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O centro espírita e a fidelidade à Doutrina Espírita




Vinícius Lima Lousada[1]

  

Jesus viu Natanael, que vinha até ele, e diz a seu respeito: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há malícia. (João 1:47)[2]

  

Começamos esta reflexão recordando este apóstolo do Mestre, Natanael ou também conhecido como Bartolomeu, que era de Caná da Galiléia, região então sob o domínio de Herodes Antipas.

Natanael conheceu Jesus por intermédio de Filipe que, por sua vez, havia lhe referido haver encontrado o Messias, fato que, por condicionantes culturais, o então candidato a discípulo colocou em dúvida pela forma depreciativa como os galileus viam Nazaré. Quando Jesus encontrou Natanael, destacou a sua condição moral de israelita que vivia fielmente a Lei, sem inclinação para o mal. Era, certamente, alguém comprometido com a vivência cotidiana do bem, como recomendação comportamental recolhida na observação das escrituras.

Segundo as demais anotações de João, Jesus revelou a Natanael já tê-lo visto enquanto estava sob a figueira com Filipe e vaticinou o que mais ele testemunharia, acompanhando-o. Imaginemos as impressões que causaram na alma de Natanael esse diálogo franco com o Mestre e o fato da dupla vista[3]… Sim, Jesus era o Messias aguardado e era necessário caminhar com Ele!

A fidelidade às Divinas Leis, reconhecida por Jesus em Natanael, deve ser compreendida também como uma meta necessária ao espírita e seu voluntariado no centro espírita, especialmente se considerarmos o sentido desta veneranda instituição que tem por missão estudar, praticar e divulgar o Espiritismo, consoante as suas bases.

O Espiritismo, enquanto filosofia profunda lecionada pelos Espíritos Superiores, revela-nos Leis Morais que devem ser objeto de estudo do homem e da mulher de bem, comprometidos com o desenvolvimento lúcido de seu progresso espiritual. As leis relacionadas à matéria são alvo de pesquisa das ciências, importante para a evolução do ser e da coletividade, todavia, é bom lembrar o que registra Kardec: “Todas as Leis da Natureza são Leis divinas, visto que Deus é o autor de todas as coisas. O sábio estuda as leis da matéria, o homem de bem estuda e pratica as leis da alma.”[4]

A respeito disso, o nobre Camilo postula:

 “O Espiritismo, ao considerar o concerto das Leis Morais, leva os espiritistas, encarnados ou não, a verificar a sua pujança capaz imprimir a convicção de que, de fato, todas aquelas leis se acham fixadas na profundeza da alma humana, na consciência do ser, facilitando-nos a vivência dos preceitos divinos e, ao mesmo tempo, instigando-nos a agilizar essa vivência, sem desculpismos, mormente nesses dias terrestres em que a alma estagia nas faixas da parvoíce, do comodismo, da baixa moral e da insensatez pelos caminhos planetários.”[5]

 

Nas Leis Morais, aprendemos que um de nossos desafios é reconhecer os limites que a Natureza nos impõe[6], de forma que para satisfazer excessos de ordem variada, norteados pelo orgulho e egoísmo, criamos falsas necessidades passando ao largo do que nos é verdadeiramente útil e condizente com o que precisamos. Extrapolar o limite do necessário é algo que comumente fazemos na vida privada e na coletividade, levando em conta a nossa condição de Espíritos imperfeitos. Até mesmo em nossa relação com a Doutrina, no centro espírita, podemos incorrer em situações nas quais avançamos o sinal delimitado pela razão.

Considerando a responsabilidade espiritual que advém da gestão e dos demais trabalhos desenvolvidos no centro espírita, pois somos Espíritos em evolução, que aspiramos crescer continuamente, e sabemos que o centro espírita surge em nossas vidas como agência educativa na qual aportamos conforme o nosso planejamento reencarnatório, onde estabelecemos o gênero de provas[7] importantes ao nosso processo reeducativo, devemos sempre atentar para a função tríplice do centro espírita em tudo o que nele nos propusermos a fazer: estudo, prática e difusão do Espiritismo.

Fora desta tríade, estaremos extrapolando as finalidades do centro espírita, transformando-o em algo que não deva ser, muito próximo ao que são determinados clubes de serviço, embora respeitáveis, mas estes se apresentam descomprometidos com a formação de uma mentalidade nova, calcada na apropriação intelecto-moral da Ciência do Infinito e na promoção de uma cosmovisão alicerçada na vida futura.

Assim, é indispensável o cultivo do bom senso kardequiano por parte dos dirigentes espíritas a fim de que, onde estejam atuando, ajam desapaixonadamente em relação a ideias particularistas que surjam e na condição de lideranças necessárias, aquelas que orientam ações e projetos de trabalho voltados às legítimas necessidades do centro espírita e da comunidade em que ele está inserido, tendo por filtro a sua missão institucional.

Vigiemos muito e cultivemos no centro espírita a fidelidade ao ideal esposado. Ensinava o mestre Allan Kardec que “O fim essencial do Espiritismo é tornar melhores os homens. Nele não se procure senão o que possa concorrer para o seu progresso moral e intelectual.”[8] O mesmo vale para o centro espírita, o que fugir desta advertência do distinto codificador do Espiritismo não deve pautar nossos estudos e vivências relacionados à tão nobre instituição dotada de graves compromissos para a partilha dos saberes da Doutrina do Consolador.

Recordemos ainda, na mesma linha de advertência, o que ensinava o bom São Luis, guia e protetor da Sociedade Espírita de Paris, conduzida no plano físico por Kardec: “Jamais terei por demasiado concitar-vos a que façais do vosso um centro sério. Que alhures se façam demonstrações físicas, que alhures se observe, que alhures se ouça: entre vós, compreenda-se e ame-se.”[9]

Desse modo, a fidelidade ao Espiritismo que nos cabe consiste em: fazermos todo o esforço para compreendê-lo em sua inteireza, através do estudo permanente de suas obras fundamentais; vivenciá-lo de forma coerente com a ética lecionada por Jesus e difundirmos o pensamento espírita de forma íntegra, sem personalismo e comprometimentos com ideias e práticas estranhas à Filosofia Espírita.


Referências:

[1] Vice-presidente de Unificação da Fergs.

[2] O Novo Testamento. trad. Haroldo Dutra Dias. FEB. Edição do Kindle.

[3] Fenômeno estudado por Allan Kardec, referido em A Gênese, cap. XV, itens 5 a 9.

[4] Kardec, Allan. O livro dos espíritos. FEB Publisher. Edição do Kindle, questão 617.

[5] TEIXEIRA, Raul. Nos passos da vida terrestre. Pelo Espírito Camilo. Niterói, RJ: Fráter Livros Espíritas, 2005, p. 19.

[6] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questão 716.

[7] Idem, questão 258.

[8] KARDEC, Allan. O espiritismo na sua expressão mais simples. FEB Editora. Edição do Kindle, item 35.

[9] KARDEC, Allan. O livro dos médiuns. FEB Publisher. Edição do Kindle, Cap. XXXI, item XVIII.

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