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A coragem para ser bom - cap. 9



Somente a fé na vida futura e na Justiça de Deus, que jamais deixa o mal impune, pode nos dar forças para suportarmos com paciência os golpes desferidos nos nossos interesses e no nosso amor-próprio. É por isso que dizemos incessantemente: Lançai o olhar para diante; quanto mais vos elevardes pelo pensamento, acima da vida material, tanto menos vos magoarão as coisas da Terra.[1]


Antonio César dirigia rápido por uma picada aberta na mata, em direção ao heliponto clandestino. A tensão era imensa, o tempo estava se esgotando, em breve a polícia chegaria e ele precisava decolar antes.

- Você faz o seu papel direitinho, Nice! Preciso que fiques livre de qualquer suspeita, pois vais comandar o negócio em meu lugar e não podem suspeitar de ti.

- Não sei se vou conseguir, eu estou assustada, ainda. Não me avisaste desse plano, eu quase morri quando entraste na sala e me ameaçaste.

- Deixa de “chilique”, que não é hora para isso. Se te dissesse o plano tu não terias conseguido aparentar a surpresa. Não és tão boa atriz assim. O otário do teu pai é perspicaz, ia logo perceber o teatro – sorriu com ar de desprezo.

- Não sei Antonio, estou me sentindo muito mal.

Nice, naqueles instantes pode ver a natureza perversa do pai do seu filho, foram momentos breves, mas deixaram a mostra com quem estava envolvida. Aproximara-se, de forma imprudente, de um foco perigoso e doentio e já começava a sentir os reflexos disso.

Avistaram o monomotor já com as hélices em movimento, dando a ambos a noção de que o plano dera certo.

- Agora você se joga no chão e chore, chore muito até eles chegarem e te resgatarem. Eu te darei notícias e instruções – disse Antonio descendo da camionete e correndo para a aeronave. Via o vulto do piloto já a postos e quando colocou o pé na escada viu o cano da arma apontado para ele.

- Perdeu, perdeu. Para o chão.

Deu meia volta e viu a coluna de policiais saindo da mata e fazendo o cerco. Tinha sido descoberto.

Nice observava tudo de dentro do carro e permaneceu ali encolhida, simulando um medo que estava longe de sentir, continuando com a farsa, já nem sabia o porquê, talvez para não ser incriminada, ou talvez estivesse verdadeiramente comprometida com os planos de Antonio.

De longe dava para ver um corpo no chão, em meio à clareira de mato e ficou imaginando quem seria, possivelmente um dos capangas de Antonio, mais isso não lhe dizia respeito.

Começou a sentir um formigamento nos braços e pernas e um torpor, que a dominava. Era uma sensação conhecida, porquanto desde criança experimentava esses episódios durante os quais ouvia vozes e, algumas vezes, percebia vultos a sua volta. Frequentou a evangelização até o início da juventude, sabia ter uma faculdade mediúnica a ser educada, mas com temperamento rebelde, assumindo a responsabilidade plena pelas suas ações se desvinculou de qualquer cuidado com o talento recebido.

Naquele momento as palavras de ódio eram captadas pela moça, açulando os ânimos e instigando a permanecer enovelada nas teias do crime para onde fora atraída.

- Nem pense em sair fora, agora você é nossa, ou vai se ver conosco.

As vibrações emanadas do Espírito obsessor eram ampliadas pelo estado mental e moral da médium e se refletiam no corpo físico, provocando sensações de sufocação, dor e náuseas intensas.

Nice, em pânico, desceu do carro cambaleando e foi socorrida pelos agentes da lei, que atribuíram o seu estado a um surto decorrente das circunstâncias ali vivenciadas.

O sicário invisível ficou satisfeito diante do encaminhamento dos fatos, agora era mantê-la sob vigilância e para tanto precisava afastá-la daquela fortaleza - essa era a denominação dada pela falange infeliz à casa de Nivaldo e Fernanda.

A última imagem que Nice teve do local da prisão de Antonio Cézar foi a do companheiro entrando algemado no furgão policial e um corpo envolto no saco para cadáver, sendo colocado no carro da perícia. As emoções vividas extenuaram-na e a equipe de atendentes sob a orientação de Dinah se aproximaram criando um momentâneo escudo vibratório para afastar a malta de entidades enfermas, e provocaram na gestante um estado de sonolência para relaxamento de tensões e proteção ao reencarnante que ela acolhia no ventre. O cenário conectado aquele socorro e visualizado pelos seareiros do bem, em socorro à Nice, era a imagem de Fernanda, na sala de espera do hospital para onde Nivaldo fora levado, em profundo estado de oração a envolver naquele momento a filha, o neto de cuja existência recém tomara conhecimento, o marido em atendimento médico e o filho de quem não sabia notícias.

O ambiente espiritual era de uma beleza indescritível, Fernanda estava imersa em luminosidade e via-se com ela a presença de uma entidade benfeitora, sustentando-lhe as forças. Médium, identificava nos momentos de suas muitas lutas a presença desse Espírito, que se apresentara a ela como Leonor e a quem amava como a uma mãe espiritual a lhe amparar a trajetória terrena.


Referência:

[1] KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo (Portuguese Edition) (p. 164). FEB Publisher. Edição do Kindle. “Amai os vossos inimigos”.

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