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A coragem para ser bom - cap. 1




O homem, pois, nem sempre é punido, ou punido completamente, na sua existência atual; mas não escapa nunca às consequências de suas faltas. A prosperidade do mau é apenas momentânea; se ele não expiar hoje, expiará amanhã, ao passo que aquele que sofre está expiando o seu passado. [1]

 

A manhã estava mergulhada em brumas. A névoa ainda não se dissipara. Agachados atrás das trincheiras improvisadas no galpão, os homens aguçavam os sentidos, atentos a qualquer ruído ou movimento exterior, anunciando a aproximação de alguém, pois fora uma noite angustiante e mesmo cessados os tiros, diante da absoluta escuridão a envolver tudo, sabiam que o inimigo estava por perto.

Encolhidos, ocultos pelas sacas de cereais, os cinco homens revezavam o sono entrecortado por muitos sobressaltos.

Vilmarino recebera um tiro de raspão no braço e ainda sangrava, gemendo baixinho para não denunciar a presença. Ramão rasgara uma ponta da camisa e fizera um torniquete improvisado e agora já estava empapado de sangue. Precisavam sair dali o quanto antes, pois os trabalhadores da fazenda em breve estariam na lida e eles seriam encontrados. Mas estavam perdidos, nunca estiveram antes naquelas terras e não sabiam para onde ir. Olhou para os outros companheiros e se deu conta de que não sabia nem os seus nomes. Um deles, era quase um menino, devia ter pouco mais de vinte anos; o outro um homem de compleição forte, com um físico denotando o vigor que nem as agruras do trabalho duro abatera.

Sim, eles vieram atender um anúncio de contratação para trabalho e caíram presas de pessoas inescrupulosas, que lhes submetiam a maus tratos e a trabalho de plantio clandestino.

Na tarde anterior, Vilmarino agrediu um dos guardas no alojamento improvisado no meio da mata, tomando-lhe as armas e as chaves. aproveitando os momentos da refeição dos “carcereiros”. Estabelecida a confusão, outros companheiros cativos somaram-se à rebelião, lutaram e alguns foram abatidos pelos guardas, mas cinco deles conseguiram dominar a situação e fugir. Correram por horas, sempre ouvindo o som dos disparos e o latido dos cães nos seus encalços. Andaram por um bom trecho dentro do rio para despistarem os seus perseguidores. Quando sentiram que estavam distantes dos latidos encontraram aquele galpão, onde ora se abrigavam.

— Como é o nome de vocês? — indagou Ramão

O menino respondeu, com a voz fraca cheia de pavor: — sou Sebastião.

O homem grande e corpulento continuava calado e o terceiro era um rapaz de estatura mediana, com o rosto sardento e os olhos pequeninos e vivazes, que balbuciou:

— Demétrio.

Vilmarino levou o dedo em riste aos lábios, pedindo silêncio. A agitação nas mangueiras, o mugido das vacas, anunciavam o começo da lida diária. Ergueu-se devagar para espiar o exterior. A cerração ainda estava densa.

— Vamos sair. Não se pode contar com ninguém daqui. Sabe-se lá se essa gente não é comparsa daqueles miseráveis lá.

Observaram em torno com a fraca claridade que se insinuava pelas frestas da edificação e viram algumas fileiras de carne salgada e queijos pendurados. Fizeram uma trouxa com poucos itens e se esgueiraram para fora. Demétrio, em meio à escuridão, esbarrou em alguma coisa. Era um tonel que rolou fazendo um barulho intenso.

— Quem está aí?

Um vulto se recortou na claridade difusa da porta do galpão.


Referência:

[1] KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. FEB - Federação Espírita Brasileira. Edição do Kindle. Capítulo V. “Bem-aventurados os Aflitos.”

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