Fé inabalável - mãe da esperança e da caridade (continuação)



Já nos capítulos 11, 12 e 13 de Mateus ocorrem diversas predições, Jesus cura um homem com as mãos atrofiadas e apresenta diversos discursos em parábolas - especialmente a do Grão de Mostarda:

“Outra parábola lhes propôs, dizendo: O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem recebeu e semeou em seu campo, o qual é, de fato, a menor de todas as sementes; porém, quando cresce, é a maior das hortaliças e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm e aninham-se em seus ramos” (Mateus 13:31-32)

Anota Haroldo Dutra Dias que não há consenso entre os estudiosos quanto à identificação dessa planta, já que para alguns se trata da “Sinapis nigra” ou mostarda negra (comum na Palestina e que cresce da altura de um homem montado num cavalo) e para outros se refere à “Salvadora persica”, encontrada em pequenas quantidades no vale do Rio Jordão e que produz um fruto suculento.[1]

Deve ser registrado que na região de Nazaré, local de sua infância, Jesus “não realizou ali muitos prodígios, por causa da falta de fé deles {moradores de Nazaré}” (Mateus 13:58).

No capítulo 14 ocorre a primeira multiplicação de pães. No final da tarde, os Apóstolos sugerem a Jesus que este despedisse a multidão de 5.000 homens (sem contar as mulheres e crianças!), a fim de que estes pudessem comprar alimentos. O Mestre carinhosamente afirma aos Apóstolos que não era necessário irem embora e que caberia aos Apóstolos alimentarem aquela turba gigantesca.

Estes afirmam que possuem apenas 5 pães e 2 peixes (insuficiente, inclusive, para alimentar os 12 apóstolos e Jesus, quanto mais uma multidão gigantesca). O Mestre toma os pães e os peixes fornecidos pelos Apóstolos, multiplica o alimento e os discípulos distribuem os pães entre as multidões.

Meditaremos, logo em seguida. sobre o simbolismo deste momento.

Ainda no capítulo 14 de Mateus é narrado o grandioso momento em que Jesus caminha sobre as águas. Jesus sobe ao monte para orar e, no fim da tarde, o barco com os discípulos já estava distante da terra por força de ventos contrários. Durante a madrugada (quarta vigília da noite - entre 4 e 6 horas da manhã), dirigiu-se Jesus até eles caminhando sobre as águas. Os Apóstolos ficaram perturbados ao vÊ-lo caminhar sobre as águas e gritavam de medo. Jesus diz:

“ANIMAI-VOS, sou eu, não temais. Em resposta, Pedro disse: Senhor, se és tu, ordena-me ir a ti, sobre as águas. Ele disse: VEM! Descendo do barco, Pedro caminhou sobre as águas e dirigiu-se a Jesus. Porém, depois de ter visto o vento forte, teve medo, e começando a afundar, gritou, dizendo: Senhor, salva-me. Imediatamente, estendendo a mão, Jesus o segurou e lhe disse: {homem} de pouca fé! Por que duvidaste?” (Mateus 14;28-32)

Pedro já havia visto tantos prodígios! Recebeu autoridade para curar enfermos! Seu vacilo de fé lembra muito os nossos vacilos de fé! E as palavras do Senhor nestes capítulos ressaltam a falta de fé, mas sempre nos animando!

A cura de uma mulher cananéia e a segunda multiplicação dos pães são lembradas no capítulo 15 de Mateus.

No que concerne à mulher cananéia, causa espanto aos Apóstolos a cura de sua filha, pois os cananeus (ou canaanitas) eram uma das 7 nações (divisões étnicas) que foram expulsas da terra prometida pelos israelitas após o Êxodo (Deuteronômio 7:1). Não mereciam, portanto, qualquer auxílio ou reconhecimento. Jesus, contudo, ressalva ao curar a menina que “Ó mulher, é grande a tua fé! Seja feito para ti, como desejas. E desde aquela hora sua filha foi curada” (Mateus 15:28).

Já no que tange à segunda multiplicação de pães, o Mestre vislumbra que alguns pereceriam no retorno para casa. Os Apóstolos voltam a fazer a mesma pergunta: “Donde nos {viriam} no deserto tantos pães para saciar tamanha turba?” O Mestre, certamente com um olhar triste e compassivo, pergunta: “Quantos pães tendes?”. Eles respondem que possuíam apenas sete pães e uns poucos peixinhos, insuficiente sequer para o pequeno grupo de Jesus. Segue-se simbólica lição. Manda a multidão sentar-se, toma os pães e peixes dos discípulos e passa a multiplicá-los de maneira gigantesca e espantosa, entregando-os novamente aos Apóstolos para que estes os distribuíssem à multidão de 4.000 homens (Mateus 15:32-38).

Emmanuel medita sobre essa passagem no capítulo 133 “Que tendes?” do Livro Fonte Viva:

Teria o Mestre conseguido tanto se não pudesse contar com recurso algum? A imagem compele-nos a meditar quanto ao impositivo de nossa cooperação, para que o Celeste Benfeitor nos felicite com os seus dons de vida abundante.

Poderá o Cristo edificar o santuário da felicidade em nós e para nós, se não puder contar com os alicerces da boa-vontade em nosso coração? A usina mais poderosa não prescinde da tomada humilde para iluminar um aposento.

Perguntamo-nos em que posição estamos: sentados na turba aguardando um pedaço de pão ou na função de Apóstolos, entregando ao Mestre Jesus nossas pequenas migalhas de alimentos da alma? Já nos demos conta que o Mestre tem o poder de multiplicar tudo e que o pouco que entregarmos será, necessariamente, multiplicado e devolvido a cada um de nós para que, nós mesmos, entreguemos a quem precisa?

Jesus lembra aos Apóstolos a necessidade de nos protegermos do fermento dos fariseus e saduceus no capítulo 16 de Mateus e estes interpretam literalmente que não pegassem do fermento dos pães deles. Novamente o Mestre esclarece o ensino e torna claro que deveriam tomar cautelas com o ensino dos fariseus e saduceus[2]. Fé e razão andavam separadas há dois mil anos atrás, tendo permanecido nessa dicotomia por dezenove séculos até o advento do espiritismo.

Pedro declara a viva voz que Jesus é o Cristo, o filho de Deus que vive nesse mesmo capítulo 16 de Mateus, reconhecendo sua hierarquia moral sobre todos os que residem neste planeta (encarnados e desencarnados), oportunidade em que o Mestre Nazareno afirma que sobre a pedra da revelação seria edificada a sua eclésia (igreja)[3].

Finalmente, o capítulo 17 de Mateus abre falando sobre a transfiguração do Cristo e narra o momento em que os Apóstolos não conseguiram curar o menino epilético. É chocante o fato de os Apóstolos (mesmo com a autoridade conferida por Jesus e após vislumbrarem todos essas curas e revelações) não conseguirem curar o menino. Ouçamos a resposta dada por Jesus:

“Ó geração incrédula e pervertida! Até quando estarei convosco? Até quando vos suportarei? Traze-me ele aqui. Jesus o repreendeu, e o daimon saiu dele; e o menino foi curado a partir daquela hora.” (Mateus 17:17-18).

Incrédulos, os Apóstolos procuram o Mestre e falam com ele em particular, longe da multidão, perguntando: Por que não fomos capazes de expulsá-lo? Explica-nos, Mestre Jesus, qual a razão dessa incapacidade.

E a resposta solar de Jesus é a seguinte: “Por causa da vossa pouca fé! Amém vos digo que se tiverdes fé como um grão de mostarda, direi a estes monte: Muda-te daqui para lá, e ele se mudará; e nada vos será impossível.” (Mateus 17:20-21).

Qual o sentido de fé? Teria a fé realmente o tamanho de um grão de mostarda? Seria uma montanha de pedras, terra e árvores realmente mudada de lugar com o simples fatos de dizermos que temos fé? Obviamente que não podemos interpretar literalmente essas palavras, pois a fé não é sólida como um grão de mostarda e tampouco basta acreditarmos que uma montanha sólida será removida simplesmente por que acreditamos que nossa fé irá movê-la.

É necessário muita fé para mover uma montanha. A fé dos engenheiros, motoristas de caminhão e retroescavadeiras e trabalhadores que utilizarem as picaretas para tal objetivo. Mas não basta a fé. A montanha somente será movida se todos esses trabalhadores executarem suas atividades de forma orquestrada. Acontece todos os dias.

Mas qual o verdadeiro sentido de fé, grão de mostarda e montanha? Kardec irá nos socorrer no item 2 do capítulo XIX (A Fé Transporta Montanhas) do Evangelho segundo o Espiritismo:

“Aqui, porém, unicamente no sentido moral se devem entender essas palavras. As montanhas que a fé desloca são as dificuldades, as resistências, a má vontade, em suma, com que se depara da parte dos homens, ainda quando se trate das melhores coisas.

Os preconceitos da rotina, o interesse material, o egoísmo, a cegueira do fanatismo e as paixões orgulhosas são outras tantas montanhas que barram o caminho a quem trabalha pelo progresso da Humanidade. A fé robusta dá a perseverança, a energia e os recursos que fazem se vençam os obstáculos, assim nas pequenas coisas, que nas grandes.

Da fé vacilante resultam a incerteza e a hesitação de que se aproveitam os adversários que se têm de combater; essa fé não procura os meios de vencer, porque não acredita que possa vencer.”

E arremata Kardec no item 7 do mesmo capítulo XIX do ESE:

“A fé raciocinada, por se apoiar nos fatos e na lógica, nenhuma obscuridade deixa. A criatura então crê, porque tem certeza, e ninguém tem certeza senão porque compreendeu. Eis por que não se dobra. Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.”

Ânimo! Coragem! Preguemos pelo exemplo a nossa fé. Preguemos pelo exemplo nossas obras. Preguemos pela nossa esperança firme. Disse o Cristo: VAI! Que nossa fé possa curar nossas doenças da alma. Disse o Cristo: VAI! Que possamos auxiliar a todos que encontrarmos.

Sejamos felizes. Hoje e sempre.

REFERÊNCIAS:

[1] DIAS, Haroldo Dutra, ob. citada.

[2] Recomendamos a leitura do item “III - Notícias Históricas” da Introdução do Evangelho segundo o Espiritismo para a correta compreensão dos termos fariseus e saduceus.

[3] “Imortalidade e Religião. (...) A religião é um corpo vivo de ação permanente em que o cérebro e o coração proclamam as grandezas da imortalidade. A religião é a grande reveladora da vida na eternidade. A religião é a reveladora; a imortalidade é a Revelação. Nascidas juntas, uma completa a outra. A revelação é pedra sobre a qual edificou o Cristo a sua Igreja: super hanc petram edificado ecllesiam meam, a imortalidade é a Revelação” SCHUTEL, Cairbar, Parábolas e ensinos de Jesus, Matão:SP, editora O Clarim, 2012, página 268.

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