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Náufrago em Resgate, cap. 4



Como se explica que no seio da civilização mais adiantada se encontrem às vezes seres tão cruéis quanto os selvagens? “Do mesmo modo que numa árvore carregada de bons frutos podem encontrar-se alguns defeituosos. São, se quiseres, selvagens que da civilização só têm a aparência, lobos extraviados em meio a cordeiros. Espíritos de ordem inferior e muito atrasados podem encarnar entre homens adiantados, na expectativa de também se adiantarem; contudo, se a prova for muito pesada, vai predominar a natureza primitiva.”[1]


A viatura parou diante do prédio que era composto de um único andar, espalhado pelo imenso terreno, cercado pelo muro alto onde se viam, dispostas em pontos estratégicos, as guaritas dos vigilantes.

Luiz demonstrava surpresa. Nunca vira uma prisão com as paredes limpas e bem pintadas, folhagens na entrada e, curiosamente, foi retirado do camburão pelos agentes sem as costumeiras estocadas de cassetetes.

Era olhado com frieza e de forma dura, mas isto era o mínimo. Estranhável era que até aquele momento não recolheu nenhum xingamento ou agressão física, tão comuns nas chegadas das transferências entre presídios, pois eram as formas dos carcereiros afirmarem o seu poder.

As oportunidades de redenção, que as almas recebem a cada reencarnação, são para que se devotem ao investimento na elevação moral de que carecem. Muitos dos servidores públicos, hoje atuando na esfera do sistema prisional, são prisioneiros de antanho. Muitos deles sorveram taças de fel em prisões abjetas, sendo humilhados, torturados das formas mais vis que a crueldade humana engendra. De retorno ao palco terrestre, em novo renascimento e colocados diante dos mesmos quadros onde experimentaram esses atrozes sofrimentos, ora com a missão de transformar as instituições prisionais e humanizá-la, por vezes se rendem aos instintos cruéis e passam a delinquir, agora, sob o abrigo da lei.

Luiz ainda estava meio zonzo com o efeito dos remédios que vinham lhe sendo aplicados desde o surto que tivera. Retesou as pernas para manter-se de pé.

Um homem de meia altura se aproximou e lhe indagou:

- Está em condição de caminhar cara?

- Sim estou.

O guardião segurou-o pelo braço e foi conduzindo-o para dentro da carceragem. Era um corredor limpo o que dava acesso a uma sala de ingresso e revista, sem alarde, sem palavrões, coisa difícil de encontrar no meio das comunidades carcerárias.

Ele recebeu roupa e material de higiene, foi para o banho sob vigilância e voltou a sentar diante do administrador onde recebeu as instruções para o período de reclusão.

Assim, Luiz Fernando, condenado a mais de 40 anos de prisão, fugitivo recapturado, com processos ainda em andamento iniciou o seu novo ciclo de aprendizagem naquele presídio onde os direitos do preso e o tratamento eram mantidos no estrito limite que conferia humanidade aos que ali estavam sob a tutela do Estado.

Encaminhado para a cela, tão logo entrou, viu um preso que deveria andar pelos seus 50 anos, olhar para ele com indiferença, os demais nem deram sinal de terem percebido a sua chegada. O homem que olhava resmungou: - mais um. Era assim que eles viam um aos outros, mais um para disputar o escasso espaço da cela.

Embora pequena, para Luiz a cela era um espaço confortável - quatro homens cada um com sua cama, ele nem precisaria revezar o turno para dormir e sentar. O gradil percorria um espaço estreito, mas que ocupava boa parte no alto da parede que dava para o pátio e percebeu que estava em um lugar onde havia uma organização mínima e possível nos objetos pessoais de cada um. Isso o pôs a pensar que como teria que ficar recluso mesmo, ia se comportar bem para continuar ali.

Estendeu-se no estrado de cama que lhe coube, pois há horas vinha encolhido no carro prisão que o trouxera. Ficou atento, pois sabia da perversidade e violência que normalmente imperava nas alas das prisões e certamente o chefe da cela ia testá-lo de alguma forma, Mas o silêncio era tal que adormeceu e só acordou quando alguém lhe tocava no ombro falando: - a ração, irmão.

Era o homem maduro, que o encarava quando chegou, tinha o cabelo black, com uma cicatriz que atravessava a face direita. Luiz olhou desconfiado e sentou-se na cama, enquanto o companheiro de cela lhe estendia a mão.

- Toni! Seja bem-vindo guri.

- Toni, eu sou Luiz Fernando! Se alguém pode ser bem-vindo a esses infernos, então eu sou. Agradeço.

- Aqui o inferno é menos quente, sabe? É só viver sem quebrar as regras dos “home", ajuntou Toni, com a voz calma de quem mede e avalia cada palavra.

Luiz esboçou um sorriso contrafeito e continuou a conversa enquanto recolhia o prato, percebendo que a “ração” era farta e de aspecto agradável. Huuum, também tinha um sabor muito bom.

Os dias foram passando e as condições do presídio foram sendo percebidas por Luiz Fernando. Era um lugar de regras rígidas, mas que se destinavam não ao castigo, mas à educação daqueles que delinquiram.

Toni adotou o jovem recém-chegado como se fora um filho, pois era uma alma carente de afetos. Como costumava relatar, "puxava cadeia” porque matou o genro e mais a amante do genro, após descobrir que ambos haviam matado sua única filha. Não falava dos detalhes, mas sabia-se que fora um crime bárbaro, de vingança e ele afirmava que não se arrependia.

………

A tarde de sábado estava fria. O agente passou nos corredores, informando: - religião, religião.

Toni se ergueu e disse: - hoje são os espíritas.

- Espíritas? Tem passe e defumação? Perguntou Luiz visivelmente interessado.

- É o Espiritismo de Allan Kardec, é outra coisa, é de mesa, falou Toni.

-Hum… e falam com os mortos?

- Aqui não, mas têm palestras e passes, preces… conversas boas.

- Vamos, tu vais gostar.


Referência: [1] Kardec, Allan. O livro dos espíritos Tradução Evandro Noletto Bezerra. (p. 396). FEB Publisher. Edição do Kindle. Euestão 756.

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