Grupos de Estudos Espíritas: Escolas da Alma
- fergs

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Verno Eduardo Kraemer
Diretor da Área de Estudo do Espiritismo da Fergs
“Levantam-se educandários em toda a Terra.
Estabelecimentos para a instrução primária, universidades para o ensino superior. Ao lado, porém, das instituições que visam à especialização profissional e científica, na atualidade, encontramos no templo espírita a escola da alma, ensinando a viver.”1
(grifo do autor)
Na viagem realizada por Allan Kardec, no ano de 1862, a diversas cidades francesas, atendendo a um convite subscrito por quinhentos espíritas da Cidade de Lyon, o Codificador percorreu cerca de 1.158 km, presidindo cinquenta reuniões, realizando diversas palestras, oportunidade em que constatou pessoalmente a formação de “grupos de ensino”, atualmente denominados grupos de estudos.
Ainda, Kardec verificou que a constituição destes grupos de ensino foi natural. Toda a atenção era voltada para o estudo de O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns e a Revista Espírita. Não se ocupavam com as manifestações espirituais. Pessoas devotadas reuniam-se, com certo número de ouvintes, suprindo para estes as dificuldades da leitura ou do estudo isolado. Além disso, Allan Kardec afirma não haver necessidade de ser orador ou professor, pois a tarefa tratava-se de uma leitura, em família, acompanhada de explicações ao alcance de todos2.
Estas observações estão relatadas na obra “Viagem Espírita de 1862”, e são significativas, já que destacam a formação de grupos voltados exclusivamente para leitura e estudo do Espiritismo, que na época, era constituído das obras acima citadas. Também, Kardec salienta que, nas reuniões realizadas, as comunicações espirituais não eram o objetivo.
Chama-se a atenção que o objetivo das reuniões era reunir pessoas para estudo das obras espíritas, visando suprir as dificuldades de leitura ou do estudo isolado de seus participantes.
Percebe-se que a motivação da formação dos denominados “grupos de ensino” era o estudo do Espiritismo, mas, igualmente, viver a moral Cristã, pois a realização da leitura, visando suprir as dificuldades de alguns, representa o exercício da caridade, ensinada por Jesus.
Outra questão a ser destacada é o fato de que, para o exercício da atividade, conforme Kardec, era: “(...) como em família, seguida de explicações despretensiosas do ponto de vista da eloquência, mas que estejam ao alcance de todos”3, ou seja, tomada por sentimentos de amor e fraternidade.
O resultado destas reuniões visava despertar a atenção para os princípios que podem ser mal compreendidos ou passarem despercebidos. Por isso, é importante que o facilitador prepare, antecipadamente, os encontros dos grupos de estudo, realizando um planejamento, a fim de organizar o tema e os textos a serem lidos, estudados e debatidos, bem como os recursos a serem utilizados e, por fim, a avaliação. Esta última centrada no tema e não no facilitador.
Com isto, os grupos de estudos constituem espaços de diálogo e livre debate de qualquer assunto à luz do Espiritismo, representando local de esclarecimento e crescimento de corações sinceros.
O pensamento de Emmanuel, na obra Estude e Vive, em sua introdução “Na escola da alma”, remete-nos à reflexão acerca do propósito das sociedades espíritas como escola de almas, proporcionando, assim, aos seus frequentadores a vivência da moral do Evangelho, cuja linha de raciocínio encontra-se alinhada à proposta do Cristo.
A primeira questão a ser analisada refere-se à forma de aprendizagem aplicada nos grupos de estudo, cujo tema encontra-se em permanente processo de transformação, por força dos avanços sociais, científicos, culturais e tecnológicos.
Não se desconhece que, por uma questão de tradição no ensino formal, aplicado nas escolas, a tendência nos grupos de estudos é de replicar as técnicas vivenciadas nas salas de aula das escolas, fruto da formação da educação formal.
Estas técnicas, em que pese a necessidade e relevância para a formação da educação formal, não possuem os mesmos propósitos dos grupos de estudo, pois, a primeira, visa à transmissão de conhecimentos, enquanto, a outra, a vivência da moral evangélica.
Neste ponto, Cecília Rocha, no artigo publicado na Revista Reencarnação, de junho de 1959, com o título “Educação e Espiritismo”, refere que: “confundir instrução, acúmulo de conhecimentos, com educação, tem sido um dos maiores erros dos homens em todos os tempos, e a causa dessa grande inversão de valores que se observa atualmente”4.
Nos grupos de estudo, a proposta é de educação moral. De estudá-la e vivê-la, à luz do Espiritismo. A educação, sob o aspecto do espírito, estimula a sua evolução na Terra nas duas dimensões da vida: espiritual e material. É um verdadeiro patrimônio da alma.
O Espiritismo é uma doutrina educacional, porquanto conclama os espíritas à reforma íntima e à prática do bem. O bom espírita reconhece-se “pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más”5.
Nesse contexto, o facilitador possui o compromisso de participar na formação dos valores evangélicos, assumindo, ao mesmo tempo, a função de disseminador do bem e transformador de si mesmo e dos demais integrantes do grupo.
O facilitador é um servidor do Cristo.
A moral a ser alcançada é a que foi ensinada e vivida pelo mestre Jesus Cristo, que, conforme a questão nº 625 de O Livro dos Espíritos, é o modelo e guia para os habitantes do planeta Terra.
Com isto, sendo o grupo de estudo uma célula do Centro Espírita, que visa à educação evangélica, deve, por consequência, possuir este mesmo sentido, o que representa um desafio para os seus integrantes, inclusive ao facilitador.
Citando novamente Cecília Rocha, no referido artigo, esclarece que o Espiritismo é “doutrina nitidamente educacional porque prega a reforma íntima, única capaz de realizar a transformação espiritual”4.
Os estudos a serem realizados nos encontros dos grupos de estudo devem ser espaços de convivência e vivência dos ensinos de Jesus. Ambientes fraternos, de diálogo, respeito, caridade e amor.
Escolas da Alma...
Referências:
[1] XAVIER, Chico; VIERA, Waldo. Estude e Viva. Pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz. 14. ed. 5. Imp. Brasília: FEB, 2017.
[2]KARDEC, Allan. Viagem Espírita em 1862. Coleção de Obras. 4. ed. Matão/SP: Casa Editora “O Clarim”, 2012.
[3]KARDEC, Allan. Viagem Espírita em 1862. Coleção de Obras. 4. ed. Matão/SP: Casa Editora “O Clarim”, 2012., p. 108.
[4]ROCHA, Cecília. Educação e Espiritismo. A Reencarnação. Porto Alegre, exemplar nº 9, p. 8. Junho de 1959. Disponível em: <https://fergs.net.br/AcervoRevistaReencarnacao/1959/areencarna%C3%A7%C3%A3o_1959-06.pdf>. Acesso em: 16/02/2026.
[5] KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. 105 ed. Brasília-DF: FEB, 1994. p. 288.









































