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Náufrago em Resgate, cap. 8




Estão próximos os tempos, repito-o, em que nesse planeta reinará a grande fraternidade, em que os homens obedecerão à lei do Cristo, lei que será freio e esperança e conduzirá as almas às moradas ditosas. Amai-vos, pois, como filhos do mesmo Pai; não estabeleçais diferenças entre os outros infelizes, porquanto quer Deus que todos sejam iguais; a ninguém desprezeis.[1]


A preleção de Cesar continuou lançando luzes sobre a equipe de abnegados trabalhadores, enquanto nesse momento a eles se juntavam mais grupos vindos de outros estabelecimentos prisionais.

- Os dias na prisão, como vedes, são sempre iguais. A mesma nesga de céu, o mesmo nicho de claridade, as mesmas paredes, os mesmos rostos e a mesma espera, sabe–se lá de quê. Ainda chegará o dia em que a humanidade logrará obter um estágio para a segregação dos seus criminosos, que os leve à reflexão e ao estímulo de reeducação ao qual são permeáveis todos os filhos do Criador, ao longo de sua travessia, rumo à evolução. As longas horas e dias, sem um objetivo que impulsione as almas ao encontro das suas potencialidades adormecidas, promovem o eclodir dos comportamentos adoecidos e já, de certo modo, automatizados nos seres privados da liberdade.

- Se observarmos as leis divinas em seu imutável programa para a redenção humana colheremos sábias lições da imposição de penas aos faltosos, onde ficam convocados ao julgamento da própria consciência, e vemos que permanecem ao seu dispor inumeráveis bênçãos, e a maior delas - a vida – que transcorre aguardando o momento da escolha que lhes transformará o rumo. Assim, dia virá, meus bons irmãos, que o criminoso será recluso em lugar e condições que lhe favoreçam o afastamento das circunstâncias que cercam o crime, mas também o aproxime de novas e saudáveis realidades de trabalho útil a sua transformação moral e ao tratamento emocional, para que experimentando situações diferentes de viver e sentir, com reflexos saudáveis das condutas vivenciadas, renove os seus impulsos e decida-se, verdadeiramente, pela adoção de novos hábitos.

Magaldi estava cotejando a fala do instrutor com a realidade de Luiz Fernando e compartilhou suas percepções sobre o tema.

- Estimado Cesar, como afetar o contexto externo que cada detento deixa ao ingressar na prisão? Pois todos os dias presenciamos os tentáculos do crime se estenderem dentro do sistema prisional, comandando de fora para dentro e respondendo de dentro para fora, autorizando assassinatos, fazendo famílias de presos reféns e outras atrocidades que patrocinam a permanência dos apenados no mesmo vórtice da criminalidade?

- Eis o ponto capital das soluções que um dia deverão ser implantadas, meu bom amigo Magaldi. Trata-se de programas sociais cujas sementes estão lançadas em muitas legislações já aprovadas no Brasil e com orçamentos suficientes para o amparo às vítimas do crime organizado, no entanto, padecemos de deficitária autoridade moral daqueles que as instrumentalizam e se apresentam como agentes públicos para a coordenação e realização de tais ações. São escassos os homens de bem. Existem, mas quando assumem a responsabilidade de liderar essas complexas e intrincadas estruturas atraem sobre si o ódio e a perseguição dos que nenhum interesse possuem de que as situações se transformem.

- Então, ao que percebo, estamos em uma situação de difícil equação, nobre Cesar?

- Sim, desafiadora, mas as gestões do Alto estão há décadas formando missionários do bem para a reencarnação e o envolvimento com tais missões no mundo, naqueles países cujo discurso, ao menos, pró direitos humanos já abriu caminho para a edificação de novos métodos de enfraquecimento do crime.

- Também, há a emigração dos Espíritos mais endurecidos no mal, como os Benfeitores Maiores da humanidade afiançam em suas lições nas obras fundamentais do Espiritismo. O maior de todos os desafios são os criminosos com aparência de pessoas decentes, que constroem impérios industriando os soldados do crime, aqueles que “sujam as mãos” e são apanhados mais facilmente. Tais criminosos, hoje, se encontram infiltrados nas hostes políticas, nos meios empresariais, nas organizações religiosas de maior expressão, nas forças de segurança e nos governos de muitos países. Esses são aqueles cuja inteligência policial em expansão tem se empenhado em rastrear e assim extirpar as raízes das florestas densas da criminalidade.

- O que temos notado, meu irmão Cesar, é que os trabalhadores do orbe que se devotam, verdadeiramente, a esse combate, têm estado muitas vezes presas de desânimo, pois embora os reveses impostos ao crime, a percepção de muitos deles é de que há uma proliferação exponencial dos núcleos delinquentes, e sentem-se como se cada segmento estivesse trabalhando a sós.

- Mais uma vez a sua observação é correta. Essa percepção é tão necessária, quanto educativa para os seareiros nela envolvidos. A visão do crime e de suas consequências é dantesca, capaz de comprometer até mesmo as mentes mais fortes. Dominar todos os contextos de misérias que os delitos espalham seria uma sobrecarga em demasia para qualquer ser humano. Imagine, por exemplo, os policiais que aguardam a aprovação de uma lei que trará maior apoio a sua atividade, proteção às suas vidas, saberem que alguns dos parlamentares que defendem o interesse da classe, na verdade, já estão em contato com uma rede criminosa, que será a maior beneficiária dos desvios e das lacunas que eles próprios, solertemente, inocularam no texto legal? E assim, meu amigo Magaldi, volto a frisar que a demanda urgente é de homens de bem e estes estão se aprontando em muitos segmentos da sociedade. Em breve começaremos a sentir os efeitos desta renovação.

- O bem é avassalador, basta uma gota no oceano do mal que ela se multiplicará. É a diretriz divina. Nosso mundo íntimo está requisitado a transformar-se em gotas que traduzam a fé, a coragem e a determinação de pensar, sentir e fazer o bem.

Magaldi ficou entregue às suas reflexões, pois sabia que estava prestes a acompanhar um drama a se anunciar com relação à reeducação de Luiz Fernando.

“A moral política não pode proporcionar à sociedade nenhuma vantagem durável, se não for fundada sobre sentimentos indeléveis do coração do homem.”[2]



Referências: [1] Allan Kardec. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução de Evandro Noletto Bezerra, FEB Editora. Cap IX. [2] Cesare Beccaria

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