Histórias da Pandemia - Um cuidado especial



As bênçãos que se renovam a cada momento, quando da realização do Evangelho da manhã, são indescritíveis, tanto na sua beleza quanto na revelação da incondicional Misericórdia e Bondade Divinas.


Isabel recosta-se na poltrona, contemplando a natureza que se descortina, o verde do monte emoldurado pelo azul do céu pincelado de nuvens brancas ampara os raios do sol que já espiam luminosos pela crista da elevação.


A sensação de flutuar no ar e abandonar o corpo é o prenúncio e o sinal inequívoco de que o Benfeitor Sepé iniciará, com o sacerdócio das equipes de Carlos e Honório, a mais um dos atendimentos que são muitos levados a efeito em todas as horas do dia, mas que Isabel, pela limitação dos seus potenciais medianímicos, participa apenas daquele momento matinal em que, após a troca de turno nos hospitais e demais lugares de atendimento aos enfermos, os médicos, enfermeiros e demais profissionais que se liberaram, após horas ininterruptas de faina, recolhem-se ao reconforto do sono.


Aos poucos o médium vai observando de forma bem restrita as enfermarias coordenadas para o refazimento das equipes de saúde, encarnadas. Naquela manhã sua atuação estava ligada aos postos destinados aos profissionais viciados em múltiplas drogas para auxiliar no sono e diminuir os impactos que lhes causam os sofrimentos alheios presenciados durante o plantão. Mesmo estando afeitos ao tratamento e ao contato com cenas dolorosas, a repetição sistemática, quase sem lapso temporal, da visita da morte e de todo o seu cortejo de dores, vai imprimindo nos tecidos sutis da mente, as palavras, os gritos, os lamentos que sem o interregno para serem dissipados e absorvidos por outras ideações, forma um círculo vicioso e afligente nesses servidores. Os mais frágeis emocionalmente buscavam na fuga pelas drogas, lícitas ou não, um alívio ilusório.


Honório conectou aos cinco médiuns em desdobramento e em oração, que integravam a caravana terrena, os transmissores de fluídos vitais saturados de energias que a prece no Evangelho em realização impregnava, visando direcionar recursos para os centros de forças, especialmente o centro cardíaco dos pacientes adormecidos.


Na entrada da enfermaria cada um dos cinco transmissores era reconectado em um aparelho semelhante a um condensador, que ficava sob intenso facho luminoso, e dali se ramificavam milhares de filetes que adentravam as estruturas físicas e fluídicas dos pacientes adormecidos. Sim todos os profissionais da saúde ali trazidos se transformavam em pacientes, tratados amorosamente pelos Benfeitores Espirituais.


A mente de Sepé e sua falange funcionavam como usina poderosa a transformar os recursos retirados dos médiuns que se disponibilizam a tais misteres, juntamente com as emanações da natureza, que geridas pelos sentimentos iluminados daquelas almas retornavam como medicação para sustentar todos os que, minimamente, se alinhavam em benefício da vida dos seus semelhantes.


Segurando com gentileza o braço da servidora em desdobramento conduziu-a, junto com os demais médiuns, para a observação de alguns pacientes daquele grupo peculiar. Muitos dos seres ali recolhidos agitavam-se com os olhos entreabertos como se estivessem a contemplar cenas terrificantes, embora o corpo estivesse chumbado pela ingestão de drogas, o sono não se fazia reparador, mas atormentado por indução magnética de Espíritos dedicados a promover o caos, aproveitando-se do pavor causado pelo avanço da contaminação e das ideias polarizadas que causam atritos e geram ondas de choque desaglutinadoras da saúde mental de tantas criaturas.


Uma aparelhagem minúscula que mapeava os pensamentos e as emoções, bem como os seus impactos nas células do corpo físico foi ajustada em uma das pacientes. Era a enfermeira Mara, vamos chamá-la assim, de aproximadamente 40 anos, e podíamos ver nas tessituras sutis do seu perispírito, assim como no funcionamento celular a ressonância dos pensamentos e dos sentimentos de revolta pelas horas de trabalho em excesso, gerada pelo descompromisso dos gestores do hospital público em que trabalhava, onde faltava tudo, desde equipamentos de proteção, máscaras, luvas, aventais, medicação, leito para os pacientes e tudo o mais que tornava a situação mais dolorosa ainda, sem ação pronta e eficiente de quem deveria responder a tempo para minimizar as agruras pelas quais estavam passando as criaturas humanas.


Observava, Honório, que as emoções de revolta impediam a produção de anticorpos em níveis suficientes para bloquear a invasão externa, já se identificando nas vias aéreas superiores uma proliferação intensa de vírus mentais que abriam campo fértil para a instalação do Coronavirus ao menor descuido.


O aparelho foi se deslocando por vários leitos e via-se em muitos a mesma situação que se tratava de uma predisposição para o contágio.


Honório ia orientando os atendentes para o direcionamento dos fluídos que eram carreados pelos filetes que escoavam da usina vibratória. Com a emissão de ondas mentais eles iam modulando a intensidade da aplicação e também variando a tonalidade que ia do brilhante, passando por vários matizes de lilás e também muitos tons de verde.


- A forma como percebes, Isabel, os fluídos em cores e intensidade, se devem ao diagnóstico feito pelos nossos assistentes, que aponta o enraizamento e a persistência dos pensamentos e sentimentos negativos ou positivos de cada um.


- É semelhante à pulverização de lavouras, quando há invasão de pragas e necessita-se avaliar o componente higienizador para inibir a proliferação, e também proteger os elementos que funcionam como vitalizadores das moléculas sãs.


Isabel perguntou com timidez.


- Essas aplicações impedirão a contaminação desses profissionais?


- Há sempre o componente do livre arbítrio em todas as questões, asseverou Honório, que afetam a trajetória das criaturas. Esses atendimentos infundem além de substâncias que combatem os vibriões mentais, também elementos fluídicos que fortalecem o dinamismo da produção de ideias nobres, mas a vitória será sempre fruto da consciência de cada um.


Todos os aprendizes olharam para Honório na expectativa de obterem maiores esclarecimento para a questão.


- Sim, meus filhos! A corrente mental é como a corrente sanguínea, pode receber transfusão de elementos psíquicos oriundos do Mundo Maior e processará tais recursos na mesma razão que se dispuser a metabolizar em benefício próprio ou os eliminará por resistência a fortalecer as sugestões recebidas.


- Isabel voltou a perguntar: - isto significa dizer que o ser humano, por vezes, rejeita as benesses que tão generosamente lhes são ofertadas, Irmão Honório? Todo esse trabalho aqui realizado, nem sempre se reveste de utilidade à criatura por sua própria deliberação?


- Pense, Isabel - Não é isto que fazemos, amiúde? Malbaratar os recursos recebidos? A vida, a inteligência, os talentos todos?


Voltou para junto da enfermeira adormecida e disse aos médiuns atentos e pensativos:


- Amanhã ela acordará com sugestões para dedicar-se ao trabalho, fazer o melhor e buscar entender as dificuldades que cercam as suas atividades, mesmo com razões sobejas para reprovar as ações praticadas pela Direção do Hospital, pelos órgãos públicos, uma vez que não lhe está ao alcance resolver esse quadro. A transfusão fluídica que ora recebe é para auxiliar na liberação da dopamina, da serotonina e da adrenalina- estas substâncias químicas produzidas pelos neurônios - e que regulam o humor e a produção de alguns hormônios, para assim diminuir os índices de tristeza e revolta, ativando o bem-estar e ampliando as resistências ao contágio. No entanto esta é a décima aplicação que ela recebe desde o início da pandemia e continua refratária, rejeitando sistematicamente os estímulos fixados nos neurônios, comprometendo o campo vibratório e abrindo brechas à enfermidade.


Muitos daqueles profissionais ali detinham, na intimidade de suas almas, esse surdo conflito que impedia uma proteção efetiva contra a doença. Não havia, por vezes, nenhum comprometimento pretérito que lhes estivesse assinalado para a desencarnação durante a pandemia, e eram pessoas laboriosas, no cumprimento do dever, mas, no entanto, não se determinavam a ajustar o sentimento à nobreza do trabalho que realizavam, para retirarem dele a utilidade para a sua evolução moral e até material. Esta é uma das causas pelas quais muitos trabalhadores da saúde tombaram na linha de frente, ao passo que outros lutaram e praticamente renasceram, revendo seus valores e posturas. E muitos não contraíram o vírus embora sustentando a mesma luta sem quartel durante o longo período.


Acompanhamos a nossa enfermeira por mais três meses, quando o vírus a atingiu, potencializando a revolta que sentia, agora já transformada em ódio indiscriminado por todos e uma descrença na bondade divina. Foi fulminante a ação nos órgãos do corpo físico e também as mazelas no perispírito.


Quando auxiliada na liberação dos despojos físicos e recolhida pelos atendentes amorosos da equipe de Honório recebeu, no entanto, o reflexo do bem que fizera no tempo de exercício da profissão.


A Providência Divina não olvida as migalhas que nós, suas criaturas, entregamos no contexto da nossa trajetória.


A noite já ia avançada e o temporal caía saneador sobre a cidade. O necrotério apinhado de cadáveres e visitado por chusmas de entidades vampirizadoras, disputando ascendência sobre alguns desencarnados com severos comprometimentos, tinha dimensões espirituais bem variadas. Em torno do local de preparação do corpo da nossa enfermeira Mara formava-se uma cabine que a isolava e praticamente tornava-a invisível aos infelizes vampiros. Diferentemente do sono agitado a que se acostumara sob o efeito das drogas, quando buscava o repouso físico, verificava-se que agora o Espírito livre do corpo desfrutava uma espécie de adormecimento mais profundo.


- O quinteto mediúnico aproximou-se e percebeu o querido Instrutor Honório, em profundo estado de oração ao lado do corpo. Do seu centro cerebral emanava um material diáfano que foi envolvendo a tenda fluídica, nela refletindo algumas imagens de pessoas em recuperação – encarnados uns, desencarnados outros – a emitirem pensamentos de gratidão àquela que lhes foi o Cireneu nas horas aflitivas da doença implacável.


Quase que em coro, os médiuns externaram a dúvida:


- Como sabem que ela desencarnou agora?


De imediato, a mente de Honório respondeu-lhes sem palavras, com muito bom humor, fazendo-lhes sentir a ingenuidade da pergunta. Claro! As comunicações realizadas pela Espiritualidade Maior, em benefício de todos nós, fazem as nossas fibras óticas parecer tecnologia pré-histórica.


O bem que se faz sempre produz em nosso benefício.


Mara, a nossa enfermeira, embora não tenha avançado nos rumos pretendidos de iluminação do próprio coração, fez o bem a muitos e isto lhe oportunizava, neste momento, uma retirada bem assistida do palco da vida para continuar o tratamento das dores e o planejamento de novas lutas.


Aquela dimensão do necrotério foi se inundando de suaves acordes e de luminosidade agradável, enquanto os atendentes amorosos conduziam o Espírito para o leito de adaptação e recomeço que já lhe estava sendo preparado.


Espírito Oscar José Pithan

Médium - MEB

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