de sofrimento no Além Vida.

Lembremos que Memórias de um suicida não é um simples livro dotado de qualidades de um romance sensibilizador. A obra se trata de um projeto da Espiritualidade Maior para despertar-nos a consciência a fim de que sejamos capazes de compreender a nossa natureza espiritual, o valor inquestionável da vida, e as consequências negativas fornecidas pelo autocídio, verdadeiro flagelo que ainda envolve a coletividade terrena e que tem ganho muitos corações descuidados através do niilismo que se espalha, ceifando a crença na imortalidade da alma fragilizada pela contribuição infeliz do fanatismo religioso.

Allan Kardec ao estudar a problemática do suicídio e suas implicações para infelicidade na vida espiritual, conforme encontramos bem expresso em a obra O céu e o inferno: a justiça divina segundo o Espiritismo, já deu-nos o ensejo, aos que abraçamos o Espiritismo como filosofia de vida, de compreendermos os desdobramentos perniciosos da negação da vida futura e da atitude equivocada do suicídio. Todavia, com o relato de Memórias de um suicida fica bem ilustrado que os sofrimentos psíquicos bafejados na realidade espiritual, pelo pensamento irradiado, plasmam realidades ideoplásticas das mais sofridas e dantescas, norteadas automaticamente pelo desespero, horror e desesperança que pairam no coração das criaturas.

As paisagens dolorosas da alma humana se projetam para além da psicosfera individual, compondo cenários fluídicos de expiação e dor, jamais como castigo, mas como mecanismo lógico reparador, engendrado pelas criaturas equivocadas que se atiraram ao suicídio direto ou insconsciente. A manipulação da matéria sutil do mundo espiritual já fora meditada com atenção por Kardec em O livro dos médiuns, ao tratar do laboratório do mundo invisível.

Não pretendo aqui fazer resenha deste clássico da literatura espírita contemporânea, muitos autores já o fizeram, bem como alguns comentaristas mais qualificados do que nós próprios têm escrito ou falado sobre o tema. Todavia, como me encontro tendo oportunidade de rever a obra a partir de estudo semanal no qual participo no Grupo Yvonne Pereira[3], identifico algumas algumas frases lapidares ou ensinamentos que me parecem oportunos para a partilha com os leitores desta coluna, como no caso da epígrafe que inseri na abertura deste texto.

Nela há um convite para que acolhamos a nossa própria ignorância a fim de que, com atitude de aprendiz da Ciência do Infinito, possamos recolher em cada leitura edificante, no convívio com os Espíritos amigos ou nas atividades felizes do centro e do movimento espírita, as lições apresentadas pela Vida Maior em prol de sua aplicação a nós mesmos.

Temos, neste momento, a oportunidade de perceber que nós somos desconhecedores de uma porção de coisas à nossa volta, apesar de todo o legado científico, filosófico e religioso da humanidade e sua transposição junto aos processos educativos do mundo. Evidencia-se, ao observarmos a nossa realidade evolutiva, que ao sabermos um tanto de coisas que não sabíamos há alguns séculos atrás sobre a vida e o viver, sobre o ambiente e integração da criatura humana no mesmo, sobre o Cosmos, as leis que regem a matéria e as Leis Morais da vida, ainda somos desconhecedores de uma porção de outras coisas, inclusive a respeito de nossa natureza íntima e do nosso futuro pós-vida.

Enfim, o nosso saber é ínfimo na condição de Espíritos imperfeitos em que nos encontramos. A nossa cota de ignorância é muito maior do que a de saberes pertinentes à nossa evolução consciente. Ignoramos até mesmo a extensão da nossa ignorância e a hiperespecialização do conhecimento, tão em voga, produz a cegueira do conhecimento, como já alertou o pensador Edgar Morin[4].

Quanto mais sabemos sobre algo específico, mais desconhecemos para além deste algo. Por isso, ainda lidamos com negacionismo científico, fanatismos e atitudes que aparentemente eclipsam a razão, mesmo em tempos de transição planetária. Não raro nos encontramos como Nicodemos[5] diante de Jesus, doutor da Lei e desconhecedor das verdades espirituais.

Ocorre que o paradigma desenvolvido na modernidade em diferentes escolas do pensamento ocidental estrutura formas de apreensão do mundo e de interpretação da realidade consoante não somente às leis apreendidas dos diversos fenômenos transformados em objetos científicos. O nosso modo de conhecer está relacionado inextricavelmente com a nossa condição evolutiva, composta por nossos avanços intelectuais e morais.

Para que não façamos uma opção ainda que involuntária pela ignorância, exercitemos com humildade o reconhecimento desta em nós mesmos e abramos as comportas da alma para as aprendizagens significativas que a Doutrina Espírita pode nos conferir através de sua literatura libertadora.

Fixemos a recomendação de Léon Denis: “Trabalha, ama e ora! Cultiva tua inteligência e teu coração! Desenvolve tua consciência; torna-a mais vasta, mais sensível.[6]

Vinícius Lima Lousada[1]


[1] Diretor da Área de Formação de Lideranças Espíritas - FERGS. [2] PEREIRA, Yvonne A.. Memórias de um suicida. Pelo Espírito Camilo Cândido Botelho, sob a orientação do Espírito Léon Denis. 7. ed. 2ª. reimpressão. Rio de Janeiro: FEB, 2010, p. 24. [3] Grupo de estudo e prática da mediunidade em que participo no Hospital Espírita de Porto Alegre (HEPA). [4] MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. tradução de Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaya ; revisão técnica de Edgard de Assis Carvalho. – 2. ed. – São Paulo: Cortez ; Brasília, DF : UNESCO, 2000. [5] João 3:1-21. [6] DENIS, Léon. O grande enigma. FEB. Edição do Kindle. (Locais do Kindle 6002).

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