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Fraternidade - cap. 4



Nós trabalhamos para dar a fé aos que em nada creem; para espalhar uma crença que os torna melhores uns para os outros, que lhes ensina a perdoar aos inimigos, a se olharem como irmãos, sem distinção de raça, casta, seita, cor, opinião política ou religiosa; numa palavra, uma crença que faz nascer o verdadeiro sentimento de caridade, de fraternidade e deveres sociais. [1]


A paternidade é uma quadra evolutiva que descerra aos que lhe conferem atenção verdadeira os mais diversos panoramas para sensibilizar a alma e fazê-la experimentar alegrias e dissabores, sucessos e frustrações, prazeres e angústias, cada qual com o seu quinhão de contributo para a evolução. Nos reencontros que as vidas sucessivas ensejam, o aprendizado na escola do lar se prolonga para além da existência física e fortalece os laços que atravessam os séculos, vinculando-nos aos nossos afetos ou desafetos no sublime objetivo do afloramento do amor em todas as criaturas de Deus.

Tomás Flores em sua laboriosa ação para despertar o filho Telêmaco do letargo espiritual em que se demorava, logrou permissão para aproximar-se de Jorge Antonio, trabalhador espírita esforçado, simples, honesto e conhecedor dos infortúnios humanos, ocultos ou não.

- Onde andavas, Jorge? Vi que saíste sem café – indagava Diana, a esposa, ao vê-lo voltando da rua.

- Fui puxar conversa com o nosso vizinho da frente. Achei que ele estava precisando de um bom papo.

- Aquele aí da frente? Homem antipático. Pensa que é superior aos outros. Faz que não vê a gente. E falou contigo?

- Ah! Ele foi tomar um café comigo lá no Aniceto.

- Dona Lélia ainda conversa com a gente, os meninos também, mas ele... – sacudiu a cabeça e se afastou para o interior da casa.

Jorge ficou pensando, por algum tempo. Que dramas viveria aquele homem? Tinha aprendido, com a veneranda Doutrina Espírita, que há infortúnios ocultos que dilaceram a alma humana: a vaidade, a arrogância, o orgulho e seu cortejo infeliz. Sentia-se desafiado diante desses contextos e tinha certeza de que possuía um tesouro de conhecimentos que o tornavam responsável pela multiplicação dessas riquezas. E ali estava uma criatura miserável espiritualmente. Ele não desistiria.

- Tomás Flores ao ouvir os pensamentos do vizinho do seu filho emocionou-se e envolveu-o em vibrações de gratidão intensa, fortalecendo-lhe o ânimo para continuar no esforço de aproximação de Telêmaco.

Os dias e meses foram se passando e a situação se agravava cada vez mais no lar de Telêmaco. Dona Lélia ficou enferma, com cardiopatia grave, demandando cuidados e tratamentos que a família não tinha condições de prover, senão pelo Sistema Único de Saúde, com todas as dificuldades consabidas. Diante dos novos gastos, tiveram que dispensar a única auxiliar dos trabalhos domésticos que mantiveram até então. Telêmaco e os filhos, que nunca realizaram nenhum trabalho desse tipo antes, tiveram que se revezar nos cuidados da enferma e da casa. Como o bairro era uma comunidade solidária, os vizinhos foram assistindo, na medida do possível, a infortunada família.

O líder da casa vivia contrariado com essa situação. Sentia-se em débito com os vizinhos e isso era um sentimento deveras desagradável para ele, acostumado a mandar, exigir e ser obedecido. Além do mais, não conseguia trabalhar, não nos postos que buscava. Pela insistência de Jorge Antonio já conseguia conversar e confidenciar a ele as suas dificuldades, tecendo longo rosário de lamentações a cada manhã, quando se encontravam para o café na banca do Aniceto.

- Meu amigo, as lutas da vida exigem resposta.

- Que resposta, Jorge. A cada dia parece que tudo fica pior. Eu acho que já fiquei na Terra tempo demais. No dia que a fábrica queimou eu estava prestes a por um fim em tudo, arrependo-me de não ter feito.

- Telêmaco, as respostas que a vida exige precisam ser verdadeiras, não falsas.

- Não entendi.

- Você foi um homem de negócios. Quando as dívidas aumentaram você tomou empréstimos, não é verdade? Seus negócios melhoraram, cresceram? Não. Por que? Porque o empréstimo é um paliativo. O problema continuou, sem que você sanasse as causas do desequilíbrio das suas operações.

- Como você sabe?

- Você me contou parte da sua história. Eu estou intuindo o restante.

- Assim é o suicídio. É uma solução falsa, porque a vida não se resolve com a morte física. Ela continua com todas as dores, desafios, dissabores aumentados pelo crime cometido – sim – porque o suicídio é um crime.

- Ah! Eu não acredito nestas histórias.

- Você acha mesmo que veio a passeio, não é Telêmaco?

Ao ouvir essas palavras Telêmaco sentiu um arrepio. Aquele homem dizia as mesmas palavras do seu pai, outra vez.

Jorge Antonio já aprendera a identificar quando alguma entidade se aproximava, dada a sua condição de dirigente de reunião mediúnica no centro que frequentava. Mentalmente, entrou em oração, porque a sua sensibilidade dizia que aquele assunto com Telêmaco se revestia de gravidade e que ele precisava de ajuda.

- Você não está só, nós nunca estamos sozinhos, meu irmão. Confia que há uma força superior que nos ampara e nos conduz às soluções verdadeiras para os problemas da existência. Eu quero te fazer um convite. Lembra-te de que o primeiro que te fiz, não te decepcionei. Você ficou fã do café do Aniceto, disse Jorge com um sorriso maroto.

- Você quer ir ao Centro Espírita comigo?

Telêmaco arregalou os olhos e ficou sem saber o que responder.

- Calma, é só uma palestra, nós fazemos preces juntos e se você quiser pode receber uma transfusão de energias que nós chamamos passe.

Telêmaco ficou de pensar. Estava decidido a não ir. Era demais para ele. Onde iria parar? A pobreza, a doença e agora envolver-se com misticismo. Que resposta a vida queria dele?

Naquela noite ele dormiu e sonhou. Sonhou com seu pai. Via o velho Tomás Flores em torno de uma mesa grande como a que tinha na antiga casa onde cresceu e viveu até ser praceada para pagamento das dívidas. Ao lado de Tomás estava Jorge Antonio e outras pessoas que ele não conhecia. Quando acordou não se lembrava de mais nada, a não ser a cena que ficou vívida na sua mente. Foi conversar com Jorge e perguntou-lhe se ele conhecia seu pai. Contou o sonho e referiu que Jorge já pronunciara duas vezes a frase que o pai lhe dizia.

Jorge Antonio falou-lhe das visitas que os chamados mortos fazem aos vivos, dos laços espirituais, da sobrevivência da alma e o fez de uma forma tão racional, que pela primeira vez ele encontrava algo de coerente em relação a esses temas.

Identificando os sinais da dúvida benéfica no interlocutor, Jorge não perdeu tempo e ofertou-lhe um exemplar de O livro dos espíritos. Após vencer a resistência inicial, Telêmaco abriu a obra. Correu os olhos pelos sumário e um título lhe chamou a atenção: “ Provas da existência de Deus”. - Eis um assunto que me interessa, pensou consigo. Sempre recolhera do pai uma fé e uma devoção que considerava pieguice, alinhando-se com as ideias da sua mãe, materialista e que o influenciara muito na postura avessa ao cultivo dos valores espirituais.

Lidas uma após a outra as questões foram lhe fazendo sentido, auxiliado que estava pela presença dos Espíritos amigos e benfeitores do centro espírita frequentado por Jorge e por Tomás. Num impulso, ergueu-se e foi para a janela contemplar a natureza, percebendo que nunca havia feito isso com o ânimo que o inspirava naquele momento. Tudo parecia estar diferente ou visto pela primeira vez: a cor do céu, o formato e o colorido das flores nas árvores da rua, até as pessoas que transitavam na calçada. Contextualizou a resposta à pergunta 9: “Tendes um provérbio que diz: Pela obra se conhece o autor. Pois bem! Vede a obra e procurai o autor. É o orgulho que gera a incredulidade. O homem orgulhoso nada admite acima de si e é por isso que se julga um espírito forte. Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater!”[2] Verdade, exclamou! Eu sou esse pobre ser, abatido. Quem sabe essa inteligência superior de tantos atributos pode me socorrer?

Pela primeira vez, atravessou a rua e foi em busca do novo amigo. Quando Jorge atendeu à porta, sentiu um abraço espiritual que já estava acostumado a perceber. Era Tomás, agradecido pelo passo importante que o filho estava dando.

- Vim aceitar o teu convite.


Referências: [1] (KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1863 – 1. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005. – janeiro de 1863.) [2] Kardec, Allan. O livro dos espíritos (p. 60). FEB Publisher. Edição do Kindle.

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