Siá Tonha cap. XXV - Culpa e Libertação III




Anacleto desceu do ônibus e se caminhou decididamente para o local onde estava o móvel da sua estada ali. Quantos anos? Muitos. Havia perdido a conta, ou melhor, deixara de contá-los. A cidade estava diferente. Tinha crescido, novos prédios, ruas que tinham sido abertas e o deixaram meio confuso e desorientado. Mas a torre da igreja, ah! Essa era inconfundível, dominando a paisagem. O viajante seguiu naquela direção, porque sabia que lá estava o casario antigo, o centro da cidade tão conhecido seu. Havia, no entanto, uma movimentação estranha de soldados, carros do exército e poucas pessoas na rua. Tivera dificuldade no desembarque com revista e exame dos seus documentos. Mas estava habituado a ser visto com desconfiança na rua e na pensão onde morava, na qual recebiam visitas policiais seguidamente em busca de foragidos e suspeitos, portanto achara natural o incidente, mas agora percebia que era uma situação diferente, os “milicos” estavam por todo o canto.

Viajara a noite inteira e sentia fome. Mexeu na pequena sacola onde juntara alguns trocados que guardava dos trabalhos que fazia e das ajudas que o Dr. Alírio sempre lhe dava. Olhou em volta e viu uma placa de calçada onde estava escrito que ofereciam um café com pão. Separou os $ réis para pagar e entrou no local. Estava limpo, com a barba feita, pois havia se preparado para aquele dia, a fim de não fazer uma figura tão triste diante dos filhos. O dono do bar o atendeu com gentileza, tinha um sotaque uruguaio bem pronunciado, como muitos fronteiriços que se estabeleceram do lado do Brasil.

- O que se passa com essa “milicada” toda na rua, perguntou Anacleto depois de perceber que o comerciante era dado a uma boa prosa.

- Entonces hombre não sabes? Os comunistas! Mataram quatro ontem, foi uma carnificina! Os milicos tomaram tudo. Hay gente presa, hay gente morta, ferida. Uns se bandearam para o Uruguai. O Presidente Dutra é um tirano, mesmo assim está uma baderna, hombre, uma baderna. Anacleto não entendia do que ele falava, pois nunca tomou conhecimento de política, não se interessava por isso. Seu mundo ficara tão obtuso que nem estas questões que fervilhavam nas rodas de conversa em todos os lugares chamavam sua atenção.

Sacudiu a cabeça e tomou o café, pagou e continuou o seu caminho.

Avistou de longe a praça. As árvores tinham crescido e mal dava para entrever a fachada do casarão de grandes janelas com sacadas, a escadaria de mármore. Ficou hipnotizado pela visão que o mergulhava o passado. Ali estava a casa dos seus pais, onde passara a sua infância a sua juventude.

Foi atravessando a grande praça até ficar de frente para o imponente solar que ainda estava com as janelas e portas cerradas. Procurou um banco da praça e sentou para dar asas às suas lembranças e elas vieram em torrentes.

Lembrou-se da noite fatídica em que Antonio Pedro o expulsou e viu-se novamente, naqueles degraus, sendo insultado e despejado de sua própria casa.

Lágrimas quentes começaram a escorrer pelo seu rosto dando vazão aos soluços. Não, ele não podia perdoar aquele facínora, não ele queria matá-lo. Por que não fizera isto? Seria preferível ter ido parar na prisão, mas sabê-lo morto.

Siá Tonha percebendo a luta titânica que se travava no íntimo do seu tutelado, reeditando os impulsos do degolador de tanta vítima, aproximou-se o enlaçando fluidicamente e falando a sua alma sofrida:

“-” Meu filho, não é fácil perdoar. Não penses que existem almas mais afeitas a esse ato, sem um grande esforço interior.”

Com muita doçura Antonia foi contando a história de um nobre francês que se dedicou a divulgar os ensinos do Cristo e recolheu por conta disto muitos espinhos, suportou muitas intrigas, perseguições e traições, vindo a morrer em grande solidão, mas que mesmo assim legou uma bela mensagem de amor aos inimigos. Ele se chamava Fènelon e quando recomenda amar os que nos ofendem diz que “Penoso vos é o sacrifício de amardes os que vos ultrajam e perseguem; mas, precisamente, esse sacrifício é que vos torna superiores a eles. Se os odiásseis, como vos odeiam, não valeríeis mais do que eles. Amá-los é a hóstia imácula que ofereceis a Deus na ara dos vossos corações, hóstia de agradável aroma e cujo perfume lhe sobe até o seio. Se bem a lei de amor mande que cada um ame indistintamente a todos os seus irmãos, ela não couraça o coração contra os maus procederes; esta é, ao contrário, a prova mais angustiosa, e eu o sei bem, porquanto, durante a minha última existência terrena, experimentei essa tortura. Mas Deus lá está e pune nesta vida e na outros os que violam a lei de amor.” Fénelon. (Bordéus, 1861.) “[1]

O atendimento de Antonia teve o efeito salutar de confortar o coração de Anacleto e fazê-lo retomar o motivo que o trouxera até ali.

Precisava ter forças e ir adiante. Aguardaria ali até que o movimento na casa anunciasse que os seus moradores estavam acordados, entraria e se identificaria, falaria com seus filhos, pediria perdão e depois voltaria para a vida que escolhera para si.

Foi arrancado dos seus pensamentos quando duas viaturas do Exército romperam a rua e pararam diante do palacete, delas saltando vários militares que cercaram a casa, fecharam a rua enquanto um, que parecia ser um oficial, e outra autoridade civil, galgaram os degraus de par em par e o civil esmurrou a porta gritando: Abra! É a polícia! Repetidas vezes esmurrou a porta até ser aberta, quando os dois sinalizaram para mais uma dúzia de soldados que adentraram a casa.

Anacleto sentiu uma grande aflição, pois não sabia quem estava lá dentro. Seus filhos? Teriam filhos? Seus netos – mas uma angústia começou a se avolumar no seu peito, ninguém lá o conhecia mais, ao invés de ajudar poderia complicar a situação. Foi quando os soldados saíram trazendo um homem – ele estava um pouco mais gordo, calvo, com o bigode e uma barba grisalha e rala – mas ele o reconheceria entre mil rostos: era Antonio Pedro.

Impossível descrever o que se passou naquela alma em questão de segundos. O homem que o expulsara da sua casa agora estava ali sendo retirado algemado, sabe-se lá por que, mas estava passando pelo mesmo sofrimento que lhe impusera. Era inevitável o sabor da vingança, O seu coração experimentava um calor estranho que parecia ir consumindo as suas entranhas, envolvendo-lhe o rosto. Os batimentos descompassados, os olhos fora das órbitas contemplavam a cena do preso que tentava se justificar aos soldados, se debatendo sem lograr êxito. Este breve momento de imersão nos sentimentos nocivos do ódio e da vindita cederam lugar ao desespero, quando desceu a escadaria, envolta em um roupão de dormir, uma mulher que correu para o prisioneiro, gritando:

- Papai, papai! Ele é inocente, por favor, vocês não podem fazer isto.

Agarra-se aos soldados na vã tentativa de impedir que levem o homem detido, mas é repelida com força pelos brutamontes, desequilibra-se e cai batendo a cabeça no solo.

Anacleto nunca teve qualquer instinto paternal, nunca cuidou dos filhos, mas o ímpeto foi tão forte que quando deu por si estava ao lado da mulher, que algo dizia ao seu coração ser a sua filha.

- Por favor, senhora! Deixe-me ajudá-la! Uma das criadas da mansão descia as escadas temerosa, correndo na direção da patroa, a qual era ajudada pelo estranho. Um corte na cabeça sangrava muito, o que acabou fazendo com que ela perdesse os sentidos. Mais pessoas acorriam de dentro da casa, enquanto Anacleto carregava a mulher desfalecida, subindo a escadaria. Nesse momento um carro parou e dois homens desceram gesticulando muito e adentraram, olhando para ele com ar ameaçador.

- O que esse homem faz aqui?

- Chamem um médico?

- Quem fez isso?

Eram muitas perguntas todas ao mesmo tempo, quando outra moça chegou á sala e segurando Anacleto pelo braço falou.

- Obrigada, senhor! Eu vi da janela que o senhor socorreu minha irmã. Sou-lhe muito grata, mas agora vou pedir que o senhor saia, porque estão todos muito nervosos. Deixe o seu nome e endereço com um dos criados. Depois vou procurá-lo e agradecer-lhe o auxílio. Foi encaminhando-o para a porta.

Anacleto sentiu um nó na garganta e não conseguiu falar mais nada.

Ainda na rua contemplou a fachada do casarão, a rua estava cheia de curiosos que se apinhavam para saber o que tinha acontecido. Levaram o Seu Antonio Pedro, murmuravam. Todos estarrecidos, pois corria de boca em boca que ele era comunista.

Ele precisa esclarecer isto, pois agora estava ali sem saber o que fazer, colhido que fora em meio aquela confusão toda.

Buscou um cantinho silencioso do parque, sentou e fechou os olhos. Precisava pensar. Retirou dos seus pertences o Evangelho segundo o Espiritismo que carregava consigo e o abriu para orientar os seus pensamentos e acalmar o seu coração.



Referências: [1] Kardec, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo, Cap. XIII. Amai os vossos inimigos.

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