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Fraternidade - cap. 6




O ser humano é a grande obra da Criação Divina. A capacidade de transformação que trazemos nos refolhos da individualidade imortal é um cenário que se desvenda dia a dia e convida-nos a um olhar amplo e capaz de perceber as riquezas em potencial, aguardando o buril das existências a modelar o caráter das criaturas.

Tomás Flores era chamado, de tempos em tempos, a acompanhar os progressos do filho. Naquela manhã, nos equipamentos sutis da colônia, permitiam-lhe ver Telêmaco sentado nos degraus da casa, olhando a rua e preparando-se para o trabalho diário. Dona Lélia acompanhava o esposo - hábito estabelecido nos últimos tempos. Observando o homem de cabelos grisalhos a dominarem a cabeleira basta, com as rugas já sulcando o rosto, era difícil reconhecer aquele sujeito arrogante de tempos atrás. Guardava ainda o porte altivo, mas tornara-se afável, de conversa fácil e, sobretudo, solidário com os vizinhos, conhecidos e colegas. De forma imperceptível, apenas pelo impulso do pensamento, Tomás viu-se ao lado do casal no alpendre simples da casa e notou mais alguém consigo. Era um Espírito na característica feminina e ele a reconheceu, de imediato.

- Arlélis, há quanto tempo? Eu nunca mais soube de você. Desapareceu e não deu notícias. Apenas o nosso departamento de pessoal me informou do seu pedido de demissão.

Tomás estava constrangido diante da mulher que o fitava com firmeza. Ela tinha sido um caso extraconjugal do passado, uma das secretárias da fábrica, muito jovem e bela. Esse envolvimento aflorava como uma lembrança perturbadora nesse momento, porque agora ele tinha outro entendimento da vida e recordar da traição à esposa, da sua infidelidade, causava-lhe um profundo desconforto, sentia-se indigno. De maneira delicada, Arlélis rompeu com o clima estabelecido, dirigindo-se a ele:

- Está tudo bem. O tempo é um grande bálsamo para as nossas feridas. Realmente eu me afastei propositadamente de você ao entender que devia respeito a sua família, e se estivesse na condição de sua esposa, não desejaria fizessem a mim o que estávamos fazendo a ela.

Nesse momento, Jorge Antonio saiu da sua casa e atravessou a rua, como sempre fazia, para junto com Telêmaco irem ao trabalho.

- Bom dia, Telêmaco, Lélia.

Tomás e Arlélis olhavam os dois amigos em animada conversa, enquanto Lélia se retirava para os afazeres do dia. Ouviram Telêmaco dizer:

- Sabe Jorge, eu sempre quis ter um irmão. Achava seria mais fácil se dividisse a vida, as preocupações, a herança – quando a tive – com alguém. Hoje me sinto atendido por Deus. Eu tenho um irmão. Esse irmão és tu. Vejo o quanto aprendi e aprendo contigo. Naquele dia, aqui nessa porta, tu me convidaste para um café na banca do Aniceto. Deus sabe da minha contrariedade, mas algo me impedia de recusar o convite. Abençoado convite. Nunca desististe de mim, cara!

Tomás ouvia isso com os olhos marejados de lágrimas. Ele sempre pensou em ter mais filhos, porém a futilidade e as inúmeras recusas da esposa frustraram as suas aspirações. Talvez adviesse daí a simpatia que teve por Jorge Antonio desde a primeira aproximação nas reuniões mediúnicas do centro. Com o passar do tempo, acompanhando a amizade dele pelo seu filho, passou a tributar-lhe um amor tão grande quanto o que devotava a Telêmaco. Agora o filho confidenciava, também ter suprido a falta de um irmão com aquela grande amizade.

- Telêmaco, a vida trabalha a nosso favor e traz as chances e as bênçãos necessárias para o êxito. Como você eu também sou filho único. Minha mãe teve um envolvimento com um homem casado, era patrão dela, e ao saber da gravidez decidiu afastar-se sem comunicar a ele a minha existência. Senti a falta de um pai, mas entendi os seus motivos. Ela foi uma heroína. Trabalhou muito para dar-me uma vida digna e sempre me fez entender que as lutas e as dores forjam o caráter. Ela morreu cedo, quando eu estava em meio aos estudos de um curso técnico e fiquei só no mundo. Tive que trabalhar para me sustentar e assim vivi, constitui família, sem jamais perder a dignidade exemplificada e ensinada por minha mãe. Tive muitos amigos, pessoas boas, porém a minha ligação com você sempre foi diferente, como se eu estivesse reencontrando alguém de quem a vida me separou e agora trazia de volta. Nossa doutrina explica bem essas coisas.

Riram e se abraçaram efusivamente, quando a carteira de Jorge espatifou-se no chão. Abaixados, juntando documentos e papéis espalhados, Jorge segurou uma foto amarelada de uma mulher.

- Esta é sua mãe? Bonita, ela.

- Sim, esta é Dona Arlélis. Tenho sentido a presença dela por esses dias - Jorge tinha o olhar distante e profundo como se olhasse além, para outra dimensão.

Tomás estava lívido. Olhou Arlélis e não precisou perguntar.

- Sim, ele é seu filho Tomás! São os seus filhos.

Tomás levou algum tempo para conseguir falar e dominar o tumulto de emoções estabelecidas no seu Espírito. Durante toda a sua existência, Arlélis fora uma lembrança da juventude, um caso apagado, sem maiores consequências, assim pensava. Sentiu a sua falta logo que ela sumiu, mas nunca pensou em buscar saber, de verdade, o seu paradeiro. Nem por um instante lhe passou pela mente a possibilidade dela ter ido embora para ocultar uma gravidez. À medida que os pensamentos iam trazendo as recordações, mais envergonhado se sentia. Jorge Antonio era seu filho e crescera em meio a dificuldades tantas, sem a presença do pai, graças a sua leviandade. Na colônia onde estava vinculado às ações de refazimento e à assistência ao núcleo familiar de Telêmaco nunca lhe revelaram a filiação de Jorge. Por quê?

Arlélis sentou-se ao lado dele, pois sabia que demandavam uma longa e esclarecedora conversa.

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