Não separei o que Deus uniu - Siá Tonha cap. XXII



“Nem a lei civil, porém, nem os compromissos que ela faz se contraiam podem suprir a lei do amor, se esta não preside à união, resultando, freqüentemente, separarem-se por si mesmos os que à força se uniram; torna-se um perjúrio, se pronunciado como fórmula banal, o juramento feito ao pé do altar. Daí as uniões infelizes, que acabam tornando-se criminosas, dupla desgraça que se evitaria ao estabelecerem-se as condições do matrimônio, se não abstraísse da única que o sanciona aos olhos de Deus: a lei de amor. Ao dizer Deus: “Não sereis senão uma só carne”, e quando Jesus disse: “Não separeis o que Deus uniu”, essas palavras se devem entender com referência à união segundo a lei imutável de Deus e não segundo a lei mutável dos homens.

O Evangelho segundo o Espiritismo - Capítulo XXII - Não separareis o que Deus juntou - Indissolubilidade do casamento – ITEM 3


Olhando o céu estrelado da noite quieta e gelada, Alírio ruminava os pensamentos diante de tudo o que Anacleto lhe confidenciara.


Identificava o quanto é desafiadora a caridade, a compaixão para com os infortúnios ocultos.


Era simples ter piedade para com os dramas dos miseráveis que atendia semanalmente em suas andanças. Ouvindo-os, identificava a falta de oportunidade, as injustiças, o abandono, a doença mental que justificavam, ao seu modo de ver, a situação de penúria a que se reduziam. Mas com Anacleto fora diferente. Um jovem mimado, rico, com uma família que lhe dera apoio, mas ele desprezara tudo, pelo egoísmo, orgulho, egocentrismo. Mesmo o alcoolismo, segundo lhe revelara ser portador, quando se decidiu não voltou mais a consumir bebidas alcóolicas, o que prova que não era um dependente, mas sim alguém que fazia uso abusivo do álcool.


Naquele dia não saíram para os atendimentos na rua, pois quando a conversa entre eles se encerrou, ambos estavam extenuados. Anacleto voltou para a sua pensão e o médico ficou ali em profundas e graves reflexões.


Continuando a narrativa, Anacleto contou que o primo Antonio Pedro foi se tornando cada vez mais presente na sua casa, assumindo as tarefas que eram suas e que negligenciara completamente.


Os negócios da família foram deixados completamente nas mãos do solícito primo, pois ele se revelara um ótimo administrador, As reservas financeiras aumentaram, a fazenda dobrara a produção e as feiras de gado voltaram a ter a presença da marca criada pelo genitor, o que deu a Anacleto a tranquilidade de retomar as festas, as bebedeiras e as relações extraconjugais que não fazia questão de esconder mais.


Transcorreram quase cinco anos nessa situação em que o negligente herdeiro se tornou mais e mais alheio a todas as atividades envolvendo patrimônio, família, apenas assinando documentos, ordens de pagamento, contratos, papéis tantos que lhe eram apresentados pelo diligente administrador, Antonio Pedro. Somente se incomodava e tomava contas ao rapaz, quando sua conta bancária não estava com valores altos para que ele exercesse a prodigalidade costumeira.


Certo dia em que não estava muito bem fisicamente, com sintomas de uma gripe que lhe tirava a disposição para a orgia voltou mais cedo para casa e – milagrosamente – não estava embriagado. Tão acostumado estava com a sensação de atordoamento causada pelo álcool, que lhe imprimia também um humor debochado e fútil abriu a porta da mansão e na escuridão tropeçou em uma das mesas de apoio derrubando, com grande estrondo, uma das estatuárias de adorno. Tinha um linguajar obsceno e vulgar e começou a dizer palavras chulas reclamando, amaldiçoando. Acendeu a luz e se dirigiu aos aposentos de Lucélia para iniciar uma discussão, usando o incidente como causa.


Parou no caminho, pois viu esgueirar-se do quarto da esposa um vulto no qual reconheceu Antonio Pedro. Não tinha mais nenhum sentimento pela mulher, mas o instinto machista e o orgulho fizeram-no sentir um duro golpe.


Adentrou ao cômodo, onde a esposa estava, aos berros, lançando-lhe ao rosto o seu passado, dizendo que ela nunca deixara de ser a prostituta que ele recolhera naquele bordel.


Alírio lembrava das palavras de Anacleto contando-lhe a cena dolorosa.


-Sabe doutor, eu tive naquele dia vontade de avançar sobre ela e esganá-la, mas algo me segurava, sentia um dormência no meu corpo que embora gritasse e esbravejasse não conseguia me mover. Fiquei assim quando ele retornou ao nosso quarto, no instante em que eu estava mandando-a embora de casa. O que ouvi naquele momento me paralisou.


- Anacleto, seu infame. Você é quem vai sair daqui e agora. Não vamos suportar mais a sua presença odiosa, indigna. Saia, gritava Antonio Pedro.


- Saia você seu miserável! Esta é a minha casa. Acolhi você, te dei um emprego excelente de administrador dos meus bens e você me apunhala pelas costas juntamente com essa meretriz.


Antonio avançou e esmurrou-me, sem que eu conseguisse esboçar reação, fui sendo empurrando para fora da minha casa sem entender.


- Vou chamar a polícia gritei, não podem expulsar-me da minha casa.


- Chame e veremos quem tem razão, disse-me Antonio Pedro. Esta casa é minha Anacleto! Minha! Você vendeu-a para mim, juntamente com as suas terras, fazendas e ainda me deve uma grande soma, que deposito todo o mês na sua conta e você não me paga. Você dilapidou o seu patrimônio e eu o salvei. Tenho custeado suas orgias e mantido a dignidade da sua família. Você é um ingrato, disse-me o fascínora com um sorriso debochado.


- Não ouvi mais nada doutor, o choque foi grande demais. Eu sabia que era uma armação odiosa, mas realmente assinara muita coisa sem ler, sem dar por conta. Mas Lucélia, sim. Ela sempre foi muito atenta. Então ficou cristalina para mim a trama na qual eu fora colhido.


Alírio rememorando a conversa com o amigo foi, pouco a pouco, aquietando o coração. Não lhe cabia julgar, afinal há uma inteligência maior que dirige tudo e a vida já tinha ensinado muito àquele pobre homem.


Disse Anacleto que buscou junto aos velhos amigos dos dias de festas e orgias amparo para reverter a sua situação. Mas eram criaturas tíbias, fracas que não ameaçariam a “boa vida” para se envolver em uma disputa daquelas. O antigo advogado do pai, que o conhecera desde criança, disse-lhe que era melhor para todos que alguém cuidasse da família que ele esquecera. Vencido e sozinho fugiu do lugar onde nascera, vagueou muito tempo sem destino, vivendo da caridade alheia, e a doença mental que o levara à indiferença, à ingestão excessiva de álcool passou a fazê-lo ter alucinações, visões que o perseguiam até o dia em que foi encontrado por Alírio sob a ponte.


Mas uma dúvida ficou e a esta nem Anacleto sabia responder. Por que Lucélia estava naquelas condições, na rua, tão miserável quanto ele? Nunca mais tivera notícias da família, nem procurara saber, e muito menos do primo usurpador.


Alírio estava às voltas com uma emoção a que não estava acostumado. Podia dizer que sentia quase uma raiva do amigo. Tivesse uma percepção extrasensorial mais aguçada poderia ver o Espírito com o sinal de um ferimento profundo na região do pescoço, rodeando-o ameaçador, espumando de ódio e que foi aos poucos adormecido por Siá Tonha, o que devolveu ao médico um pouco de tranquilidade.

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