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Náufrago em Resgate - Cap. 9




O egoísmo é a fonte de todos os vícios, como a caridade é a fonte de todas as virtudes. Destruir um e desenvolver a outra, tal deve ser o alvo de todos os esforços do homem, caso queira assegurar a sua felicidade tanto neste mundo quanto no futuro.[1]


A morte do “russo” foi festejada pelos presos. Ele era odiado. Não que os detentos tivessem estima por qualquer dos seus carcereiros, mas o “russo” decerto era “hour concours”. Luiz Fernando celebrou largamente, com os demais da cela, tão logo a notícia se espalhou pelo presídio. As ondas vibratórias de ódio e impiedade atingiram em cheio a alma do infeliz suicida, que adquirindo a condição de movimentar-se, com as emanações da prece de Angélica, sua filha, identificou de pronto os pensamentos que formavam um imã atraindo-o de volta à cadeia.

Sentindo-se asfixiado pelas impressões deixadas pelo nó da corda, remanescentes nas suas impressões, arrastava-se pelos corredores, jogando-se contra as grades e buscando atingir os presos que emitiam pensamentos enfermiços sobre ele.

Toni, que tinha sensibilidade extra-sensorial, foi o primeiro a identificar a presença trevosa e lembrou-se das lições dos encontros com os espíritas. Alertou Luiz Fernando de que os pensamentos podiam atrair o espírito do “russo” para aqueles lugares.

- Ah! Mas era só o que faltava, meu irmão, a gente não vai se livrar desse demônio, nem morto?

- Deixa esse infeliz, guri, já deve estar penando o bastante, pagando seus erros. Espanta essas ideias.

E assim o “russo” passou a peregrinar pela cadeia, açulado pelos adversários do mesmo nível de sofrimento e perversidade que o instigavam a sugerir novos crimes e atrocidades aos presidiários que com ele estabeleciam sintonia. Luiz Fernando era um deles.

Passou a andar amuado, irritado, foi muitas vezes para o castigo na solitária, ficou sem sol, por indisciplina.

Uma rebelião eclodiu e descobriram até um plano de fuga com sequestro de Alcibíades, o administrador, programado que só não se realizou por que teve alcaguete, no meio.

A confusão resultou em transferências e a suspensão de visitas e encontros religiosos por tempo indeterminado. Toni foi um dos transferidos, embora não tivesse qualquer envolvimento nos fatos, mas Luiz Fernando ficou, inexplicavelmente.

A equipe de Magaldi teve dias muito intensos de auxílio aos detentos, aos servidores da unidade prisional e à família do “russo”.

Angélica, a filha paraplégica, que passou a ser cuidada pela mãe, era uma alma resignada e a única no mundo que tinha sentimento de amor por aquele ser e também a só ela fora capaz de gerar sentimentos nobres no coração do infortunado agente. Com a morte do “russo”, a ex-esposa que há muitos anos tivera de se afastar do lar para preservar a vida, dado o nível de agressões que sofrera, retornou e assumiu os cuidados da filha, que deixara para permitir que tivesse a assistência necessária a ser provida pelo pai. Angélica sabia da situação e mantinha contato às escondidas com a mãe e agora, finalmente, estavam juntas.

Magaldi acompanhava a situação, amparando espiritualmente as duas e coordenando a equipe que mantinha o suicida errante à distância para que os seus fluidos deletérios não as atingissem. Manoela, a ex-esposa, e Angélica, a filha, formulavam sempre as orações em benefício do autocida, que em raros momentos conseguia acessar algum alívio, mas essas preces eram, sim, de grande valia para manter o lar ao abrigo dos reflexos da tragédia.

No presídio, as equipes espirituais procuravam sensibilizar, durante o sono, os responsáveis pela autorização do retorno dos grupos e também os presos que frequentavam as reuniões religiosas para arrefecer os impulsos que serviam como ponto de conexão com as hordas de Espíritos enfermos que se associaram após a psicosfera criada pelo suicídio. As gestões para o retorno dos encontros não foram bem acolhidas, embora Alcebíades estivesse inclinado a ceder, a movimentação contrária dos técnicos e avaliadores das questões de segurança o dissuadiram, sob a argumentação da falta de segurança para o ingresso dos voluntários.

Na noite em que o assunto foi posto para diálogo, no grupo de agentes e servidores em desdobramento, o Instrutor Cesar apresentou argumentos de profundidade, em favor da permissão, observando que os encontros religiosos são elementos que funcionam como transformadores das pulsões violentas que se implantam a partir dos eventos que transcorreram.

Alcebíades ponderou:

- Irmão Cesar, compreendemos que o direito à prática da religião é devido e importante, mas não devo e não posso violentar os servidores a acolherem, neste momento, o ingresso de pessoas que podem se traduzir em brechas para a segurança, comprometendo-lhes a própria vida.

- É razoável o seu receio, Alcebíades, porém mesmo nas fileiras das atividades profissionais, o exercício da fé humana é indispensável, pois ela é um pressuposto para que a Providência Divina se manifeste e exerça a sua proteção. Se estiveres persuadido de que o melhor a fazer é permitir os cultos e visitas dos religiosos, nós te escudaremos e inspiraremos os argumentos para o convencimento da maioria dos agentes e demais servidores.

- O dever de tantos quantos labutam para que a justiça seja exercida para com todos, inclusive para os que estão sob a guarda do Estado, é uma missão para a qual fostes preparados e o desconforto que sentis nesses dias tem sua origem no descumprimento das ações que vos cabem realizar. O comodismo e a decisão pelo que requer menos esforço é caminho para a produção de mais dores.

Alcebíades e grande parte do grupo estavam sensibilizados e com os corações envolvidos em vigorosas vibrações de gratidão a Deus, pois reeditavam no íntimo de suas consciências os compromissos assumidos para a reencarnação, quais sejam os de transitarem, desta feita, entre os labirintos da criminalidade, contribuindo para que a punibilidade se aproximasse cada vez mais da educação das almas faltosas.

Cesar conduziu a prédica evidenciando a excelência e a necessidade de inocular princípios religiosos nas almas daqueles cujo mal logrou se estabelecer e medrar em suas vidas.

- A prática das virtudes e dos princípios morais são os grandes pilares de soerguimento dos seres humanos. E essa diretriz não se aplica apenas aos criminosos sentenciados pela justiça terrena, mas a todas as criaturas que se entregam aos vícios e por consequência são infelizes e infelicitam, promovendo a injustiça e afastando-se do propósito real de suas existências que é a evolução intelecto-moral. Não haverá verdadeiro entendimento do que é justiça, enquanto os homens se mantiverem longe de Deus. Desta forma, meus irmãos, conquanto haja ainda falsas premissas e extremismos de variada ordem nos segmentos religiosos, ainda é neles que a criatura humana vai encontrar a oportunidade de refletir e se esclarecer, a fim de que a sua capacidade de escolha se aprimore no ritmo em que movimentar a alavanca da vontade.

Até mesmo os mais resistentes estavam impactados com a palavra de Cesar, eis que impregnada pelos testemunhos trazidos desde os tempos em que contribuira na formação das fontes primeira do Direito em Roma, até a sua última estada na Terra, como eminente penalista no Brasil, sempre pautando a sua conduta pelos preceitos da única lei que considerava imutável: a lei divina.

Encerrada a reunião os participantes foram reconduzidos as suas casas para a continuidade do sono reparador.

Magaldi interpelou o palestrante:

- O que achas que será decidido, irmão Cesar? Conseguirá Alcebíades retomar os encontros?

- Meu amigo, penso que, de imediato, essa possibilidade está afastada. Os cuidados com a segurança assumem feição superlativa nas organizações carcerárias. Eles ainda acham que a força bruta é o que verdadeiramente os protege. Aguardaremos que as dores se intensifiquem para que em momento oportuno essa reunião de hoje dê seus frutos. A semente está plantada.

E assim foi estabelecido. Por mais de um ano, os encontros religiosos restaram suspensos, no plano físico, com a continuidade, é claro, junto aos que apresentavam condições de se afastarem durante o sono.

Foi nesse período que Luiz Fernando recebeu uma visita inesperada.

Pode dizer-se, portanto, com razão, que as ideias da virtude política são variáveis. As da virtude natural seriam sempre claras e precisas se as fraquezas e as paixões humanas não empanassem a sua pureza. As ideias da virtude religiosa são imutáveis e constantes, porque foram imediatamente reveladas pelo próprio Deus, que as conserva inalteráveis.[2]


Referências: [1] Kardec, Allan. O livro dos espíritos. Tradução Evandro Noletto Bezerra. Cap. 9. (p. 472). FEB Publisher. Edição do Kindle. [2] Cesare Beccaria

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