Conduta espírita diante do Evangelho e do Espiritismo
- fergs

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Vinícius Lima Lousada[1]
Esta obra é para uso de todos. Dela cada um pode colher os meios de conformar sua conduta pessoal à moral do Cristo. Os espíritas nela encontrarão, além disso, as aplicações que lhes dizem respeito de modo especial. Graças às relações estabelecidas, daqui em diante e de maneira permanente, entre os homens e o mundo invisível, a lei evangélica, ensinada a todas as nações pelos próprios Espíritos, já não será letra morta, porque todos a compreenderão e serão incessantemente compelidos a pô-la em prática, a conselho de seus guias espirituais. As Instruções dos Espíritos são verdadeiramente as vozes do Céu que vêm esclarecer os homens e convidá-los à prática do Evangelho. - Allan Kardec[2]
Quando nos voltamos aos textos evangélicos, sob a análise da perspectiva espiritual que o Espiritismo nos entrega, encontramos um repositório de sabedoria, em que pesem as possíveis interpolações que tenham ocorrido no texto em razão de tradução ou de outros fatores históricos. Neste momento, advém-nos à mente a passagem em que Jesus nos permite considerar que, no campo religioso, diverso e multifacetado, existem distintos tipos de crentes, que variam ao infinito e em conformidade com a diversidade da natureza humana e, portanto, da condição evolutiva dos Espíritos enquanto individualidades.
Refiro-me à passagem em que Jesus diz: "Nem todo aquele que me diz 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos Céus, mas aquele que realiza a vontade de meu Pai que está nos céus." (Mateus 7:21) A passagem acima está no conjunto de advertências que Jesus dá aos discípulos sobre os falsos profetas — tema estudado por Allan Kardec no elucidativo capítulo XXI de O Evangelho segundo o Espiritismo, onde aprendemos a distinguir os falsos profetas dos verdadeiros, seja no mundo material ou no mundo dos Espíritos, a partir da análise desapaixonada do resultado que entregam, do exame dos frutos de suas palavras e ações e, enfim, de sua conduta.
Entretanto, não podemos esquecer que somos responsáveis pelo nosso próprio progresso individual, cabendo-nos o esforço pessoal por uma evolução consciente e, neste sentido, caberia a pergunta: qual tem sido a nossa conduta diante do Evangelho? Recordemos que Kardec, ao identificar, na expansão do Movimento Espírita nascente, diferentes níveis de apropriação e vivência do conteúdo espírita, dispôs-se a classificar didaticamente os espíritas em categorias distintas, destacando que os espíritas imperfeitos estão no âmbito daqueles que admiram a moral evangélica e não a aplicam a si mesmos.
Ainda, Allan Kardec refere-se aos espíritas experimentadores — que focam nas manifestações mediúnicas o seu fazer — e indica como verdadeiros espíritas os que procuram aplicar a moral de Jesus a si mesmos, atestando a participação nessa categoria de adeptos na sua transformação moral e nos esforços que empreendem na superação de suas más tendências. O nosso compromisso pessoal, compreendamos, deve ser o de nos esforçarmos no sentido de nossa transformação interior no rumo da virtude.
Pestalozzi[3], mestre do professor Rivail, compreendia a virtude como um atributo do indivíduo, fruto de seu esforço moral. Sendo o ser humano configurado por forças físicas, sociais e morais, esta última seria resultante de seus esforços em ser virtuoso. A virtude se sustentaria na moralidade que, em sua totalidade e conforme o pensamento pestalozziano, consistiria no conhecimento, na prática e no desejo pelo bem. Não é por acaso que Kardec apresenta a ideia de que o Espiritismo bem entendido e sentido conduz à prática das virtudes do homem de bem “(...) que caracterizam o verdadeiro espírita como o verdadeiro cristão, pois que ambos são a mesma coisa.”[4] E, nesse sentido, não percamos de perspectiva que "Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más."[5]
Porém, não podemos esquecer que Kardec nos fala dos espíritas exaltados — grupo que, segundo ele, mais prejuízo geravam à Causa do que qualquer outros. Mas o que caracterizaria a atitude de um espírita exaltado? O próprio Kardec nos responde:
“Em tudo, o exagero é prejudicial. Em Espiritismo, infunde confiança demasiado cega e frequentemente pueril no tocante ao mundo invisível, e leva a aceitar-se, com extrema facilidade e sem verificação, aquilo cujo absurdo ou impossibilidade a reflexão e o exame demonstrariam. O entusiasmo, porém, não reflete, deslumbra. Esta espécie de adeptos é mais nociva do que útil à causa do Espiritismo. São os menos aptos para convencer a quem quer que seja, porque todos, com razão, desconfiam dos julgamentos deles. Graças à sua boa-fé, são iludidos assim por Espíritos mistificadores, como por homens que procuram explorar-lhes a credulidade. Mal menor apenas haveria se só eles tivessem que sofrer as consequências. O pior é que, sem o quererem, dão armas aos incrédulos, que antes buscam ocasião de zombar do que se convencerem, e que não deixam de imputar a todos o ridículo de alguns. Sem dúvida que isto não é justo nem racional, mas, como se sabe, os adversários do Espiritismo só consideram de bom quilate a razão de que desfrutam, e conhecer a fundo aquilo sobre que discorrem é o que menos cuidado lhes dá.[6]
Observemos que da assertiva de Kardec depreende-se que o entusiasmo irrefletido não é a atitude adequada para termos diante do rol de aprendizagens e experiências que o Espiritismo nos confere. O bom senso kardequiano nos recorda que todo exagero é prejudicial e que, no excesso, corremos o risco de nos deixarmos levar por uma confiança cega e ingênua no que advém do mundo invisível (e do visível também), sendo conduzidos à ausência da crítica reflexiva, em nome de uma atitude ingênua, díspar do patrimônio intelectual e espiritual que o Espiritismo entrega em nossas mãos.
Na dinâmica da exaltação, podemos dizer, os adeptos seriam facilmente enganados pelos falsos profetas da erraticidade e da realidade material que fazem da credulidade alheia objeto de abuso espiritual e, nesse contexto, sendo presas fáceis, os espíritas exaltados dariam margem aos posicionamentos críticos dos que não aceitam as teses espíritas. No contexto em que vivemos, em que o materialismo tem invadido o seio das religiões e promovido uma religiosidade performática — de muito barulho e pouco aprofundamento em termos de fé raciocinada —, não é incomum que pessoas pouco afeitas ao pensamento crítico, inseridas há muito em contextos religiosos regidos por uma racionalidade idolátrica, se encantem por supostos médiuns ou propagandistas do Espiritismo e suas mídias, ainda que estes possam apresentar pouca identidade com a proposta filosófica do Espiritismo e suas consequências morais. É indispensável termos o ensinamento de Jesus em mente e separarmos, no campo das ideias, o joio do trigo[7].
Aqueles que se opõem ao Espiritismo abertamente, ainda que de forma injusta, tendem a generalizar a falta de senso de uns para todos que laboram no Movimento Espírita; toda a cautela é, por isso, necessária, para que se promova a correta compreensão da Doutrina Espírita por quem a busca e dela sente necessidade.
Enfim, a conduta espírita diante dos ensinamentos do Evangelho — que a moral dos Espíritos Superiores recupera em simplicidade — e do Espiritismo é de moderação, calma e bom senso, a fim de buscarmos elementos que nos facultem a vivência dos ensinamentos propostos por Jesus de Nazaré. Constantemente dedicados aos estudos e à prática do Espiritismo, encontraremos caminhos para desentranhar da letra o espírito, consoante a matriz teórica da Doutrina à qual alinhamos a nossa busca espiritual e, desse modo, seremos instados a romper paulatinamente com as amarras invisíveis que nos atrelaram, um dia, ao culto externo e à fé cega, por meio do esclarecimento trazido à luz pelo dedicado trabalho de Kardec, sob a condução do Espírito de Verdade.
Referências:
[1] Vice-Presidente Doutrinário da Fergs.
[2] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo (p. 15). FEB Publisher. Edição do Kindle, Introdução. I - Objetivo da obra.
[3] PESTALOZZI, Johann Heinrich. The Education of Man: Aphorisms. Introdução de William Heard Kilpatrick. New York: Philosophical Library; Open Road Integrated Media, 2022.
[4] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo (p. 228). FEB Publisher. Edição do Kindle, item 4.
[5] Idem.
[6] KARDEC, Allan. O livro dos médiuns (p. 38). FEB Publisher. Edição do Kindle, item 28.
[7] Mateus 13: 24-30.









































