Histórias da pandemia - Suicídio voluntário



A brisa suave da noite, o cintilar das estrelas distantes assim como a majestade da lua cheia compunham uma paisagem paradisíaca, que se não fosse as nuvens de preocupação e dor que circundavam o Orbe deixariam a impressão de que a Terra vivia momentos de serenidade e paz características de um mundo regenerado.


Mas, o quadro provacional e expiatório da pandemia que se alastrava impiedosa, impulsionada pelas ações irresponsáveis e criminosas dos habitantes do planeta era aterrorizante se visto pela ótica das percepções espirituais. Multidões a esmo de desencarnados colhidos, em pleno vigor físico ou já no declínio das forças, pela morte se debatiam sem compreender a sua realidade, atirando-se uns contra os outros, alucinados em busca de lenitivo para as suas dores.


Sepé e suas falanges de atendentes recolhiam os que exaustos se deixavam conduzir, porém mesmo no limite das forças, muitos eram extremamente materializados e revoltados com as consequências da própria insensatez e por isso não conseguiam perceber o atendimento que lhes estava sendo administrado.


Essa era a situação de um homem jovem que deveria ter uns 40 anos e sempre descuidara de todos os alertas para que adotasse as medidas sanitárias recomendadas. Enfermo, resistiu até não ter mais forças para se erguer do leito, a realizar os testes e se isolar. Contaminara a família toda. A esposa ainda encarnada lutava na Unidade de Tratamento Intensivo onde fora entubada. A mãe que com ele tivera contato já desencarnara e ele quando chegou para ser atendido nada mais restava a fazer. O quadro era de muita tristeza.


Atendido ainda no necrotério, abarrotado de corpos e espíritos aturdidos e desesperados, Felix era um dos muitos que as falanges do amado Cacique levaram para os cuidados dos enfermeiros da equipe do Dr. Carlos Barbosa, no grande anexo hospitalar erigido para o auxílio. Estava contido pelas amarras plasmadas pela mente dos trabalhadores espirituais. A fisionomia cianótica que caracteriza a dificuldade extrema de respirar permanecia como sintoma impresso no perispírito. Os olhos fora das órbitas e os longos estertores foram sendo tratados, à medida que o médico generoso elaborava uma substância gelatinosa com elementos retirados na natureza e dos encarnados, médiuns, integrantes da equipe e que cediam durante o desdobramento pelo sono, os recursos vitais para que o Espírito fosse posto em profundo sono, a fim de que as suas penas adquirissem características mais espirituais do que físicas, dado a quantidade de eflúvios vitais que retinha na sua condição de suicida pela escolha voluntária de se expor ao contágio.


Muitos ali, na grande enfermaria, detinham essa condição – suicidas – pela exposição deliberada ao vírus. A dor desses seres era tão intensa que a Misericórdia divina, de acréscimo, os privou dos horrores dos vales engendrados pelos que se jogam nesse vórtice enganoso da fuga da vida, porque a debilidade e as sequelas que a doença impõe, torna o próprio sofrimento dela decorrente uma expiação tão ou mais acerba que a dos suicidas nos vales conhecidos onde se aglomeram estas almas.


Os trabalhadores que se distribuem nas enfermarias como aquela, no Complexo que é uma extensão do Hospital Maria de Nazaré, são almas experimentadas nas ações empreendidas nos redutos trevosos de padecimentos mais densos, porquanto naquelas condições dos sofredores que minimizaram as diretrizes das autoridades terrenas e, por via de consequência, vilipendiaram os deveres de fraternidade, estavam seres cuja veste física ocultava aleijões morais severos, monstros com roupagens que lhes foram cedidas para o aperfeiçoamento junto à civilização e que eles não souberam aproveitar. Verdadeiros canibais que manipulados pelos seus comparsas de crimes medonhos do passado, da espiritualidade os comandaram para espalhar o vírus entre os homens, atingindo muitas vezes os seus entes mais próximos, dor com a qual após estes momentos de paroxismos, eles terão de se haver e que os enlouquecerá, tão logo cessem os sintomas remanescentes da enfermidade experimentada no corpo.


- Larguem-me! Soltem-me! Murmurava o infeliz deixando escorrer uma substância viscosa pelo canto da boca. Envenenaram-me para que eu fizesse parte dessa estatística mentirosa de uma pandemia inventada.


O bondoso Carlos aproximou-se do pobre homem e foi falando com serenidade.


- Precisamos que você se acalme e se entregue ao tratamento. Não precisa prolongar o martírio que experimenta.


- Conheço essas técnicas, sussurrava o infeliz. Fiz isso nos campos da morte. Sei como provocar sintomas, quando queremos provar nossas teses. Sei como fazer isto. Agora esses judeus malditos me pegaram, pegaram minha mãe, mas eu vou sair daqui e vou mostrar a eles como se faz alguém sofrer. Eu vou sobreviver.


- Amigo, lembre-se! Você não é mais um carrasco nazista. Isso foi há muito tempo. Você renasceu em uma família brasileira, teve uma vida simples, trabalhando, constituiu família, não há judeus contra você.


Carlos percebendo a imersão do enfermo no passado acentuou a força das palavras, plasmando diante dele a imagem dos sítios onde vivera até a desencarnação. A cidade bucólica do interior, os filhos, a esposa, a fim de auxiliar a desfazer a confusão causada pelo complexo extremo de culpa, impresso nas suas reminiscências. Chamou-o pelo nome - Félix – este é o seu nome. Olhe estas imagens e deixe-nos tratá-lo.


Ele, ao absorver as imagens projetadas na sua tela mental, pareceu ter sentido um choque, abriu desmesuradamente os olhos e a boca e ficou hirto, como se uma corrente de grande potência o perpassasse. Permaneceu assim por alguns segundos e depois foi arrefecendo a tensão, começando a exalar da estrutura perispirítica uma densa nuvem, com o odor que mediava entre sangue e dejetos humanos que foram sendo recolhidos por dois atendentes, em processo de sucção para um grande tubo de ensaio onde se via uma transformação do material em vários elementos que eram encaminhados para outras ampolas a ele conectadas.


Carlos conduzia o atendimento, quando Honório se aproximou, retirando as luvas que ainda plasmava para o trabalho à maneira das atividades médicas que desenvolvia na Terra. Os Espíritos ainda mantêm os seus conhecimentos e convicções por longo tempo após a desencarnação, o que não os impede de labutar e crescer. Verificávamos que dentre as equipes havia os que utilizavam todos os equipamentos que eram usuais nos hospitais terrenos, outros, como Carlos, já possuíam o conhecimento, as habilidades e atitudes que os situavam em outro patamar de discernimento e vibração que tornava desnecessário os aparatos utilizados por alguns membros da equipe.


Era um treinamento de disciplina e que estimulava sempre o aprimoramento das faculdades morais.


- Honório, observe que o irmão Felix começa a aprofundar o sono para o desenlace dos sintomas físicos e a retomada das lembranças atuais. Há um longo processo de suplício moral pela frente, quando forem menos intensas as recordações das agruras físicas da moléstia e ele se der conta que dizimou as pessoas da família com a sua incúria.


Nossa contribuição nestes momentos é liberá-lo para a reeducação sofrida que o aguarda. Vibremos para que a sua revolta se escoe o mais breve possível, possibilitando o aceite das injunções educativas que não serão menos dolorosas, mas necessárias.


Honório emocionou-se ao ouvir as lições do seu Mestre querido. Ele conhecia, sobejamente, essas trajetórias materialistas e o quanto elas eram nocivas aos que as mantinham e as impunham aos seus afetos.


Carlos interrompeu-lhe os pensamentos a fim de que as notas de tristeza não impregnassem o ambiente onde ela já circulava em teores superlativos, e precisava do equilíbrio das emoções e dos sentimentos dos trabalhadores ali em ação.


- Vamos ver os septicêmicos?


Colocou a mão sobre o ombro do pupilo e seguiram pelo corredor ladeado de folhagens do lado externo da parede transparente, que deixava ver o céu estrelado a se estender até o horizonte, emoldurando os belos jardins da Colônia, iluminados pelo majestoso plenilúnio.

Texto ditado pelo Espírito Oscar José Pitan

Por Maria Elisabeth Barbieri

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