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Fraternidade - cap. 3



Telêmaco olhava a rua deserta. Era muito cedo, mas não conseguia conciliar o sono. Tivera uma noite difícil, com as preocupações se intensificando e os pensamentos que o fizeram rolar na cama insone. Sentou-se nos degraus da porta da frente da casa, desanimado. Os recursos materiais diminuíam, rapidamente, mesmo com todos os cortes nas despesas, e ele tinha que decidir uma forma de manter os custos da casa.

Experimentava, agora, as angústias que ouviu tantas vezes dos colaboradores da fábrica e menosprezava, achando que as reclamações eram atitudes de gente preguiçosa e que não gostava de trabalhar. Nunca tivera essa aflição, de chegar ao final do mês e não ter como pagar as contas vencidas. Era, para ele, uma experiência tão nova, quanto incômoda.

Buscou os antigos amigos e conhecidos para que lhe conseguissem um emprego na área de gestão de empresas similares a que conduziu nos últimos anos, porém a fama de um empresário fracassado e com métodos duvidosos de liderança de equipes já o havia precedido, o que foi lhe fechando todas as portas. Percebia, agora, a extensão dos erros cometidos e o quanto eles afetavam a sua vida.

Cabisbaixo, olhava para a ponta dos sapatos, quando ouviu passos que se aproximavam e duas pernas pararam na sua frente.

- Poxa, pensou - Não me falta mais nada alguém vir pedir alguma coisa.

- Bom dia, vizinho! Um café pelos seus pensamentos.

Ergueu a cabeça, contrafeito, e ensaiou um sorriso amarelo.

- Vamos até a banca do Aniceto, aqui na esquina, apanhar o jornal e quem sabe tomar um café. Ah, o café do Aniceto é o melhor do bairro!

Telêmaco ficou olhando para o rosto do homem que tinha um sorriso aberto, um bigodão farto, espalhado sobre os lábios avantajados e achou a aparência amistosa, embora vulgar como todos, aliás, pareciam para ele, se não fosse da sua classe social.

Era o vizinho que morava na frente da sua casa e já o vira outras vezes, mas não tinha para com ele nenhuma intimidade ou convivência, até porque era tão superior àquela gente, que não carecia de qualquer aproximação. A esposa Lélia e os dois filhos, ainda adolescentes já se relacionavam com os novos adjacentes, porém ele quando sentia que algum morador esboçava uma atitude de aproximação virava o rosto ou se afastava ligeiro, fingindo não ter se dado conta dos gestos de boa vizinhança que lhe eram endereçados.

Naquela manhã, no entanto, estava tão mal que pensou consigo mesmo nada ter a perder em aceitar o convite daquele homem sorridente e falastrão. Ergue-se e sem dizer palavra foi acompanhando o vizinho que andava rápido e tagarelava sem parar.

- Como é o seu nome, por favor?

- É mesmo, nem me apresentei. Sou Jorge Antonio e você.

- Telêmaco.

- Telêmaco, tenho procurado me aproximar de você, mas sinto que não é esta a sua vontade, não é mesmo? Não se perturbe. Este é só um convite para um café. Depois se você quiser voltar e não ter qualquer convivência comigo respeitarei. Só precisava dizer que podes contar comigo. Já deves ter percebido que formamos uma comunidade bem unida aqui na rua e que isso é um benefício para todos.

Em silêncio Telêmaco pensava o que poderia receber de auxílio daquela gente simples, o que teriam eles para dar-lhe, mas foi até a banca e provou o famoso café do Aniceto – era verdadeiramente um sabor excelente. Animou-se e foi indagando Jorge Antonio, com segundas intenções, como sempre fazia, para identificar se poderia retirar alguma vantagem desse relacionamento.

Jorge disse-lhe ser motorista particular e fazia atividades para algumas empresas e também para particulares, com os quais mantinha contratos regulares a bastante tempo. Telêmaco, a seu turno, achou melhor não revelar a sua situação, dizendo apenas que tinha ficado sem emprego, pois a empresa que trabalhava fechou e agora buscava uma nova oportunidade.

- Posso lhe recomendar alguns lugares, tenho conhecidos.

Telêmaco brilhou os olhos e imaginou uma saída para a sua situação, mas quando Jorge foi abrindo o jornal e olhando os anúncios de empregos, perguntando-lhe qual a função pretendida, a resposta foi imediata.

- Gerência, direção, gestão, nessa área.

Jorge ficou olhando o seu interlocutor e foi fechando o jornal lentamente enquanto dizia.

- Meu irmão, esse já é outro terreno, no qual eu não consigo mesmo te ajudar. Imagine que estavas buscando um recomeço, oportunidade de mostrar o teu valor. Esses cargos de chefia que almejas ao que eu sei advêm depois de uma análise judiciosa de competência e depois que a confiança se estabelece. Mas pode ser que tenhas um currículo que propicie isso, como te disse é uma área que não conheço.

Telêmaco balançou a cabeça em sinal de discordância com as afirmações do vizinho.

- Agradeço-lhe o alerta, como você mesmo reconhece, não transitas nessas esferas de relações onde essas coisas se decidem com uma boa indicação. Eu tenho apadrinhamento, sabes? Podes emprestar-me o jornal?

- Claro, fique a vontade! Desejo-te boa sorte! A vida não está fácil. Não se vem ao mundo a passeio, Telêmaco, como dizia um homem bom que conheci há tempos.

Afastou-se, rapidamente, deixando o orgulhoso desempregado esquadrinhando o jornal aos resmungos.

- Gente bronca! Onde mais eu seria admitido nas empresas?

Tomás contemplava o filho e agradecia a Deus a aproximação de Jorge Antonio, aquele homem simples e bom, que captara a sua mensagem para Telêmaco, e que certamente voltaria a insistir com aquele coração rebelde e egoísta e quem sabe... quem sabe.

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