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Náufrago em resgate, cap. 1




A lei de conservação dá ao homem o direito de preservar sua própria vida. Não usará ele desse direito, quando elimina da sociedade um membro perigoso? “Há outros meios de ele se preservar do perigo, sem matar. Além disso, é preciso abrir ao criminoso a porta do arrependimento, e não fechá-la.”[1]


Luiz contemplava o recorte de céu azul que era possível ver pela minúscula grade da cela.

Mais uma vez estava ali, sem liberdade, em decorrência dos crimes praticados. A cada saída da cadeia prometia a si mesmo que iria se redimir, que não voltaria mais ao crime, que ia tomar um novo rumo na vida, mas não tinha forças suficientes para se desenredar dos tentáculos viscosos da bandidagem onde se havia lançado há tanto tempo. Bastava uma dificuldade mínima de dinheiro, de segurança, uma ameaça velada dos antigos comparsas e lá estava ele, novamente, reincidindo em todos os meandros da criminalidade e, desta vez, por pouco não encerrara a própria vida no confronto com a polícia. Estivera bem próximo de ser executado pelo policial que o surpreendera, em um momento em que municiava a arma na “toca”.

- Tu não fazes falta, vou te matar miserável.

- Abaixe a arma sargento! O homem está desarmado. Somos agentes da lei, não bandidos como ele.

A chegada providencial do tenente que comandava o grupo salvara Luiz Fernando e, inexplicavelmente, ele ficou aliviado, pois gostava de viver. Ouvia muitas vezes os comentários de que os criminosos não tinham apreço nem a própria vida, mas não concordava com isso. Era um paradoxo, mas tudo o que fazia era para se manter vivo, na sua apreciação. Equivocadamente, nutria um sentimento que colocava a sua vida acima de todas as outras. Era capaz de matar para não morrer, sem pestanejar. Pensava, agora, no cubículo diminuto e lotado de presos da sua facção, enquanto era o seu turno de sentar no chão, o que o levava a esses atos e o quanto valia a pena estar vivo naquela situação.

Tinha 27 anos e parecia ter vivido muito mais. Desde a infância pobre onde a fome era a companheira no barraco miserável em que a mãe e o pai lutavam para alimentar ele e seus cinco irmãos menores com os parcos recursos da venda de resíduos que catavam, diariamente, nas ruas, sua vida fora sacrificial, com privações e humilhações, mas nunca desgostou de viver.

Lembrou do dia em que os barracos foram derrubados pela construtora que era dona do terreno onde eles ficavam e as famílias, inclusive a sua, foram para a rua com os poucos pertences que sobraram.

O inverno daquele ano foi longo e rigoroso. Sua mãe não aguentou e uma pneumonia sem tratamento adequado deixou ele e seus irmãos na orfandade.

Seu pai, que já havia se entregado ao vício do álcool, certo dia envolveu-se numa briga com outro viciado e foi esfaqueado. Luiz encheu os olhos de lágrimas ao recordar a cena do pai morrendo, esvaindo em sangue no chão, a gritaria dos irmãos menores e a correria dos transeuntes.

Naquele dia foram recolhidos ao abrigo de menores, de onde ele fugiu e ganhou as ruas um ano depois. Nunca mais viu os irmãos. Como foi cooptado para o crime não quis envolver os seus irmãos, que esperava sinceramente tivessem mais sorte e oportunidades do que ele. Muitas vezes, observava de longe o prédio da instituição vetusta onde eles estavam abrigados, mas afastava-se, porque julgava ser o melhor a fazer.

- Chorando é parceiro. O que é? Afrouxou mano?

O comparsa sentado ao lado percebeu o brilho das lágrimas do companheiro de desdita.

- Não atazana, louco! Me deixa em paz.

Luiz Fernando se levantou e foi tropeçando nos demais, abrindo espaço para se colocar junto à grade da janela, espaço disputado, para o quê não teve dificuldade, afinal era uma liderança temida entre os seus pares.

Uma débil lufada de ar atingiu-lhe o rosto suarento e banhado pelas lágrimas que escorriam. Há tempos não chorava, mas a lembrança da sua infância infeliz sempre lhe trazia aquela dor no peito, em especial quando lembrava da mãe, tão brava, aguerrida, lutando com todas as dificuldades para dar os mínimos cuidados a ele e aos seus irmãos. Ah! Pensava, não tivesse a mãe morrido tão cedo, certamente, a sua vida seria outra.

O prisioneiro compreendia, depois de séculos, o valor de uma família, de uma mãe atenta, mesmo que na miséria, e esta era uma conquista do Espírito imortal, que há séculos havia desprezado tudo isso.

O benfeitor Magaldi acompanhava os pensamentos do seu tutelado e emocionava-se com as reflexões daquele ser a quem amava tanto e que há séculos buscava inspirar para a retomada das trilhas no caminho do bem.

Em sentida oração, agradeceu a Deus pela moratória concedida ao pupilo, quando o policial acolheu a sua sugestão e intercedeu pela vida do criminoso sob a mira da arma do colega.

Olhava o encarcerado e com a compreensão das almas que já agregaram a sua trajetória os valores da indulgência e do perdão, a nobre entidade via na fera humana ali enjaulada o seu filho querido, padecendo de grave enfermidade da alma, que somente a dor ao longo do tempo haveria de curar. Vê-lo chorar ao rememorar a ausência maternal era como assistir a abertura de uma diminuta janela no cárcere das emoções deformadas, que a longa esteira de crimes forjara naquela criatura.

Magaldi lançou na direção do preso uma potente emissão de fluídos que avolumou a catarse, fazendo-o prorromper em convulsivo choro, sem controle, o que causou alvoroço na cela, provocando o escárnio de uns e perplexidade de outros. Luiz Fernando enfureceu-se por se sentir vulnerável diante dos que o tinham como liderança. Com força redobrada se debatia e se jogava contra os companheiros de cela, criando uma situação tal que os carcereiros tiveram que removê-lo. Foi para a enfermaria em surto diagnosticado e onde teve que ser medicado. Avaliação posterior recomendou sua transferência para um presídio menor, no interior, onde o acompanhamento pudesse ser feito para verificar se a ocorrência era isolada ou se teria que merecer um tratamento psiquiátrico continuado.

Todas essas providências, como veremos, foram planejadas pelo Alto, obedecendo as diretrizes misericordiosas de Deus para a busca de suas ovelhas para o aprisco.


Referência: [1] Kardec, Allan. O livro dos espíritos (p. 399). FEB Publisher. Edição do Kindle. Questão 761

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