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Náufrago em Resgate, cap. 6




A verdadeira caridade constitui um dos mais sublimes ensinamentos que Deus deu ao mundo. Completa fraternidade deve existir entre os verdadeiros seguidores da sua doutrina. Deveis amar os desgraçados, os criminosos, como criaturas, que são, de Deus, às quais o perdão e a misericórdia serão concedidos, se se arrependerem, como também a vós, pelas faltas que cometeis contra sua Lei. Considerai que sois mais repreensíveis, mais culpados do que aqueles a quem negardes perdão e comiseração, pois, as mais das vezes, eles não conhecem Deus como o conheceis, e muito menos lhes será pedido do que a vós.[1]


O compromisso dos pais é missão que se estende por muitas vidas, na medida das necessidades daqueles que recebem como rebentos - brotos tenros - para os cuidados que lhes propiciam o desenvolvimento e evolução.

Magaldi, há quatro séculos, acompanhava os passos do filho querido juntamente com Maria Eugênia. Ora um, ora o outro se revezavam em posições familiares as mais diversas, velando pela alma rebelde, que de existência em existência desfazia-se de alguns vícios e agregava outros a sua trajetória.

Luiz Fernando já renascera e desencarnara, precocemente, por três vezes, desde os fatos narrados na Ilha da Madeira, jornadeando pelas estradas do Velho Mundo em posições sociais que lhe oportunizaram conhecimentos e vivências diversas.

Desta feita, Magaldi, cuja ascensão espiritual se consolidou nas escolhas acertadas, renúncias e sacrifícios vividos ao longo dos séculos, auxiliava do mundo espiritual o filho amado em provações dolorosas tecidas por ele mesmo.

Em uma reunião realizada com o benfeitor César, supervisor das ações da colônia para os serviços penitenciários ligados ao Brasil, ele e Maria Eugênia foram colocados sob a supervisão do instrutor Carlos e se empenharam para acompanhar mais uma ação em prol da educação de Luiz Fernando, estabelecendo diretrizes que se iniciaram com o surto provocado na prisão e a transferência para a penitenciária que ora o segregava.

No primeiro encontro com os jovens espíritas e seus orientadores, o preso, que era avesso a quaisquer abordagens religiosas e comparecia aqueles momentos de religiosidade apenas para sair da cela, sentiu-se profundamente tocado com a fala de uma das orientadoras do grupo, dona Méri, bem como participou das atividades propostas.

Daquele dia em diante procurou ler livros na biblioteca da prisão, começando pelo O Evangelho Segundo o Espiritismo. Os conceitos ali expedidos estavam muito distantes do seu dia a dia e das suas concepções, mas faziam sentido na forma racional e simples como eram abordados. Embora achasse que eram uma utopia no mundo cruel e violento de onde vinha, não conseguia contra-argumentar, porque se o fazia as suas teses culminavam em resultados nefastos, como os que vinha recolhendo ao longo da sua vida.

O tempo ia passando e ele esperava com ansiedade o próximo dia do encontro e assim foi se afeiçoando ao grupo de jovens e às orientadoras que o chamavam de filho, o que soava muito bem ao seu ouvido e lhe transmitia confiança, sentimento muito raro de experimentar, dada a vida que levava.

Dona Méri, em especial, trazia-lhe muito reconforto quando falava e explicava os temas dos encontros. Todas as lições ministradas eram compreensíveis, mas as falas dela tocavam-lhe o coração. Ficava na cela por longas horas, repassando palavra por palavra e, muitas vezes, chegou a pensar que se a tivesse conhecido mais cedo, talvez não cometesse todas as atrocidades que lhe eram imputadas.

Durante o sono, Magaldi e Maria Eugênia retiravam o presidiário das proximidades do corpo e do ambiente da cela, colocando-o em contato com Méri, também em desdobramento, a fim de que os liames de respeito e confiança fossem se aprimorando.

Dois anos se passaram e Luiz Fernando obteve finalmente a permissão para trabalhar nas oficinas. Tinha certa habilidade para o entalhe em madeira.

No último encontro do ano, na proximidade do Natal, uma pequena confraternização foi realizada pelo grupo com os participantes. Luiz, após os momentos iniciais de oração e de avaliação feita por todos os presentes, pediu para falar. Trazia na mão um pequeno embrulho

- Tia Méri, eu nada tenho para entregar a vocês. Sou muito agradecido por esses 24 encontros onde aprendi muitas lições e entendi muitas coisas. Eu sou um criminoso e não tenho a certeza se um dia, mesmo saindo daqui, eu vou conseguir me recuperar. O crime parece um visgo que cola na gente. Hoje, no entanto, eu tenho uma luz que brilha para mim e para onde eu posso olhar nas noites escuras e nos dias de temporal.

Estendeu o pacote na direção da orientadora e continuou:

- Passei muitas horas trabalhando em uma imagem dele, fiz o melhor que eu sabia e pude, pois nós não temos acesso a ferramentas. Fiz esse entalhe com um pequeno caco de vidro e lixa de madeira, mas eu quero que a senhora olhe para ele e veja que ele representa o que vocês todos plantaram no meu coração. Eu sinto que ele está comigo e que talvez um dia eu seja digno de estar com ele. Gostaria de fazer um para cada um de vocês, mas não posso. Entrego para a senhora.

Depositou nas mãos de Méri, o quadro com o rosto de Jesus.

Méri olhava para aquele pedaço de madeira, enquanto os jovens se aproximavam para contemplar o presente recebido do preso, deixando verter lágrimas de gratidão. O quadro foi passando de mão em mão e foi ficando molhado das lágrimas de ali vertidas.

Quem olhasse para o grupo não poderia supor que ali dentre aqueles jovens estavam alguns dos companheiros de orgia do jovem Luiz Fernando, o rico moço da Ilha da Madeira, que o tempo e a força do amor já haviam lapidado um pouco mais, permitindo que viessem amparar o resgate daquele náufrago que ali estava.

Méri encerrou o encontro com uma prece de gratidão que banhou as almas de todos e experimentou grande leveza, como se um novo dia raiasse na sua alma, pois afinal ela não sabia, mas era a reencarnação de Ana Catarina, a madrasta leviana que contribuiu para a tragédia de sua própria vida, mas que hoje transitava na Terra em esforço sincero de redenção.

Magaldi olhava para o grupo e em prece, lançava eflúvios envolvendo os presentes naquele salão do presídio.


Referência: [1] Allan Kardec. O evangelho segundo o espiritismo (pp. 187-188). FEB Publisher. Edição do Kindle. Cap. XI, item 14.

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