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Leitura Inclusiva da Obra de Allan Kardec - Viagem Espírita em 1862*



Sônia Hoffmann


Os discursos proferidos por Allan Kardec aos Espíritas das cidades de Lyon e Bordeaux, ambas na França, apresentam expressão e relação bastante inclusiva em diversas passagens. O duplo objetivo de autoinstrução e de as oferecer onde estas fossem necessárias (p. 15) demonstra seu perfil inclusivo ao coincidir com medidas includentes: disponibilização para a observação, identificação, avaliação das condições e procedimentos factíveis a serem adotados. O desejo de aproximação, convívio e reconhecimento da possibilidade de construção alternativa e ponderada, revela outra disposição necessária a quem almeja romper as barreiras da indiferença, desconhecimento, preconceito, do monólogo.

Sensibilizar-se, ser empático e amável para com os companheiros ditam e sinalizam atitude includente para aquele que se coloca na posição de acolhedor e incentivador, tal como fez Kardec ao enunciar que prosseguisse a grande obra de regeneração: "fazei que, em se vos vendo, se possa dizer que seria desejável que todos fossem espíritas. Sinto-me feliz, meus amigos, por ver tantos grupos unidos no mesmo sentimento, marchando de comum acordo para o nobre objetivo a que nos propomos. Sendo tal objetivo exatamente o mesmo para todos, não poderia haver divisões; uma mesma bandeira deve guiar-vos e nela está escrito: Fora da caridade não há salvação." (p. 5) Nesta citação, ele traz para o sentimento da amizade e do companheirismo as demais pessoas, rompendo o formalismo e gerando naquele ouvinte a confiança de um conjunto.

Como estimulador ao progresso, ele sugere atitudes fundadas em bases sólidas da compreensão e do entendimento do mesmo modo como alguém para ser considerado inclusor deve desenvolver e propagar tal processo: "fazei melhor ainda: gravai-a em vossos corações e, desde já, fruireis a calma e a serenidade que aí encontrarão as gerações futuras, quando ela for a base das relações sociais. Sois a vanguarda; deveis dar exemplo, a fim de encorajar os outros a vos seguirem." (p. 5) Com tais palavras, Kardec envolve e traz para o interlocutor uma direção e autentica a competência, modificando para melhor a estima.

Na referência de que o nosso amor-próprio estará muitas vezes sendo testado - razão preponderante para maior circunspeção por cada um (p. 9) - ele faz alerta importante. Inclusão também demanda equidade, construção dinâmica e vigilância quanto às próprias concepções e anseios. A corresponsabilização se consolida e todos, naquele momento, percebem-se participantes e pertencentes de todo um processo.

O respeito às peculiaridades e possibilidades presente em sua fala vem ao encontro daquilo proposto na dinâmica da inclusão, envolvendo igualmente a contextualização: "essa marcha ascendente está longe de ser uniforme. Se há regiões onde as ideias espíritas parecem germinar à medida que são semeadas, outras há onde penetram mais dificilmente, em virtude de causas locais, ligadas ao caráter de seus habitantes e, sobretudo, à natureza de suas ocupações"(p. 9). Barreiras e fronteiras, nesta situação, são sinalizadas, mas ao mesmo instante, causas e sugestões de encaminhamento são referenciadas. Diferenças culturais em função de características regionais precisam ser consideradas na constituição do ato inclusivo, para a organização adequada das atividades.

A difusão do Espiritismo na imensa diversidade social e o amplo modo de expressão mediúnica, referida por Kardec na p. 10, nos remete para a amplitude de abordagens abarcada pelo processo de inclusão e das estratégias de acessibilidades para sua conquista. Espiritismo e inclusão se entrelaçam, pois quando é dito por ele que todos os entraves serão removidos pelos Espíritos porque os obstáculos humanos perdem sua representação ante à magnitude da Vontade Divina, ainda mais quando a caminhada é feita com racionalidade e prudência, por ensinos progressivos e proporcionados de acordo com os tempos, lugares e costumes dos homens, trazendo ideias insuspeitadas anteriormente é possível entender os motivos pelos quais mensagem inclusiva vem cada vez mais se fortalecendo atualmente no Movimento Espírita para que todos, estando ou sentindo-se excluídos, sejam visibilizados e valorizados em suas diferenças, potencialidades e habilidades.

Contudo, assim como existem pessoas "para quem o Espiritismo não passa de um fato, de uma bela teoria, uma letra morta que não conduz a nenhuma mudança nem no seu caráter, nem em seus hábitos" (p. 12) há quem persista na exclusão do próximo devido alguma deficiência ou disparidade de sexo, gênero, social, idade, racial e alguma outra forma de intolerância, desacreditando e negando a necessidade de ações includentes a partir de mudanças de qualificação atitudinal para a agilização e consolidação de uma sociedade mais fraterna, justa e solidária com a alegação de ser inclusão um modismo ou algo supérfluo.

Os apontamentos relativos à todas as fisionomias refletirem franqueza e cordialidade, o sentimento de pertencimento e estar à vontade em ambientes simpáticos, "verdadeiros templos da fraternidade" (p. 12) traduzem a extrema importância da Instituição Espírita preparar-se e promover condições interativas para a participação efetiva de todos, abolindo um local de mal-estar, turbulência, constrangimento, competição e desconfiança. O espiritismo e a inclusão, à medida que o verdadeiro objetivo de ambos for melhor compreendido, não somente prepara a reforma moral da Humanidade demonstrada pelo exemplo como oferece condições saudáveis para a transição planetária a um novo estágio evolutivo decorrente da educação de vulnerabilidades, de inclinações equivocadas e desaparecimento de estigmas.

Quanto à posição social e financeira, a leitura inclusiva importante, em seus princípios de justiça e solidariedade, da menção de Kardec, na p. 20, quanto a ele não conceder "a certas pessoas a importância que elas se atribuem. Para mim, um homem é um homem e nada mais; meço seu valor por seus atos, por seus sentimentos, e não pela posição que ocupa. Ainda que esteja altamente colocado, se agir mal, se for egoísta e presunçoso de sua dignidade, é a meus olhos inferior a um simples operário que age bem." E prossegue: "jamais um proletário tenha ficado na antecâmara. Muitas vezes, em meu salão, o príncipe fica lado a lado com o artesão; se se sentir humilhado, dir-lhe-ei que não é digno de ser espírita. "No processo inclusivo há de haver valorização do ser como indivíduo e não da sua posição social ou econômica.

A opção e reciprocidade na relação é aludida quando, na p. 22, é dito nada ser imposto pelo Espiritismo e que Kardec procura não perturbar ou injuriar alguém, mas sim é preciso haver respeito mútuo. Esta conduta se assemelha à inclusão nos seus aspectos filosóficos e da valorização de singularidades.

A aceitação das diferenças de sexo e etárias igualmente é a preocupação de Kardec tanto quanto do encontro includente. Temos, na p. 42, que a exclusão feminina seria insultar sua capacidade de julgamento e não há motivo para aprivar das influências moralizadoras do Espiritismo. A presença delas, ao contrário, exige melhor observação das leis de urbanidade e obsta o desleixo das reuniões compostas exclusivamente de homens. A igualdade e a emancipação legal dos direitos da mulher devem ser reconhecidas entre os espíritas. A admissão dos jovens também não deve ser receada, pois o caráter deles será fortalecido e beneficiado pela Doutrina. Tal como o ser includente, Kardec demonstra e aponta para um olhar de todos terem possibilidades.

Os atributos de alguém espírita (p. 28) são os mesmos para quem deseja ser inclusivo: exercer abnegação, devotamento, desinteresse, indulgência para com os outros, abstenção de toda palavra ou ato prejudicial ao próximo. A pura acepção de caridade deve ser sempre a regra de sua conduta. Esta orientação reafirma o caráter includente dos ensinamentos trazidos por Jesus e ratificados no Espiritismo.

Estas condutas oferecidas em toda a obra, então, são verdadeiras preciosidades e indicativos para todos os trabalhadores do Movimento Espírita, desde federativas até os Centros Espíritas.


Referência:

*KARDEC, Allan. Viagem espírita em 1862. Brasília, DF: FEB, 2012.

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