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Sob as bênçãos de Deus - Cap. 12 - Parte 1



Para aquele cuja consciência não está pura, a perturbação é cheia de ansiedade e de angústias, que aumentam à medida que ele reconhece a sua nova situação.[1]


O velório de Leontina e a cerimônia de cremação foram as derradeiras festas, dentre as muitas que ela patrocinou. A multidão de conhecidos e curiosos, que queria ver como ela havia ficado depois do longo tempo de enfermidade, revezou-se – o ser humano tem laivos de morbidez extrema -, mas foi frustrada em seu intento. Jean imaginando que a mãe não gostaria de ser lembrada com a aparência atual autorizou as cerimônias com o ataúde fechado, espalhando muitas fotos dos tempos “gloriosos” pelo espaço do funeral.

Os laços que retêm o corpo físico vão se tornando frágeis com o longo tempo de cativeiro imposto pela enfermidade e esses são momentos cruciais para as decisões do Espírito, que pode aproveitá-los para revisitar suas ações e recolher as orientações dos seres espirituais, que ladeiam consigo na experiência em curso, seja o anjo guardião, sejam os familiares em condições de auxílio, sejam os próprios inimigos – pedagogos que são – e que se aproximam ante o erguer do véu do esquecimento que a matéria enseja. Mas, alguns, como Leontina, no ápice da rebeldia, afundam-se na revolta incontida, ampliando o raio de ação da egolatria, julgando-se vítimas e fazendo-se surdos aos apelos da fraternidade dos que os amam e desejam tratá-los.

- Imaginei que ela seria adormecida nesse momento de transição, Deboni, considerou Emília.

- Esta era a previsão inicial, quando planejamos o acompanhamento para o desenlace, ela adormeceria e seria despertada pela sua mãezinha, a fim de que o carinho maternal pudesse tocar as cordas da sensibilidade, facilitando o começo dos estágios do resgate - arrependimento, expiação e reparação - mas não logramos ponto de adesão a essa terapêutica, em razão do elevado índice de revolta e irresignação a inibirem as emissões mentais e afetivas necessárias para a conexão com os processos de tratamento.

Leontina traduzia extrema agitação à medida que os enfermeiros espirituais iam realizando o procedimento para desatar os últimos liames com o corpo. Embora ainda se ressentisse muito dos efeitos da doença, sem as amarras físicas com a matéria densa assemelhava-se a um balão sem rumo, batido pela ventania das ações intempestuosas que pautaram sua existência. Fragilizada, olhava em torno sem entender o burburinho das conversas fúteis, especulações e até piadas de mau gosto que compunham a atmosfera do velório. Sentia-se dentro do esquife, coberta de flores, e quando alguém pronunciava o seu nome era como que arrebatada com violência e lançada em meio a sombras que gargalhavam ao seu redor, estendendo mãos que a seguravam, e novamente voltava a se ver deitada no ataúde, sendo repetidas vezes submetida a esse vórtice de sensações, que a levaram a um cansaço extremo.

Emília fora poupada dessas cenas para que a sua recuperação ainda em fase incipiente não se afetasse, pois era necessário o seu refazimento para os cometimentos futuros em relação ao auxílio à Leontina, caso ela assim acedesse.

Mas o socorro sempre chega, e por vezes, de onde menos se evidencia, pois que ainda conhecemos pouco sobre a Misericórdia Divina e seus roteiros nos continentes da Criação.

Jean, após travar renhido conflito com os sentimentos até então sufocados e que teimavam em aflorar com a morte da mãe, foi adormecido por Deboni e sua equipe e com o desdobramento facultado pelo sono foi levado a um momento de atendimento fraterno onde se viu amparado por Emília, com a cabeça deitada no seu colo como fazia ao tempo de menino. Recebendo transmissões fluídicas, aplicadas diretamente nas regiões conectadas aos sentimentos, deixou fluir as lágrimas e o relato sofrido que traduzia as suas dores mais íntimas. Deboni recolheu os lamentos do jovem e com sua característica já tão conhecida de garimpar as gemas preciosas em meio à ganga dos sentimentos alheios, foi apontando a Jean todos os elementos nobres e valiosos que o rapaz carregava consigo, traçando paralelos entre as chances que aqueles instantes lhe propiciavam e a condição de felicidade que eles poderiam produzir, caso a escolha fosse a adequada.

- Meu amigo, olhe para frente, construa o futuro com os melhores “insumos” - para usar um termo familiar a você. És um construtor, Jean, ou pelo menos é para isso que te preparas. Não agregas às edificações que fazes materiais e serviços com componentes deteriorados ou predispostos a corromper as estruturas, não é mesmo? Assim é o futuro. A mágoa e o ressentimento comprometem qualquer projeto de vida. Se o passado trouxe sofrimento, se o presente se ressente das ações que não refletiram de forma que gerem a coragem e a pacificação íntima, não condenes o futuro aos mesmos dramas vividos hoje.

Jean soluçava, ouvindo o bondoso médico, e murmurou:

- Não sei se já não é muito tarde, para mim. Sinto-me mergulhado num fosso profundo de descrença e de angústias.

- Sim, Jean! Temos imensas dificuldades em compreender os desafios existenciais, especialmente quando vivemos no seio de famílias bem sucedidas financeiramente e não lutamos com as privações materiais, não experimentamos quaisquer dissabores no campo da sobrevivência física. Essa é uma prova gigantesca, porque frequentemente deixamos que as facilidades nos amolentem os valores verdadeiros da vida. A riqueza é um resvaladouro fácil para a indiferença moral, para a egolatria e todos os abusos dela decorrentes.

- Na verdade, Senhor... - Deboni, Jean, pode tirar o senhor!

– Sim, Deboni, eu nunca me senti feliz por ser rico. Fui usando a riqueza como fuga para tentar suprir a falta de afeto que sempre me machucou.

Deboni aproximou-se de Jean que permanecia com a cabeça reclinada no colo de Emília e segurou suas mãos, fazendo-o se erguer e se aproximar da grande janela que dava para o parque do posto de atendimento, de onde se descortinava a imensidão do infinito. A visão era belíssima. A janela era recoberta por uma tela que se assemelhava a uma tela telescópica, mas com a possibilidade de verificar os detalhes do grande bosque, cheio de flores, árvores frutíferas, a policromia e as sonoridades múltiplas dos gorjeios dos pássaros, bem como as galáxias, constelações, planetas, enfim, a perder de vistas.

- Claro, e você tem razão! Mas veja que esse uso foi no sentido de criar uma gaiola dourada, quando você poderia ter engendrado asas que te fizessem livre desses sentimentos inferiores que te retêm no fosso ao qual te referes. Felicidade, no sentido de ausência de lutas e desafios, não existe Jean. Isso é uma filosofia enganosa que o materialismo criou para que as suas garras se fechem em torno das criaturas desavisadas, manipulando-as e alastrando os seus efeitos danosos sobre a humanidade.

- Jean respirou profundamente e ficou contemplando a beleza que se descortinava ante os seus olhos.

- Como apagar tudo o que vivi, Deboni?

- Não deves e nem precisas apagar qualquer coisa. As experiências são os recursos abençoados do tempo, que ajudam a desenhar novas rotas e se convertem em bússolas para que não venhamos a cair em outros fossos profundos; ensinam a evitar abismos ou a transpô-los em segurança. Teu coração anseia pelas bênçãos do amor. Pois bem, não tivestes o amor de pai e mãe, que tanto desejas, mas não estás impedido de cultivá-lo no templo do teu lar, devotando-te a tua família, experienciando a paternidade, recolhendo os frutos doces do amor filial, mas para isso deves romper essas cadeias que forjaste com as dores sofridas. Não há o que fazer com o passado, meu filho, senão compreendê-lo, e quando puderes perdoar, pois essas amarras detêm o teu passo e não consegues avançar, te distanciando dessas paragens tão rudes e amargas.

Jean acordou com uma sensação de que precisava voltar logo para junto da mãe, nem sabia bem para quê. Entrou no espaço do crematório e ficou aturdido com o barulho das conversas que se somavam formando uma verdadeira algazarra. A sua presença agitou ainda mais os ânimos, pois as pessoas queriam prestar-lhe os cumprimentos protocolares para o momento e o cercaram. Ele cambaleou, atingido por dardos mentais que lhe eram arremessados pelas mentes invigilantes e de tocaia para julgarem os sentimentos e situações que lhes não diziam respeito. Respirou profundamente e se recompôs para atender às exigências sociais.

Quando os mais afoitos encerraram as manifestações de condolências, uma mulher se aproximou e Jean sentiu que uma onda de calor o envolveu, fazendo-o relaxar a tensão que se estabelecera no embate com as vibrações da turba que o cercara. Era Marisa, a vizinha dos Monteiro na praia, a mesma que socorreu a governanta e os criados no dia do acidente de Leontina, pacificando os ânimos e auxiliando nas primeiras providências.

- Jean, boa noite! Você não me conhece, mas eu falei consigo no dia do acidente da sua mãe. Sou Marisa, a vizinha de vocês na casa de praia. Você está há tempos ai, em pé, recebendo as pessoas, penso que precisas sentar em algum lugar mais tranquilo. Deixe-me acompanhá-lo?

Marisa falava inspirada por Deboni que já havia acessado a sua faculdade mediúnica nos últimos dias, buscando uma forma de ajuda ao jovem filho de Leontina. Jean era arredio à aproximação de estranhos, mas o envolvimento da equipe espiritual arrefeceu o ânimo de isolamento que lhe era peculiar e sem mesmo racionalizar a resposta aceitou o convite.

- Por favor, dona Marisa, ajude-me a sair daqui, estou zonzo com esse ruído de vozes, de risos.

Marisa o segurou, fraternalmente, pelo braço e o conduziu para uma das dependências reservadas aos familiares, até o momento vazia.

Leontina, no auge da perturbação que estava vivendo, identificou a presença do filho e o pensamento se enovelou ao do jovem, requisitando-lhe ajuda para sair dali, mesclando os pedidos com recriminações, lamentos, gritos, que Marisa registrava com clareza graças a sua faculdade e que Jean percebia apenas como um mal-estar e uma lassidão que lhe retirava as forças.

- Jean, o que você que fazer nesse momento?

- Eu queria que todos fossem embora dona Marisa e que eu pudesse me aproximar daquele caixão e falar para a minha mãe tantas coisas que eu deveria ter dito, esclarecido, perguntado durante toda a minha vida. Mas sempre foi assim. Ela vivia em festas, viagens, cercada de gente e nunca sobrou tempo para mim e nem nesse momento final eu posso ter um minuto para com ela. Eu nunca fui de acreditar nessas coisas de Espíritos, de vida após a morte, mas inexplicavelmente eu sinto que preciso conversar com ela, dizer o que penso.

As lágrimas corriam pelo rosto do jovem, os soluços irromperam como se estivessem quebrando uma barreira erguida com muitos silêncios e omissões ao longo dos anos.

- Jean, você pode pedir, sim, esse momento de intimidade com a sua mãe. Se você me autorizar eu farei isso, em seu nome. Posso?

-Deboni mantinha as mãos impostas sobre o centro coronário do rapaz, vitalizando as suas decisões.

- Peça, dona Marisa, por gentileza, faça isso por mim?

Após algumas intervenções dos administradores do local e da fala cortês, mas firme de Marisa, a multidão que consumia os petiscos e bebidas regiamente servidos se retirou a contragosto, execrando a atitude do filho da defunta.



Referência: [1] Kardec, Allan. O livro dos espíritos (p. 136). FEB Publisher. Edição do Kindle. Pergunta 165.

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