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A coragem para ser bom - cap. 11



Os laços de família não sofrem destruição alguma com a reencarnação, como o pensam certas pessoas. Ao contrário, tornam-se mais fortalecidos e apertados.[1]

 

A luz pálida da manhã entrava pelas vidraças do quarto do hospital onde os enfermeiros já atendiam os pacientes, verificando sinais vitais e administrando as medicações prescritas. A noite se entregava nos braços do dia, renovando os corações para prosseguirem nas boas lutas.

- Mãe como está o meu pai?

- Está bem, com alta e vamos para casa, se você também estiver liberada pelo médico.

- Parece um pesadelo isso. Sabes que o Antonio foi preso? Ele não conseguiu fugir, estava tudo preparado, alguém deu o serviço. Sempre tem um traidor no meio - falava Nice com rancor.

- Então, minha filha, as relações entre as pessoas assumem as cores do caráter de cada um. Pessoas nobres são leais, amigas, gratas; criaturas viciosas são dissimuladas, traidoras, mentirosas, falsas; só damos aos outros o que temos.

Nice mordeu o lábio e desviou o olhar, por mais contrariada estivesse sabia estar a mãe com a razão. 

- Alguém morreu, a polícia matou gente, eu não vi quem era, mas pude ver o corpo à distância.

 Fernanda tinha os olhos vermelhos, inchados e ao se aproximar da cama, Nice percebeu o sofrimento da mãe, que até então lhe passara despercebido.

- Nossa! Mãe, como você está sofrida. Já passou! Tudo vai ficar bem.

Apesar da leviandade e rebeldia, Nice amava os pais e tinha uma admiração profunda pela capacidade de compreensão desenvolvida por ambos em relação às mazelas humanas, aos erros e as faltas deles próprios que eram filhos. Tantas vezes se surpreendia no empenho de tirar a mãe do sério, para interromper os diálogos, quando não lhe interessavam, sem conseguir, apenas colhendo o silêncio e as orientações firmes e difíceis de contra-argumentar.

- Vai, sim, minha filha, tudo vai ficar bem, embora não como pensas - respondeu Fernanda, segurando as lágrimas.

- Como assim, mãe? Bem é bem – sorriu Nice, querendo quebrar a seriedade do momento.

- Filha, seu irmão, ele... ele está morto.

- O que? – Nice se ergueu devagar, sentando na cama – O que aconteceu com ele, mãe? Fala. – intuitivamente veio-lhe a mente a cena do saco de corpo sendo colocado no carro da polícia – não, não podia ser – Valdinho tinha nada a ver com Antonio – uma avalanche de ideias lhe assoberbava a mente

- Não sabemos ainda o certo, vamos falar com o Delegado assim que sairmos daqui, mas, ao que tudo indica, ele fazia parte da mesma quadrilha do Antonio César e reagiu a tiros quando a polícia chegou.

Nice estava em choque. Nunca soubera que o irmão estava envolvido com Antonio nas atividades ilegais exercidas pelo namorado. Algumas vezes via-os conversando durante as idas de Antonio à casa dos seus pais, mas pensava ser conversas normais entre cunhados. Como revelaria para a mãe a sua participação nesses crimes, o falso sequestro, as combinações prévias com Antonio antes da tentativa de fuga. Deus! Onde estava metida.

O vórtice de provações da família Cerqueira demandava intensa movimentação dos amigos espirituais encarregados da reencarnação do clã.

Nice e Valdinho eram almas com severos compromissos no terreno da honestidade, alto índice de ambição e demais fatores nascidos do egoísmo e do orgulho. Viveram os tempos da Revolução Farroupilha, onde também foram irmãos – Joaquim e Açucena - e a atual existência foi planejada para amainarem as cruezas dos males praticados antanho.


Referência:

[1] Allan Kardec. O evangelho segundo o espiritismo (Portuguese Edition) (p. 78). FEB Publisher. Edição do Kindle.

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