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Náufrago em Resgate, cap. 3





“Por que razão pais bons e virtuosos geram filhos de natureza perversa? Em outras palavras: por que as boas qualidades dos pais nem sempre atraem, por simpatia, um Espírito bom para animar seu filho? “Um Espírito mau pode pedir bons pais, na esperança de que seus conselhos o dirijam por um caminho melhor, e muitas vezes Deus o atende.”[1]


Os dias foram passando e a situação se agravava. Maria Eugênia, da espiritualidade, procurava atender também o filho, inspirá-lo a reagir, a retomar o rumo da sua vida.

Um dia, em meio ao vinhedo eles se encontraram. Luiz, visivelmente embriagado, enlaçou Ana Catarina derrubando-a ao chão. Ela sentiu o hálito forte e num gesto de repugnância empurrou-o.

- Afaste-se! Eu sinto nojo de você.

Ouvir essas palavras tão duras daqueles lábios que ele tantas vezes beijara com paixão e que lhe prometera felicidade e lhe jurara amor foi demais. Luiz Fernando sentiu que o sangue subia a sua cabeça e jogou-se sobre Ana que fez menção de gritar. Ele tapou-lhe a boca e apertou o pescoço numa sanha destruidora. Aquela mulher nunca mais iria repudiá-lo. Ana parou de se debater. Quando ele sentiu a imobilidade da mulher, um sentimento de pavor começou a tomar conta de si.

- Meu Deus! Eu a matei! Eu sou um assassino!

Trôpego, enlouquecido, correu pelos vinhedos, adentrou as cavalariças e pegou um dos garanhões que encontrou e afastou-se da fazenda o mais rápido que pode.

Naquela noite, Luiz Fernando que ouvira falar de agenciadores para as tripulações piratas foi em busca de um desses homens, pois não via saída para o crime que cometera, a não ser fugir, sumir no mundo com a sua carga de remorsos.

Assim, o herdeiro das vinícolas, da grande fortuna construída pelo pai se transformou em um corsário.

Ana Catarina foi encontrada no dia seguinte, pois a ausência do marido na fazenda retardou a percepção de sua ausência. Os escravos, capatazes, todos foram inquiridos e não se teve explicação para a morte violenta da senhora Magaldi. Embora as desconfianças com o sumiço de Luiz Fernando, o caso ficou na obscuridade, pois ninguém se aventurava a lançar qualquer suspeita sobre o filho do patrão.

Magaldi procurou Luiz Fernando por muitos anos, sem êxito nas suas buscas. Desiludido, vendeu as suas propriedades e retornou a Lisboa, se recolheu em um mosteiro, onde viveu seus últimos anos, tratando as dores da alma. Nunca desistiu de buscar o filho e sentia que em algum lugar ele estava vivo.

Certo dia chegou ao Mosteiro um oficial da Armada espanhola. Tinha travado conhecimento e feito amizade com Luiz Fernando na época das orgias que este promovera na Europa.

Magaldi recebeu das mãos daquele homem um relógio que ele conhecia muito bem. Dera ao filho quando completou 15 anos. Trazia as iniciais gravadas em ouro, com alguns diamantes engastados.

- Onde vosmecê encontrou isso?

A narrativa foi dolorosa.

- Nossa armada foi abordada por um galeão pirata na costa de Barbados há cerca de três meses. Foi uma luta encarniçada, sangrenta, mas conseguimos afundá-lo. Tivemos algumas avarias nos nossos barcos e tivemos que atracar. Dia após dia, o mar foi trazendo destroços e corpos à praia. No rescaldo eu o reconheci, Dom Magaldi! Estava com a tez mais amorenada, curtida do sol, o cabelo grisalho, mas eu o reconheci, em especial pelo sinal em forma de um cavalo marinho no pescoço. E quando vi o relógio preso ainda no cinturão não tive dúvidas.

- Meu filho foi preso por piratas? Durante todos esses anos?

O oficial olhou para o rosto desesperado daquele homem e mediu as palavras. Não. Luiz Fernando era um pirata. Estava caracterizado com um deles. O brinco, as tatuagens, os anéis, as vestes. A princípio ele teve a mesma dúvida de Dom Magaldi, mas depois verificou que estava diante de um legítimo corsário. O que teria acontecido com o moço rico que ele conhecera nas orgias regadas de vinho da Europa, não sabia, mas um assomo de piedade tomou aquele coração rude, afeito às guerras, ao mar. O pai não precisava saber disso. Que ele guardasse no coração uma lembrança menos amarga do filho.

- Pois é Dom Magaldi. É possível. Uma resposta que não teremos jamais. Vim aqui cumprir um dever para com um pai, a fim de que o senhor saiba que dei uma sepultura cristã ao seu filho. Meus homens sinalizaram o túmulo no alto de um rochedo em Barbados. Que ele descanse em paz.

Magaldi desencarnou pouco tempo depois, convertendo a fortuna que ainda mantinha aguardando o retorno do filho, em donativos para instituições pias e assim partiu ao encontro de Maria Eugênia, que o aguardava para que juntos velassem pelo filho amado.

Naquela reencarnação Magaldi e Eugênia mais uma vez fizeram esforços e empenharam o amor paterno e materno para conduzir o Espírito do filho ao caminho do bem. Alguns aspectos no caráter de Luiz Fernando obtiveram progresso, mas outros se agravaram substancialmente, qual sejam a agressividade e a baixa tolerância às dificuldades.

Os processos educativos por meio dos laços de família constituem um programa que se perde na noite dos tempos e que demanda, por vezes, séculos para que as metas estabelecidas no planejamento reencarnatório de cada criatura avance suas etapas. É um exercício de paciência e perseverança que se contrapõe ao imediatismo que dita as ações durante a vida. Por vezes, poucos anos ou décadas são suficientes para que abandonemos os nossos rebentos, desistindo da nobre tarefa que o Pai nos confia, entregando-nos seus filhos para que contribuamos na sua senda evolutiva.


Referência: [1]Kardec, Allan. O livro dos espíritos (p. 155). FEB Publisher. Edição do Kindle. Pergunta 209.

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